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Prazo limite da negociação na Autoeuropa chegou ao fim

Nuno Botelho

O segundo “chumbo” nas negociações laborais da Autoeuropa poderá resultar na deslocalização de parte da produção do novo modelo da fábrica de Palmela. A Volkswagen não comenta e diz que está a avaliar a situação

Os trabalhadores da Autoeuropa chumbaram esta quarta-feira, em referendo, com 63,22% de votos contra, e pela segunda vez, uma solução que viabilizaria um novo modelo de produção de automóveis na fábrica de Palmela - introduzindo a laboração contínua, com três turnos diários, de segunda-feira a sábado. Esta quinta-feira já começam a surgir, em contactos informais, cenários alternativos destinados a garantir que a marca alemã Volkswagen (VW) consiga dispor de 240 mil unidades do novo modelo T-Roc durante todo o ano de 2018, para responder às encomendas formalizadas. Só que isso pressuporia produzir parte deles na Alemanha.

Apesar da administração da fábrica de Palmela não comentar a existência destes cenários alternativos e de os representantes dos trabalhadores recordarem a declaração que o presidente executivo da marca VW, Herbert Diess, fez a jornalistas portugueses - de não querer transferir a produção total ou parcial do T-Roc para outras fábricas -, a verdade é que já foi esgotado o prazo limite para negociar um acordo laboral em Portugal. A VW na Alemanha admitiu que o acordo fosse alcançado entre outubro e novembro.

O indesejado “Plano B”

É neste enquadramento que começaram a ser feitas alusões - durante contactos informais mantidos pelo Expresso com fontes do sector automóvel - à necessidade da marca VW equacionar um “Plano B” que não é desejado pelos trabalhadores e gestores portugueses, mas que permitiria fabricar fora de Portugal a quantidade de unidades do modelo T-Roc que eventualmente não consigam vir a ser produzidas na Autoeuropa, atendendo às dificuldades em negociar a produção ao sábado sem pagamento de horas extraordinárias.

Osnabrück será solução ou “cobaia”?

Há alusões à fábrica alemã de Osnabrück, indicada como uma das linhas de produção da VW que poderia produzir unidades do T-Roc em complemento à produção de Palmela. Chegou mesmo a ser referida na imprensa como uma fábrica que poderia produzir a versão descapotável do T-Roc. No entanto, a VW não confirma a viabilidade de produção desta variante do T-Roc. O que não quer dizer que a fábrica de Osnabrück não possa vir a fabricar o próprio T-Roc. Mas ainda haveria outras alternativas de produção nas unidades fabris alemãs da marca que atualmente laboram com volumes de produção abaixo da respetiva capacidade instalada. Como o T-Roc é produzido com base numa plataforma modular, torna-se fácil adaptar outras fábricas à sua produção. E é possível operacionalizar uma decisão deste tipo em poucos meses.

Autoeuropa avalia implicações do “chumbo”

Por enquanto, a administração da Autoeuropa ainda está a avaliar todas as implicações do “chumbo” do pré-acordo sobre o novo modelo de produção da fábrica de Palmela. Mas isso será feito depressa. O coordenador da Comissão de Trabalhadores, Fernando Gonçalves, também sabe que será necessário reiniciar rapidamente a negociação de um novo pré-acordo. Tanto a administração da Autoeuropa quanto a Comissão de Trabalhadores estão conscientes que o tempo urge. E terão de tentar soluções ainda mais criativas que a que foi proposta no último pré-acordo chumbado. Esta última solução contemplava um período transitório de teste ao funcionamento dos três turnos diários. Só a partir de agosto, no regresso de férias de verão, é que os trabalhadores iriam iniciar a laboração contínua, de segunda-feira a sábado, apoiados pelo recrutamento de mais 400 trabalhadores, que reforçariam o trabalho aos sábados para aligeirarem a carga da equipa “principal”.

Problemas para a Alemanha e para Portugal

No entanto, o problema da produção do T-Roc pode ser analisado de várias perspetivas, muito para além da questão laboral, do trabalho ao sábado e da respetiva remuneração em horas extraordinárias. Pelo menos, terá mais duas perspetivas para a administração da VW. E terá ainda uma outra perspetiva para a economia portuguesa, que é a de servir para concretizar, ou não, um determinado cenário de crescimento das exportações no final de 2017 (altura em que o T-Roc começou a ser exportado), mas sobretudo ao longo do ano de 2018. E, igualmente, a virtude potencial de permitir o crescimento do próprio Produto Interno Bruto (PIB) português em 2018, e a sua revisão em alta, segundo admitiu em junho o Banco de Portugal.

VW: “já investimos muito dinheiro”

Voltando às perspetivas da VW, a questão é muito objetiva para os investidores alemães: o responsável pelos recursos humanos da VW, Jurgen Haase, já disse claramente que a marca tinha investido “muito dinheiro” na fábrica de Palmela, transformando-a para cumprir os objetivos do programa de produção do T-Roc, o que “implica a laboração contínua, com três turnos diários, incluindo o sábado”. Ou seja, os custos de produção do T-Roc dificilmente comportariam um modelo laboral em que o sábado funcionasse como um dia diferente, com escalas aleatórias e não obrigatórias e com trabalho remunerado em horas extraordinárias.

Mas os trabalhadores têm tido dificuldade em acomodar esta alteração e os resultados negociais já implicaram o insucesso de duas Comissões de Trabalhadores. A primeira coordenada por Fernando Sequeira, que apresentou a demissão depois dos trabalhadores terem rejeitado a sua proposta. E a segunda, liderada por Fernando Gonçalves, que recebeu no referendo de ontem um total de 3.145 “cartões vermelhos”, entre 4.975 votos.

Palmela sob pressão

A fábrica de Palmela é agora confrontada com um futuro que pode não ser rigorosamente como o que tinha sido traçado pelo seu diretor-geral, Miguel Sanches, que é atualmente quem estará a ser mais pressionado para cumprir os objetivos de produção do T-Roc fixados para o final de 2017 e para todo o ano de 2018.

Para tornar tudo ainda mais complicado, o T-Roc que foi atribuído à fábrica de Palmela é um carro decisivo para impulsionar o crescimento de vendas da VW, depois desta marca ter sido fortemente afetada pelo escândalo da manipulação das informações sobre emissões poluentes.
Por isso, a produção do T-Roc não poderia enfrentar problemas no seu arranque, nem os seus custos de produção poderiam ser agravados em relação às previsões iniciais feitas pela marca alemã.

Mas o sucesso no lançamento do T-Roc também é decisivo para o futuro da Autoeuropa, pois poderia potenciar a atribuição de novos modelos que aumentassem a sua produção total e implicassem a contratação de mais trabalhadores.