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Franco quis invadir-nos mas a Europa matou o iberismo

COROAÇÃO DE D. JOÃO IV (1908) Quadro de Veloso Salgado (1864-1945). 
Óleo sobre tela (325 x 285 cm). Museu Militar (Sala Restauração), Lisboa

Nos 377 anos do 1º de Dezembro, uma viagem pela História e pela tenaz identidade de um pequeno país ibérico

Quando Portugal e Espanha aderiram à CEE, dizia-se em Bruxelas, que “Portugal pediu para aderir à Europa, mas os espanhóis pensam que foi a Europa que pediu para aderir à Espanha”. Salvaguardadas as devidas diferenças entre o tamanho e a capacidade negocial dos dois países ibéricos, a blague bruxelense retrata com humor algumas diferenças entre os dois povos, espécie de gémeos falsos que se acicatam entre si.

A estratégia de negociação portuguesa foi marcada por um “acentuar das diferenças entre os objetivos de Portugal e os da Espanha no processo negocial”, diz ao Expresso o embaixador João Rosa Lã, que à época era o funcionário da nossa legação diplomática em Bruxelas responsável pelas relações com a Espanha: “Em meados de 1984, Mário Soares, que esperava que Portugal aderisse antes da Espanha, deu instruções para não aproximar” a nossa argumentação da do grande país vizinho.

Trágicos ou quixotescos?

A adesão à CEE mudou para sempre a relação entre portugueses e espanhóis, e quase que acabou com o velho ditado “de Espanha nem bom vento, nem bom casamento”. Com o alargamento do número de [países] parentes, de 1986 para cá, os falsos gémeos deixam de funcionar no espaço ibérico para dialogarem num “quadro multilateral, em que [até] passam a ter uma relação diferente em termos de política de defesa”, diz Rosa Lã.

Para Miguel Real, “a Europa matou o iberismo; não faz sentido defender uma região na Europa” que mais não é do que um espaço/região maior: “Não deixamos de ser europeus por termos uma identidade histórica como povo ibérico, ou uma outra que passa pela afirmação contra a Espanha”.

Basta lembrar que o poeta e ensaísta “Miguel de Unamuno falava no tragidismo português, no Portugal país suicida, referindo que quando colocados perante a mesma situação dos espanhóis, os portugueses entristecem melancolicamente e têm uma expressão trágica, enquanto o espanhol transforma a tragédia na ironia quixotesca”, lembra o filósofo e escritor Miguel Real.

O parto da identidade

Tudo começou em 1128 quando os partidários do príncipe Afonso e de sua mãe D. Teresa se enfrentaram em São Mamede, ainda que ambos protagonizassem projetos de rutura com o reino de Leão. A diferença é que, como nos ensina José Mattoso, Afonso previa a expansão à custa do mouro, com base na nobreza minhota e nas gentes da fronteira, mais aptas para esta guerra do que a nobreza galega, que daí em diante se veria privada de possibilidade de expansão para sul, e condenada a prazo a ser absorvida por Leão e Castela.

Durante a crise de 1383/85 D. João de Castela esteve a milímetros do trono português, fosse pela via jurídica (casamento com D. Beatriz, filha de D. Fernando), fosse pela via militar. Mas, como lembra o historiador e docente da Faculdade de Letras de Lisboa, Pedro Gomes Barbosa, “este cenário resultara do envolvimento de D. Fernando nas disputas dinásticas castelhanas em três guerras, todas perdidas e com consequências cada vez piores”.

Apesar da vitória de Aljubarrota (14 de agosto de 1385), “houve guerra com Castela até 1411, ainda que nos últimos anos fosse mais paz podre que conflito”, lembra Barbosa.

Com D. João I, surge a aliança com os ingleses e uma nova dinastia, que viria a ter um fim trágico; e, em 1580, surge também um novo rei espanhol com legitimidade e força militar para disputar a sucessão de D. Sebastião, dando assim início à chamada monarquia-dual, mais conhecida por domínio filipino .

Divórcio ibérico

No dia 1 de Dezembro de 1640, “Portugal deixou de ter uma identidade ibérica, ao contrário do que aconteceu nos reinados de D. João II, D. Manuel, D. João III” e posteriormente no período da monarquia-dual, diz Miguel Real, referindo-se “à espécie de importação dos costumes da corte: escritores como Camões, Gil Vicente ou Sá de Miranda escreviam em castelhano e português, e existiam hábitos que eram como que mimetizados da corte” de Castela. Com a Restauração, “Portugal liberta-se do domínio de Madrid, e o modelo comportamental da corte passa a ter como referências Paris e a corte de Versailles. Este novo modelo prolonga-se até ao século XVIII; a construção do Palácio de Queluz, uma pequena Versailles é apenas um exemplo da mimetização de costumes”.

Certo é que após a separação das duas coroas ibéricas em 1640, não voltou a haver momentos de perda iminente da independência a não ser durante as Invasões Francesas, nas quais as tropas espanholas foram aliadas de Napoleão, chegando a ajudar Junot a ocupar Portugal entre 1807 e 1808.

Quem manda mais?

Durante o século XIX, liberais e absolutistas atravessarão várias vezes a fronteira para ajudar os seus correligionários mas as coisas ficaram-se sempre por aí em termos militares. O iberismo surge com a monarquia constitucional; Oliveira Martins e Teófilo Braga advogam este projeto. Anos depois, na I República, o reino espanhol ajudará, mas não muito, as guerrilhas monárquicas de Paiva Couceiro.

Na segunda metade do século XIX, após a revolução de 1868 que expulsou de Espanha a rainha Isabel II e sua família, e perante a ameaça da proclamação da república, a coroa de Espanha foi oferecida a D. Luis, rei de Portugal, que a recusa; os espanhóis tentam encontrar uma nova solução política em Portugal, oferecendo a coroa ao viúvo da rainha D. Maria II — que entretanto casara em segundas núpcias com a condessa de Edla. Este não recusa de imediato, e põe duas condições para aceitar: que as duas coroas nunca pudessem reunir-se numa só cabeça (evitando assim a repetição do cenário da monarquia-dual), e que a sua segunda mulher fosse rainha. Como lembra a historiadora Margarida de Magalhães Ramalho (autora do livro “900 Anos a Irritar os Espanhóis”), uma passagem do diário de Thomaz Mello Breyner (médico e amigo de D. Carlos), sugere que dificuldades no reconhecimento da condessa como rainha terão pesado na recusa de D. Fernando. Por trás do convite estava uma ideia de união ibérica que o próprio rejeitava.

Em março de 1939 quando os franquistas entraram vitoriosos em Madrid; parte da Falange pediu a Franco que invadisse Portugal. Seria um exercício de cinismo, porque ao longo da guerra civil o salazarismo foi retaguarda logística do franquismo. Mas se nos lembrarmos de que o trabalho feito por Franco para ascender ao generalato tinha o sugestivo título “Como invadir e ocupar Portugal em 72 horas”, talvez se perceba a pressa com que Salazar despachou o embaixador Theotónio Pereira para Madrid e a contenção com que falou na Assembleia Nacional sobre a vitória franquista: “Ganhámos, eis tudo…”

Começada a II Guerra Mundial, Portugal foi neutro mas a 11 de novembro de 1940 Espanha aderia ao Pacto de Aço com Alemanha e Itália. Franco negoceia com Hitler um ataque a Gibraltar (Operação Felix) e prepara um ataque preventivo, para evitar um desembarque inglês em Lisboa. Em 2009 o historiador espanhol Manuel Ros Agudo desenterrou dos arquivos o Plano de Campanha nº 1 (34) que o previa. Os voluntários da Divisão Azul mandados por Franco para a frente russa ao lado dos nazis em 1941 saíram de Madrid a cantar: “Só esperamos a ordem/ que nos dê o nosso general/ para apagar a fronteira/ entre Espanha e Portugal…”

Livres de Franco e de Salazar os dois países seguiram finalmente os caminhos. “Se os espanhóis conhecessem de facto a História de Portugal, seriam eles a comemorar o 1º de Dezembro por se terem visto livres de nós”, diz Pedro Gomes Barbosa.