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Onze momentos em que Portugal foi testemunha e interveniente da História contados pelos embaixadores portugueses que os viveram

Mil palavras não chegam para descrever os dias em que o mundo mudou. Aqueles pontos de não retorno que direcionaram o curso da História. Há imagens que simbolizam e representam esses dias. Como a de um homem negro a sair de 27 anos de cárcere. Ou a dos cidadãos que se libertam através do voto. Ou a de quatro homens a anunciar a guerra. Mas elas não mostram todos os rostos nem as vozes. Como o discurso de um embaixador que lança a campanha pela independência de um país ou o modo a organização de uma cimeira deu origem a um novo líder.

Em 4682 palavras revisitamos alguns dos mais importantes momentos da História contemporânea, guiados pelos embaixadores portugueses que os viveram de perto. Foram testemunhas e intervenientes. Vêm na senda de Jaime Batalha Reis, histórico diplomata do século XIX, que viveu de perto a transição da Rússia czarista para a revolução bolchevique e cujos telegramas para Lisboa chegam agora a livro, “Dos Romanov a Lenine”.

A instalação do regime a que assistia haveria de influenciar o mundo quase até ao fim do século XX. Até ao dia em que rostos felizes deitaram abaixo o Muro de Berlim. As fotografias mostram regozijo e euforia, mas o então embaixador em Berlim, Madeira de Andrade, recorda calma. Já há alguns dias tinha percebido que a queda do Muro se tornava previsível. Naquela noite, a 9 de novembro de 1989, estava num jantar do corpo diplomático no lado Leste. “Poucos dias antes, começou a haver declarações pacificadoras do Leste para facilitar as passagens e isso foi mais um passo no sentido do fim da República Democrática Alemã”, recorda, por e-mail, ao Expresso. Apesar de esperado, não havia uma data marcada. “As pessoas abordavam os guardas de fronteira, que não sabiam o que fazer porque não havia instruções muito claras. A abertura do Muro foi anunciada, mas isso não impediu que multidões viessem tentar ir para a parte ocidental.”

Marco I. A queda do Muro de Berlim...

Marco I. A queda do Muro de Berlim...

atónio pedro ferreira

... a libertação de Nelson Mandela a libertação de Nelson Mandela ...

... a libertação de Nelson Mandela a libertação de Nelson Mandela ...

reutes

... e o referendo pela independência de Timor-Leste

... e o referendo pela independência de Timor-Leste

Paulo Whitaker /REUTERS

Às 23h29, os soldados permitiam a primeira passagem de cidadãos. “O Leste comportou-se com relativa calma porque foi o primeiro a anunciar que estava aberta a fronteira. Pode dizer-se que foi muito calmo para o que se podia esperar”, recorda.

Abria-se uma porta na fronteira fechada a 13 de outubro de 1961. Oito meses depois da morte de Winfried Freudenberg, a última pessoa que perdeu a vida a tentar atravessar o muro. O nome dele juntou-se ao de outras 135 vítimas. Freudenberg tentou sobrevoar o muro num balão.

Só em outubro de 1990 a Alemanha se reunificava. A 11 de fevereiro desse ano, noutro continente, começava a unificação de outro povo. A segregada África do Sul dava os primeiros passos na construção de um país multirracial. Ao fim de 27 anos, Nelson Mandela era libertado da prisão. E com ele começava o fim do regime de apartheid, um sistema político que dividiu o país em zonas para negros e para brancos, arrastando os primeiros para os guetos da pobreza.

“Era um momento pelo qual toda a gente esperava. A libertação tinha sido marcada uma semana antes”, recorda José Cutileiro. Um dos poucos embaixadores no país — naquela altura as poucas representações diplomáticas, devido às sanções da ONU, estavam metade do ano em Cape Town e outra metade em Pretória —, Cutileiro foi o primeiro diplomata português a ir visitar os representantes do ANC (Congresso Nacional Africano), o partido de Mandela. E poucos dias depois da libertação do mítico líder, a 26 de fevereiro, encontrou-se com ele. “Pedi a Dullah Omar, que seria ministro, para interceder e podermos ser recebidos depressa.” Havia mais de meio milhão de portugueses em África do Sul.

José Cutileiro e o seu número dois, Álvaro Mendonça e Moura, um dos diplomatas responsáveis pela eleição de António Guterres para secretário-geral da ONU, foram recebidos na “modesta casa” no Soweto, onde Mandela vivia com a mulher, Winnie. Antes, tinha sido a vez do chairman da companhia anglo-americana de minas e a seguir iria falar com o representante do Zimbabwe, um homem branco.

Sentado num sofá velho, tapado por uma capulana, Mandela recebeu os portugueses com um pedido de desculpa. “É uma vergonha, mas eu nunca visitei o seu país.” Contou que tinha estado em Lisboa, em trânsito quando ia de Paris para Dacar, e que no aeroporto lhe deram uma garrafa de vinho do Porto. “Ainda dão?”, perguntou. “Era um grande político. Falou como se estivesse em falta para comigo. Eu senti que Portugal talvez pudesse ter feito mais.”

A reação da comunidade portuguesa foi tão variada quanto a sua composição. De um lado estavam os pobres, os mais próximos dos negros. E do outro lado gente próspera, ligada ao comércio. “Primeiro assustaram-se, houve alguma apreensão, medo. Mas a primeira comunidade estrangeira a dar um jantar a Mandela foi a comunidade portuguesa”, recorda Cutileiro.

Mandela foi um caso muito raro. Uma proximidade com os homens do seu círculo íntimo evitou que a visita de João de Deus Pinheiro, então ministro dos Negócios Estrangeiros, não se realizasse. Mandela tinha pedido que o governante só fosse depois de o ANC estar no poder e José Cutileiro ainda informou Lisboa, mas tal não foi possível.

“Estive no melhor tempo em África do Sul. Era evidente aquele momento. Desde a chegada de Gorbatchov que se sabia que aquilo ia acabar. Tudo mudava. E os sul-africanos perceberam isso, quando a sua posição enfraqueceu começaram as negociações, não se podia esperar que o regime branco caísse. Mandei dizer isto para Lisboa.” O grande sucesso da África do Sul, no entanto, está na forma como foi feita a transição, com as comissões para a verdade e reconciliação, sem criar tribunais. “É uma coisa de uma grande sabedoria. É a maneira de impedir a História de se tornar em vendetta. Mas não se deve só a Mandela. Ele era um homem raro. Uma figura muito acima do que é normal. Nunca encontrei ninguém como ele. Frederik De Klerk, mais próximo dos mortais, também era extraordinário. A posição da Igreja, com destaque para o arcebispo Desmond Tutu e para o reverendo Bowza, impediu muita gente de se meter pela via da violência.”

Marco II. O século XX termina com a China a reconquistar os territórios de Hong Kong e Macau

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foto Rui Ochôa

Essas mesmas comissões foram recomendação dada, nove anos depois, ao povo timorense após a independência. Uma libertação fruto de 24 anos de guerrilha e de resistência, a que Portugal se juntou apenas em 1987. “O processo estava morto e Portugal queria que ele morresse, mas foi o embaixador Costa Lobo que o fez renascer, durante a campanha de Portugal para a Comissão de Direitos Humanos da ONU”, conta Ana Gomes, nessa altura diplomata em Genebra.

No discurso, o embaixador português junto da ONU afirmou que Portugal não aceitava que as eleições da Indonésia, em 1987, servissem para aferir a vontade do povo timorense. “Isso muda o curso da História”, conta. Antiga militante do MRPP, partido ao qual a Fretilim, a guerrilha timorense, se assemelhava ideologicamente, haveria de ver mais tarde a História a dar-lhe razão.

Chegada à capital indonésia como chefe da Secção de Interesses Portugueses na Embaixada da Holanda, numa altura em que Portugal e a Indonésia reatavam relações diplomáticas e negociavam um referendo sobre a autonomia para Timor que, afinal, seria sobre a independência.

Uma declaração inesperada do Presidente indonésio a dizer que os timorenses iam poder votar pela independência surpreendeu a comunidade internacional. “Quando cheguei, a 30 de janeiro, um dia depois do Ramadão, fui cilindrada no aeroporto por jornalistas que não percebiam o que se estava a passar.” É recebida por Ali Alatas, ministro dos Negócios Estrangeiros, que estava igualmente “aparvalhado”. Aquelas declarações mudavam os termos da equação.

Uns dias depois, Alatas recebia todos os embaixadores da União Europeia (UE) para explicar a mudança. “Aí, já vi o Alatas composto, sério, já tinha construído uma teoria. O Presidente Habibie tinha recebido uma carta do primeiro-ministro australiano, John Howard, e este sugeria uma solução como a da Nova Caledónia [autónoma, mas parte integrante da França]. Habibie viu a sugestão como solução colonial e teve aquela corrida para a frente”, explica a hoje eurodeputada do PS.

Marco III. O século XXI começa com esperança, a eleição de Lula da Silva

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foto paulo whitaker/reuters

O acordo entre Portugal e a Indonésia teve de ser assinado uma semana após o previsto, a 5 de maio, devido a um ‘motim’ no conselho de ministro indonésio. “Recebi um telefonema da Dewi Fortuna Anwar, conselheira de Habibie, a dizer que muitos ministros não queriam aceitar, mas que a Indonésia não ia pôr em causa o acordo. Pediu-nos para esperarmos uma semana, para eles poderem digerir. E eu enviei um telegrama para Lisboa a explicar que não era um truque.”

Ia haver referendo. E pela independência. Era o tempo dos sonhos. Também aqui se sentiam os efeitos que o fim da Guerra Fria provocara nos EUA, que redirecionou a política externa norte-americana. Timor-Leste era uma questão de Direitos Humanos, Ximenes Belo e Ramos-Horta tinham recebido o Nobel da Paz em 1996. E as imagens do massacre de Santa Cruz, a 12 de novembro de 1991, que vitimou 398 jovens, tinham corrido o mundo.

Xanana Gusmão, histórico líder da guerrilha, torturado e condenado a prisão perpétua, em 1992, por crimes como sedição e rebelião, ainda estava na prisão de Cipinang quando Ana Gomes o conhece. “Ele tinha um telefone na cadeia, escondido, e ligava-me às cinco ou seis da manhã para falarmos do processo, do que se negociava em Nova Iorque. Eu tinha que ter o OK dele.”

Pouco tempo depois, a 10 de fevereiro, Xanana passa para prisão domiciliária e com Paula Pinto, a portuguesa responsável pelo seu gabinete de apoio, Kirsty Sword, a futura mulher, e Ana Gomes preparam desde Jacarta o dia decisivo. “A 11 de março fui a Timor. Quando cheguei, eu e o meu número dois, o Afonso Malheiro, demos um high five. Finalmente.”

Pelo território, os indonésios faziam campanha dando sacos de arroz e impondo o hastear de bandeiras. “Disse-lhes sempre para aceitarem tudo e depois votarem em consciência. Tinha a certeza de que íamos ganhar.” Assim foi, a 30 de agosto, 78,50% dos timorenses escolheram ser independentes. “Não estava inquieta com o dia do referendo. Passei o dia com Xanana. O grande medo era depois, o dia em que se abrissem as urnas.” A ONU acabou por fazê-lo mais cedo. Um misto de alegria e apreensão. Milícias apoiadas por militares indonésios provocaram uma onda de violência que fez milhares de mortos e mais de três mil deslocados. Milhares de jovens raparigas e mulheres foram violadas.

Marco IV. uma guerra no Médio Oriente cujos efeitos ainda se sentem

Marco IV. uma guerra no Médio Oriente cujos efeitos ainda se sentem

luís barra

“Houve a notícia de que tinha morrido o pai do Xanana, o que era falso. Nós não sabíamos se era ou não verdade e preferimos não lhe contar, mas ele acabou por ver nas notícias.” Bill Clinton ameaçava a Indonésia com sanções económicas e esta acabaria por permitir a entrada de uma força internacional. Na véspera da visita do Conselho de Segurança da ONU não estava ninguém em Díli a representar Portugal. “Até à chegada da Interfet [Força Internacional para Timor-Leste], a 20 de setembro, António Guterres telefonava todos os dias. Quando veio a notícia de que a Indonésia tinha aceitado, berrei e estrebuchei de fúria porque percebi que não havia representação portuguesa em Timor.” Júlio Pereira Gomes, o diplomata encarregado de chefiar a Missão de Observação Portuguesa, tinha abandonado o país contrariando indicações de Lisboa. “Doía-me. Tive discussões brutais com Pereira Gomes. Ele já em junho tinha dito que se ia embora. Guterres estava doente, dizia que ele era uma besta. Tratava-se da honra de Portugal. Talvez esse tenha sido o dia mais duro.”

O empréstimo holandês

Não foi a única vez que a diplomata se viu sozinha. Quando a violência eclodiu e foi preciso evacuar os portugueses, horas antes de o espaço aéreo fechar, teve de arranjar uma solução. “Esta é uma história que tem de ser contada. Arranjámos um avião de um militar, mas ele queria 65 mil dólares antes de partir e eu não tinha fundo de maneio, tinha o salário no fim. Foi o embaixador holandês que emprestou o dinheiro. Levámos três meses a pagar e eu sempre a chatear Lisboa, estão lá os telegramas.” O embaixador Shalto Van Hemstra nunca pediu o dinheiro de volta.

No final do mesmo ano, Portugal estaria no centro de outro marco do século XX: a transição de Macau para a China, a 20 de dezembro. “Era a última joia da coroa”, conta Pedro Catarino, na altura embaixador em Pequim, hoje representante da República para os Açores.

Um momento que começou a ser desenhado nos anos 80, quando a China sentiu confiança para reclamar os territórios de Hong Kong e de Macau. Foi o fim de 450 anos de uma presença portuguesa “tenaz” e “resiliente” que sobreviveu a vários períodos, à dinastia Ming, ao Império, ao comunismo de Mao. “É a consequência de várias coisas que se alteraram, a China ultrapassou a ideia de que tudo o que vem do Ocidente é mau. Deixou de ser um país fechado que não precisa de nada.”

Marco V. Uma das maiores tragédias naturais, o tsunami no sudeste asiático

Marco V. Uma das maiores tragédias naturais, o tsunami no sudeste asiático

foto Darren Whiteside/ REUTERS

Curiosamente, foram os britânicos com o seu espírito legalista, ao forçar a assinatura de um tratado de administração, que precipitaram o processo. Portugal percebeu que não teria hipóteses. “O que tínhamos de fazer era uma negociação de uma solução que salvaguardasse os direitos e as expectativas que o Governo de Macau tinha. Tivemos uma atitude política e diplomática muito diferente da dos britânicos: aceitámos. Os ingleses negociaram muito e nós aproveitámos esse trabalho feito, ficámos com o modelo do que ia ser Hong Kong, uma autonomia alargada, quase a papel químico.”

A China mudou a Constituição para permitir que o mesmo país tivesse dois sistemas: o comunista na China continental e o capitalista nos territórios autónomos. Portugal localizou as leis, construiu pontes e um aeroporto, numa oportunidade aproveitada pelos empresários portugueses. Foram doze anos até chegar o momento em que a bandeira portuguesa era arriada enquanto a chinesa era hasteada. “O tempo dos heróis, como Vasco da Gama e Afonso de Albuquerque, tinha acabado”, recorda Pedro Catarino. Ao contrário de Jorge Sampaio, o embaixador não verteu lágrimas. No dia seguinte, ainda não era meio-dia, quando viu as tropas chinesas chegar e os macaenses, de bandeiras em punho, a saudá-los sentiu que os séculos da presença portuguesa tinham passado rápido. “Aquele momento não tinha em perspetiva 450 anos de abnegação, provações, lutas, artimanhas.” Mas os chineses são um povo constante nas amizades. Na celebração dos 60 anos da instauração da República Popular da China, a orquestra da Gulbenkian, acompanhada por um coro chinês, tocou no Grande Salão do Povo.

Lula, o animal político

Um ano depois, no verdadeiro país-irmão, um metalúrgico chegava ao mais alto cargo da nação. Lula da Silva era, finalmente, Presidente do Brasil. E no dia da cerimónia, a 1 de janeiro de 2003, Portugal fez-se representar em peso, com a presença do Presidente Jorge Sampaio, do primeiro-ministro Durão Barroso e do ex-primeiro-ministro António Guterres. “Foi uma coisa magnífica, duas mil pessoas. Sampaio tinha boas relações com Lula, já antigas. Mas Guterres deixava Lula fascinado”, recorda António Franco, embaixador em Brasília.

Celebrava-se a chegada de um homem que nasceu humilde, no nordeste do país, e que foi subindo a pulso. “Deslumbrou-se, não resistiu à dimensão do poder.” Antes das eleições, António Franco organizou com o colega belga que tinha a presidência da UE, um almoço com outros embaixadores de países da União, Lula e José Serra, o outro candidato. “Lula foi paz, amor e fraternidade. José Serra tratou-nos com os pés. Era frio, seco, desagradável. Lula ganhou o Brasil porque tinha ali ao pé uma rocha.”

O Brasil — o país mais desigual do mundo — pedia mudanças e Lula prometia que todos os brasileiros iam comer três vezes por dia. “Fernando Henrique Cardoso foi um grande Presidente, como Lula também foi a seguir, sobretudo no primeiro mandato. Henrique Cardoso era um intelectual, professor universitário, relançou a economia, estabilizou a inflação e teve a possibilidade de criar os programas sociais que Lula viria a lançar.” O bolsa família, o mais emblemáticos desses programas, tirou um milhão de pessoas da pobreza.

“Lula é um ser político. Respira política. É um animal político. Conheci pessoas com mais densidade. Agora o faro, o instinto, o pragmatismo eram natos. Poucas vezes conheci alguém como ele. Com um contacto com as pessoas, com uma política de afetos genuína.”

Era também a época dos grandes investimentos com oportunidades de negócio para as empresas portuguesas, como a EDP e a PT. António Franco foi, por isso, muitas vezes chamado a dirimir conflitos. Uma das pessoas com quem mais teve contacto foi Dilma Rousseff, então ministra da Energia. “No caso da EDP, ela tinha a palavra decisiva. Conheci-a bem. Como ministra era seca, não sorria, mas conhecia bem os dossiês. Não estava para ‘papos’. Abro a boca de espanto com o seu percurso, tinha de saber o que se estava a fazer. Não em proveito próprio mas do partido. Foi o partido que a obrigou a fechar os olhos.”

Lula, agora a braços com a justiça mas favorito nas sondagens, permanece para muitos como um símbolo dos ‘descamisados’. “Lula projetou uma visão de esquerda democrática, contagiou outros países como o Peru ou o Equador.” As dúvidas e receios do capitalismo norte-americano depressa foram suprimidos. “Não havia Presidente dos EUA que não fizesse a corte a Lula.”

E desse momento de crescimento e confiança, o Brasil desceu ao caos. “Um caos que não sei como se ultrapassa de modo democrático”, frisa o embaixador.

Crise. No dia em que o FMI anuncia perdas de 1,4 biliões de dólares devido à crise do subprime, uma comitiva portuguesa abria a bolsa de Nova Iorque

Crise. No dia em que o FMI anuncia perdas de 1,4 biliões de dólares devido à crise do subprime, uma comitiva portuguesa abria a bolsa de Nova Iorque

foto Lucas Jackson/REUTERS

Enquanto o Brasil subia ao topo, George W. Bush fazia planos para a Segunda Guerra do Golfo. A 20 de março de 2003 começavam os ataques da ofensiva americana a Bagdade ou Operação de Libertação do Iraque. O nome depende da zona do globo onde se vive. Para Luís Barreiros, então embaixador em Bagdade, a guerra libertou os iraquianos de um ditador mas deixou-os num vazio de poder.“Depois da guerra, Bush disse que o mundo estava mais seguro. Não sei de que mundo está a falar”, diz, recordando que o Daesh cresceu a seguir ao conflito.

Seis dias antes, Portugal tentava ficar na fotografia do lançamento da ofensiva militar. A cimeira dos Açores, organizada por Durão Barroso, juntou José María Aznar, Tony Blair e George W. Bush para fazerem a declaração de guerra. Na capital iraquiana, o embaixador era apanhado de surpresa. “Fiquei preocupado porque tive dificuldade em perceber o que Portugal tinha que ver com aquela guerra.” Pediu orientações a Lisboa que “não respondeu nada de especial”.

Do outro lado do mundo, Pedro Catarino, embaixador em Washington, foi avisado pelo primeiro-ministro. “Durão Barroso não teria sido presidente da Comissão Europeia se não tivesse o relacionamento que tinha com Bush. Era um bom relacionamento. A relação entre a UE e os EUA é fundamental e convinha aos líderes europeus terem um presidente com um bom relacionamento com o Presidente americano.”

O pós-guerra provocou um assalto dos empresários à reconstrução. Itália e Espanha foram dos países mais ávidos na corrida, mas vários empresários nacionais também tentaram a sua sorte. “Houve um gabinete em Bagdade criado pelo ministro Martins da Cruz para isso. Na primeira visita foram 10, mas não sei se os negócios se concretizaram”, revela Luís Barreiros. O mais conhecido dos investidores era a Sonae Sierra que tentava fazer negócios através de um centro de distribuição que tinha na Síria.

A guerra do Golfo já tinha acabado oficialmente, quando uma onda gigante atingiu o sudeste asiático, no fim de 2004. A 26 de dezembro, um sismo seguido de um tsunami com epicentro na ilha indonésia de Sumatra, ditaram a morte a 230 mil pessoas em 14 países. A província de Aceh sofreu os efeitos mais devastadores, 170 mil pessoas morreram e a região ficou destruída.

Desaparecimento. A busca por Maddie correu mundo

Desaparecimento. A busca por Maddie correu mundo

José Santos Braga, embaixador em Jacarta, estava em Portugal num seminário diplomático quando soube da notícia. Havia pouca informação, mas o Ministério dos Negócios Estrangeiros percebeu que tinha de enviar o diplomata imediatamente.

Os indonésios ficaram paralisados, contagiando os serviços públicos de socorro que, no início, levaram algum tempo a coordenar, a definir prioridades e a atuar no terreno. No meio da morte, uma criança salva-se depois de sobreviver três semanas no mar em cima de um colchão flutuante. Trazia vestida uma camisola da seleção nacional e isso ditou-lhe a sorte. “Criou-se um movimento de apoio e solidariedade, de várias entidades nacionais, entre as quais a Federação Portuguesa de Futebol.”

E tornou-se um símbolo da ajuda portuguesa. Mas a ação de Portugal foi mais além. Duas missões de emergência de saúde pública, num total de quinze pessoas entre médicos, enfermeiros, intérpretes e logísticos, montaram um hospital de urgência. “As organizações portuguesas da sociedade civil levaram a cabo ações de saneamento básico, de formação em higiene geral de professores e de alunos e de distribuição de material escolar.”

O embaixador foi várias vezes a Sumatra, visitar Martunis e a pouca família que lhe restou, prestar apoio à cooperação portuguesa, e iniciou também a nova atividade diplomática nacional. Depois do reatar de relações com a Indonésia, Santos Braga saiu de Lisboa com indicação de iniciar um novo capítulo entre os dois países. Sem querer, o tsunami indicou a direção. “Reativar contactos com as regiões onde há vestígios, edificados ou imateriais, de relações seculares com os portugueses.” Os portugueses de Lamno — provavelmente náufragos de um navio português do séc. XVI — estavam no olho do tsunami. “Temeu-se que nenhum ‘portugis’ tivesse sobrevivido, foi com satisfação que se soube que cerca de uma centena haviam sido localizados no interior da ilha.”

Três anos depois, Portugal via-se no centro de outro tsunami: o desaparecimento de Maddie McCann. Um “incómodo” que o embaixador Santana Carlos sentiu em Londres. Todos os anos desaparecem milhares de crianças, mas só a busca por Maddie deu a volta ao mundo. “O casal McCann mexeu-se bem. Não sei qual a motivação, mas talvez movido por alguma culpa, por a terem deixado sozinha, sentiram necessidade de pôr a responsabilidade em terceiros”, recorda.

Depois de os alarmes soarem no Algarve, Santana Carlos contactou o Ministério da Justiça e o Ministério da Administração Interna — responsável pela GNR (a polícia que investigava o desaparecimento) — para os alertar para a necessidade de falarem com os media ingleses. “Saíram notícias de dedo apontado à investigação portuguesa, que admito arrancou com alguma lentidão.”

À exceção de uma entrevista ao “Times”, a propósito das relações bilaterais entre Portugal e Inglaterra, optou por não falar do caso. “Fui franco. Disse que desapareciam mais crianças no Reino Unido do que em Portugal. E que somos uma sociedade de origem latina, não deixamos as crianças sozinhas à noite.” As palavras foram classificadas como “racistas” pelo tabloide “Daily Mirror” e fez do embaixador notícia de primeira página.

Os efeitos temidos pelo desaparecimento da criança não se confirmaram. Portugal recebe hoje mais turistas ingleses do que há dez anos. “Toda a polémica criada e toda a atenção não terá ajudado a investigação. Mas não fui especular para a comunicação social. Preferi manter uma atitude tranquila e ir informando Lisboa. Reagi, passado uns meses, dizendo verdades.” O desaparecimento da criança mantém-se um mistério. Fez da Aldeia da Luz, em Lagos, palco de uma tragédia internacional.

Administração Bush desvaloriza a crise

No mesmo verão em que as notícias sobre a menina inglesa abriam telejornais, iam chegando alertas sobre a falência do sistema financeiro norte-americano. A crise do subprime — gerada pelos empréstimos bancários de alto risco — estava a meses de atingir a economia real. João de Vallera, embaixador em Washington, e outros embaixadores da UE participaram num almoço, em plena presidência portuguesa da União, com um alto representante da Administração Bush que os tentou tranquilizar. “Disse-nos que os efeitos seriam limitados, sendo algo que dizia respeito a um sector muito específico, com um peso relativamente modesto no PIB norte-americano.”

Jason Reed/REUTERS

Saída. O fim da Presidência de Obama coincidiu com o fim da relação dos britânicos com a União Europeia

Saída. O fim da Presidência de Obama coincidiu com o fim da relação dos britânicos com a União Europeia

DANIEL LEAL-OLIVAS/AFP/Getty Images

A história é conhecida. Primeiro caiu a Grécia, depois a Irlanda e Portugal foi, por fim, resgatado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). O embaixador recordou esse almoço — um dos muitos episódios da sua carreira diplomática — várias vezes durante 2008. Em especial, a 7 de outubro, o dia oficial da crise, em que o FMI declarou que as perdas contabilizavam 1,4 biliões de dólares. Nesse dia, estava com um grupo de empresários do PSI-20 a abrir a bolsa de Nova Iorque no primeiro Portuguese Day. “Devia ter ido o ministro das Finanças, o que demonstrou que já havia grande turbulência. Na véspera, Miguel Athayde Marques [presidente da Bolsa de Lisboa] pediu-me que fosse eu.” Havia quem achasse que era melhor cancelar, mas não ir seria um gesto negativo para os mercados. “Era um gesto de afirmação da economia real perante o que surgia como um grande problema financeiro.”

O programa correu como programado, das 130 reuniões bilaterais realizaram-se 110. O pior só aconteceu à tarde, muito depois de João de Vallera ter tocado a campainha que marca o arranque da sessão. A fotografia do momento — agora no escritório do Ministério dos Negócios Estrangeiros onde está a assessorar o ministro nas negociações do ‘Brexit’ — não o deixa esquecer. “Tinha a noção de que estava a acontecer algo muito grave, mas não imaginava a dimensão e o alcance dos efeitos. Ainda demorou um tempo. Começou uma onda que não se sabia como parar.”

Antes de deixar os EUA, em 2010, ainda teve oportunidade para mais um marco da História. E para recordá-lo em fotografias. Como a do marine concentrado e imóvel ao frio dos termómetros e ao calor humano dos milhões que, a 20 de janeiro de 2009, se juntaram em frente ao Capitólio para aplaudir o primeiro Presidente afro-americano.“Estavam 8 a 10 graus negativos.” Um frio tão grande que o obrigou a usar roupa de ski, debaixo do fato e sobretudo, e uns tapa orelhas cedidos pelo colega jordano, o príncipe Zeid Ra’ad Al Hussein, atualmente alto-comissário da ONU para os Direitos Humanos, que estava protegido pelo keffiyeh (lenço árabe). As regras de segurança não o impediram de levar a máquina fotográfica com a qual registou, várias vezes, a “multidão que excedeu as expectativas”.

Um momento “extraordinário” para o embaixador que se havia cruzado, um dia, com o senador Obama nos corredores do Capitólio, à procura de uma sala onde um diplomata americano ia depor perante o Senado antes de assumir um cargo de embaixador na Europa. “Voltei a cruzar-me com ele durante as primárias. Cumprimentei-o pelo sucesso. Ele respondeu que eram os primeiros passos de uma gigantesca corrida. Notei que Obama tinha uma presença física impressionante. Era o tipo de pessoa que se alguém não fizesse ideia de quem era, notava na mesma.” As palavras trocadas com o candidato democrata mostraram que “estava bastante mais informado sobre Portugal” do que o embaixador imaginara. No dia da tomada de posse, João de Vallera terminou a noite num dos muitos bailes típicos da ocasião a falar com Bill Clinton sobre energias renováveis e a Cimeira UE-África, em Lisboa.

Episódios de uma carreira que terminou com a maior rutura europeia: o ‘Brexit’. Na noite de 23 de junho só se deitou às 4h, já depois de Nigel Farage assumir a derrota antes de celebrar o inesperado resultado.

“Até ao fim esperei que não fosse este o resultado. Não porque tivesse algum cálculo especial, mas porque confiava numa réstia do pragmatismo britânico.” Tal não aconteceu, 51,8% dos britânicos votaram no leave (saída), provocando uma onda de choque. Nas últimas semanas de campanha, a saída do Reino Unido da UE era uma hipótese que se ia tornando mais real. Já em 2013, enquanto David Cameron anunciava o referendo, na sede londrina da agência Bloomberg, sentado entre o embaixador alemão e o embaixador francês, João de Vallera tivera os primeiros receios. “Era uma operação de risco, com falhas de construção.”

Uma multiplicidade de fatores colocou um ponto final na especial relação do Reino Unido com a Europa. “Toda a campanha do leave foi dominada por sentimentos de rejeição, aversão, menosprezo e mesmo ódio. E da parte do remain contrapôs-se uma campanha de exploração do medo, com as consequências negativas da saída. Não se valorizaram os benefícios que o Reino Unido teve com a UE.” Fora uma campanha determinada por um choque entre “paixões tristes”, na aceção de Espinosa, como lhe sugeriu uma troca de e-mails com o filho, nessa mesma manhã do referendo.