Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

O dia em que Rana explicou à Europa a integração dos refugiados em Portugal

CE/PT

O comissário europeu Avramopoulos esteve terça-feira em Lisboa e foi com o ministro da Administração Interna almoçar ao Mezze, o restaurante de refugiados sírios. À mesa ficou a saber-se que Portugal se voluntariou para receber mais 1010 requerentes de asilo nos próximos dois anos

Era hora de almoço. No Mezze, restaurante sírio do Mercado de Arroios, vivia-se o corrupio da hora de ponta alimentar, com uma única diferença: entre os clientes habituais foram-se sentando o comissário europeu responsável pelas migrações, assuntos internos e cidadania, Dimitris Avramopoulos, o ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, o diretor do SEF, Carlos Matos Moreira, o alto-comissário para as migrações, Pedro Calado, e respetivos staff.

A mesa central, corrida, foi enchendo-se de hummus, meshawi, kibbeh, falafel, baba ganoush, tabbouleh, de pão sírio e de conversa sobre a política de migração em Portugal, “um estado membro modelo, com uma sociedade aberta, solidária e democrática, onde as pessoas se sentem em casa. Outros países deviam seguir-vos o exemplo”, elogia o comissário. E ao dizê-lo aponta para a cozinha. “Olhem para estas mulheres. São refugiadas e estão a sorrir. Vê-se que estão felizes em Portugal”.

É do sorriso de Rana que fala Avramopoulos. No fim da refeição, convida-a a sentar-se também à mesa e a contar a sua história. Síria, 28 anos, chegou a Portugal fez este mês dois anos. Viajou com o marido, os filhos, a mãe, a irmã, a família da irmã e dois irmãos. Para trás deixou um país em guerra, e o pai, abatido a tiro quando regressara a casa para recuperar fotografias e roupa.

Primeiro fugiram para a Jordânia, depois para o Líbano, no Egito (Cairo) ficaram três anos até que o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) lhes perguntou se queriam ir para Portugal. Ao desconhecido disseram sim.

Não esconde que o primeiro ano em Portugal foi muito difícil, o português um obstáculo ainda a ser ultrapassado. Mas depois chegou o “Pão a Pão”, um projeto de integração de refugiados que pôs a matriarca Fatima e as filhas Rana e Reem a cozinhar a sua cultura - e o filho Rafat a servi-la às mesas -, primeiro esporadicamente no mercado de Santa Clara, agora em permanência no Mezze. O sucesso mede-se pela extensão da habitual fila de espera para conseguir mesa.

E venham mais 1010

O ministro Eduardo Cabrita e o comissário europeu Avramopoulos na cozinha do Mezze, no mercado de Arroios

O ministro Eduardo Cabrita e o comissário europeu Avramopoulos na cozinha do Mezze, no mercado de Arroios

CE/PT

Vieram do Cairo para Lisboa ao abrigo do programa de reinstalação do ACNUR — antes da vaga de recolocações da Grécia e Itália — e, terça-feira, foi à mesa do seu restaurante que o ministro da Administração Interna anunciou o aumento exponencial de vagas para refugiados situados fora do espaço europeu, em resposta a um apelo do próprio Dimitris.

“Portugal colocará a partir de agora a sua prioridade num novo programa recentemente decidido pela Comissão Europeia visando reinstalar 50 mil pessoas em toda a UE a partir da Turquia e de outros países terceiros”, revela Eduardo Cabrita. A ‘oferta’ de 1010 vagas — a adesão é voluntária — foi ontem aceite por Bruxelas.

É o sucessor do programa europeu de recolocação de refugiados, que trouxe para Portugal 1507 requerentes de asilo. Apesar desse mecanismo de proteção ter terminado em setembro, Portugal continua disponível para acolher já famílias referenciadas, até ao limite da quota de 4500 inicialmente prevista. Na Grécia restam 750 pessoas e 3100 em Itália.

De acordo com Avramopoulos, treze países membros já aderiram voluntariamente ao novo programa destinado essencialmente a migrantes de países africanos, como a Líbia, Egito, Niger, Sudão, Chade e Etiópia. "Nunca seremos uma fortaleza, nunca fecharemos as portas, mas temos regras. Esta é a forma legal de deixar entrar na Europa quem precisa de proteção", explicou o comissário. “Hoje, com o meu bom amigo Eduardo, não fizemos o que é normal nos almoços oficiais. Partilhámos esse momento com refugiados sírios reinstalados em Lisboa. O que vivi hoje, o que aprendi com estas pessoas é um bom exemplo e um sinal claro que Portugal está a dar ao resto da Europa: é preciso ser humano, é preciso solidário".

  • Eu sou a Reem. E eu sou a Rana. E eu a Fatima. E esta é a refeição da vida

    A cozinha é por vezes o resultado bonito de palavras mais ou menos conhecidas e inesperadas misturadas entre si. De certa maneira, é como a vida. E este texto vem com vida e comida, esse encontro tão comovente: puré de beringela assada com tahini, xarope de romã e especiarias; salada de salsa picada, bulgur, tomate cebola e hortelã; pasta de grão cozido com creme de sésamo; beringelas no forno com tomate e especiarias; bolinhos fritos de carne de vaca, bulgur e especiarias; arroz fumado com pimentos; bolinhos fritos de grão e especiarias; salada mista com pão árabe estaladiço; estufado de lentilhas; bulgur com cebola frita

  • Nós vamos mostrar os nossos rostos: temos medo mas o amor é maior

    Fatima, 47 anos. Rana, 27 anos. Reem, 26 anos. As histórias de coragem têm as idades todas. Ouvimos falar das receitas delas na cozinha, acabámos a ouvir a receita delas para olhar o medo - amor. Amor pelos filhos, pelos irmãos. Amor. E é por ele e por eles que destaparam os rostos que nos anunciaram inicialmente que não iriam mostrar. Fatima, Rana, Reem