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As árvores erguidas em nome das mulheres caídas

Lucilia Monteiro

Uma árvore foi erguida esta quarta-feira no Porto por cada mulher caída, numa ação simbólica de homenagem às vítimas de violência doméstica e de protesto face à indiferença. Um relatório do Observatório de Mulheres Assassinadas contabiliza 18 mortes desde janeiro

André Manuel Correia 

Os automóveis passam rápidos na Avenida dos Aliados, no Porto, na azáfama matinal e natural de uma cidade. Os ponteiros do relógio inglês da torre dos Paços do Concelho marcam pontualmente as 11 horas. Os transeuntes prosseguem a marcha. Alguns detêm-se na Praça da Liberdade, onde estão colocados 18 vasos, nos quais estão plantados pequenos carvalhos. Nos ramos destas ainda jovens árvores, resistentes ao fogo e conhecidas pela sua longevidade, estão penduradas folhas de papel com os nomes de 18 mulheres mortas entre 1 de janeiro e 20 de novembro deste ano, mártires de uma violência perpetrada por parte de maridos, ex-companheiros ou namorados. Trata-se de uma ação de homenagem, promovida pela associação UMAR – União de Mulheres Alternativa e Resposta.

Rompendo o silêncio das quase 40 pessoas que ali se juntaram, como um grito de protesto simbólico, a voluntária Rita Machado vai recordando os nomes e os casos das vítimas de feminicídio registados em Portugal em 2017, através do relatório do Observatório de Mulheres Assassinadas (OMA). “Uma árvore erguida por cada mulher caída”, é este o mote da iniciativa da UMAR, anunciado pela voz de Rita antes de evocar cada uma das mulheres vitimadas.

“8 de julho de 2017: Maria José Lima de Melo, 50 anos, assassinada pelo marido, por estrangulamento, em Ponte de Lima”, recorda a voluntária. Uma a uma, todas as histórias das 18 mulheres vitimadas pelo cenário negro da violência doméstica e dos crimes passionais são trazidas à luz, durante uma manhã de sol na baixa portuense.

“1 de novembro de 2017: Carla Soares, 51 anos, assassinada pelo ex-marido, com arma de fogo, em Vila Nova de Gaia”, prossegue. As palavras doem. Estão manchadas de sangue. Atingem todos aqueles que a escutam. “20 de novembro de 2017: Sandrina, 37 anos, assassinada pelo marido, com uma arma branca, nas Caldas da Rainha”, relembra Rita Machado, logo em seguida, com a voz amplificada pelo microfone, para que todos ouçam. Para que ninguém esqueça. Enquanto cada um daqueles carvalhos se mantiver de pé, quem sabe se durante centenas de anos, estes nomes serão lembrados.

Lucília Monteiro

“Queremos com esta plantação simbólica de carvalhos homenagear as mulheres assassinadas por maridos, companheiros, ex-companheiros ou namorados, mostrando que estes crimes hediondos têm de ter fim”, explica Ilda Afonso, diretora técnica do Centro de Atendimento e Acompanhamento Para Mulheres Vítimas de Violência, no Porto. “Os carvalhos são árvores fortes, resistentes ao fogo e às intempéries mais diversas. As mulheres vítimas de feminicídio são, em muitas situações, resistentes durante anos e anos a muitas formas de violência nas suas vidas”, acrescenta a responsável, notando que nos últimos 14 anos quase 500 mulheres foram assassinadas. “Essas mortes eram evitáveis”, considera, apelando a um maior acompanhamento do Estado e uma mais forte mobilização da sociedade civil contra este flagelo.

“Falha a proteção às vítimas e falta a mensagem de censura que tem de ser transmitida aos agressores. Falham também os tribunais, porque os agressores não recebem o devido castigo e não são devidamente censurados pela sociedade em geral. As pessoas assistem a estes casos na rua ou até na vizinhança, mas não reagem”, afirma Ilda Afonso. Se a sociedade cala e consente, muitas das vítimas também se remetem ao silêncio. Nove em cada dez vítimas de violência doméstica não denunciam nem pedem ajuda ao sistema público de apoio.

Não obstante o decréscimo de casos de vítimas, comparativamente com os anos de 2015 e 2016, Ilda Afonso considera pouco sólido tirar conclusões desses dados. “O número é inferior a anos anteriores, mas isso não nos permite dizer que se trate de uma tendência. Em 2016, os números de mulheres assassinadas não era tão assustador como em 2015. Mas dois anos não são suficientes para dizer que temos uma tendência de descida”, sustenta a representante da UMAR.

A residência continua a ser o espaço onde a maior parte dos feminicídios foram praticados (83%), seguidos pelas ocorrências na via pública, onde a percentagem é de 17%. De acordo com o relatório do OMA, em nove dos 18 crimes consumados a medida de coação aplicada foi a de prisão preventiva e num deles foi decretada prisão domiciliária.

“Mata-me, se tens tomates!”

Uma das muitas pessoas que ali presta homenagem às 18 vítimas é Armanda. Vinha a passar e não conseguiu ficar indiferente. O seu passado não lhe permite isso. À conversa com o Expresso, aceitou dar o seu testemunho, com a condição de não revelar o seu primeiro nome. Fotografias só com a mão a ocultar o rosto, escondendo assim os olhos muito azuis da objetiva. Não o faz por vergonha da sociedade. O motivo é outro. “Tapei os olhos na fotografia, porque não quero que os vejam. São iguais aos do meu pai. Quando me olho ao espelho vejo a cara dele e vejo uma mulher triste”, confessa esta mulher de 45 anos, que até aos 28 anos, idade com que casou, sempre foi vítima de violência doméstica por parte do pai.

“Ainda sofro de fobias, tremores constantes e não posso sentir o toque de uma pessoa estranha. Parece que o mundo me sai dos pés”, conta Armanda, disposta a abrir o “armário” onde guarda as recordações mais negras e profundas. “Isto é um assunto que está guardado num armário, que é aquilo que a psicóloga me ensina. Mas sempre que abrimos a gaveta da memória, ela até pode estar arrumada, mas, ao remexer, é como se tudo viesse à tona novamente”, descreve.

Há revolta e angústia quando fala do pai. A voz, por vezes, cede. Os olhos ficam húmidos. As mãos tremem incessantemente. Mas prossegue, com total abertura. “O meu pai era um mulherengo. Tenho vários irmãos e apenas um é da mesma mãe. Nunca se casaram, mas viveram juntos durante 47 anos. Ele tratava as mulheres como lixo. Usava-os como um simples instrumento de prazer”, conta.

“Toda a minha vida precisei de amor e carinho. Não me faziam falta os presentes ou os colégios caros em que o meu pai me inscreveu. Ele era alguém muito rico, mas isso nunca fez de mim uma criança feliz. Tornei-me numa mulher triste e revoltada”, reconhece, durante uma conversa sempre olhos nos olhos.

Lucília Monteiro

As agressões físicas e verbais eram uma constante. Tanto para ela como para a mãe, que devido à situação conjugal acabou por cair no vício de alcoolismo. “A minha mãe tem 78 anos e só há um ano deixou de beber. Lembro-me de ter 11 anos e ser eu a levá-la ao hospital. Pensava que ela estava doente. Quando lá chegava, os médicos mandavam-me para casa e diziam-me que ela estava bêbada. Sentia uma vergonha imensa”, recorda Armanda.

Depois veio a adolescência e o inferno manteve-se. Pediu ajuda e ninguém lhe prestou auxílio. “Fui à GNR, apresentei queixa do meu pai e disseram-me que não podiam fazer nada”, recorda esta vítima de violência doméstica. Com 16 anos, teve a arma apontada à cabeça. E não foi a única vez. “Dispara, se tens tomates!”, assim desafiou o pai. “Todos os dias me lembro daquele dia. Assim como de outros. Do dia em que em que me deu um pontapé, do dia em que me tentou matar… Lembro-me de tudo”, assevera Armanda, somente livre do pesadelo após casar com o homem com quem namorou durante dez anos e que o pai nunca aceitou.“O meu marido fez de mim uma grande mulher”, frisa, mas as sequelas são, apesar de tudo, irreversíveis.

“Não consigo suportar o simples toque de alguém quando vou, por exemplo, no autocarro. Tenho ataques de pânico e fobias que nunca vão desaparecer”, explica ao Expresso, assumindo-se como uma pessoa “revoltada” e até “agressiva”, sobretudo quando se depara com notícias de violência doméstica. “Apetece-me entrar dentro da televisão e matar aqueles agressores, que não são pessoas, são animais”, afirma.

Atualmente, tem um filho de 15 anos. Ainda chegou a conhecer o avô. O pai de Armanda morreu há uma década, quando tinha 69 anos. Perdeu toda a fortuna e tornou-se sem-abrigo, até que a filha o resgatou das ruas. Pediu perdão várias vezes por tudo o que fez. Definhou acamado, nos últimos oito anos de vida, em casa da filha que sempre maltratou.

Morreu cego e vencido pelo cancro. “Deus fez com que ele sofresse cá e não noutro lugar. Esteve oito anos em sofrimento e foi neste mundo que ele pagou por tudo”, conta Armanda. Assegura que o perdoou, mas nunca esquecerá. “O cemitério é perto de minha casa, mas eu não vou lá. É este o meu testemunho”, remata.