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Sociedade

Médicos avaliados de três em três anos

O bastonário da Ordem 
dos Médicos, Miguel Guimarães, quer 
que os clínicos tenham uma formação 
ainda mais contínua 


FOTO MARCOS BORGA

Ordem está a preparar processo para exigir aos clínicos que demonstrem as suas competências. Requisito deverá vigorar a partir do próximo ano


A Medicina está em constante e acelerado progresso e os seus profissionais não podem fechar os livros quando se tornam especialistas. A Ordem dos Médicos (OM) quer garantir que a formação é realmente contínua e está a preparar uma nova exigência: que os clínicos demonstrem as suas competências a cada três anos.

O bastonário Miguel Guimarães justifica o novo procedimento, imposto também pelas instâncias europeias, com “a necessidade de estar atualizado em benefício do doente”. Para isso, “o processo de formação médica contínua está a ser redesenhado e deverá será aplicado no próximo ano”. O objetivo é “que os profissionais demonstrem que continuam preparados para prestarem os cuidados exigidos pela medicina moderna”.

A demonstração de competências vai ser exigida a todos os médicos no ativo e terá um módulo específico para os clínicos que estiveram afastados do exercício da medicina e querem retomar a atividade. Miguel Guimarães dá o exemplo dos próprios bastonários da OM, que durante o mandato reduzem significativamente ou interrompem mesmo a assistência a doentes. Em caso de chumbo, os profissionais terão acesso a uma alternativa, ainda em estudo, para a exigida atualização.

O processo concreto está a ser liderado pelo Conselho Nacional para a Formação Profissional Contínua mas o bastonário adianta que “poderá consistir na entrega de um documento onde o médico descreve o que tem sido a sua atividade nos últimos três anos ou, quando suspende o exercício, numa pequena formação prática no próprio serviço para onde vai trabalhar”.

Medicina desatualiza 
ao fim de dois anos

Encarregado do apoio técnico e científico, o presidente daquele órgão consultivo da OM é perentório sobre o imperativo de testar ainda mais os profissionais: “Metade dos conhecimentos em medicina desatualizam-se em dois anos e os médicos têm obrigação de se atualizarem.” António Vaz Carneiro sublinha que está em causa “um sistema complexo, que tem de ser pensado com muito pormenor, porque a ideia não é colocar os médicos em xeque mas sim ajudar a melhorarem o seu desempenho”.

Com a garantia de que a nova exigência “não é para afastar os médicos da profissão” e sim obter uma “demonstração de que mantêm as competências”, António Vaz Carneiro explica ainda que a medida já é aplicada noutros países e que os bons exemplos vão ser fontes de inspiração para o modelo português. “Vamos auscultar outros sistemas, como o francês, o alemão, o belga ou o inglês para ver como fazem. Os três anos, por exemplo, são o período médio na Europa. Já os americanos optam pela certificação de dez em dez anos.”

Sobre o treino prático extra para os médicos que temporariamente não exerceram, o responsável defende que “tem de ser um processo para recuperar a informação que se perdeu e que, nos casos em que os profissionais falham neste treino, oferece uma alternativa para que com o mínimo de complicações possam garantir aos seus doentes que estão atualizados”.

António Vaz Carneiro, também professor universitário e presidente do Instituto de Medicina Baseada na Evidência, reconhece que “a carreira médica está cheia de exames, embora mais para a progressão”. E explica que a nova exigência tem outra missão: “Que conseguimos demonstrar perante a sociedade que somos capazes de praticar medicina com a melhor qualidade e que nos mantemos atualizados.”

Consultas mais demoradas

Para o bastonário a qualidade da prestação de cuidados passa ainda por outras exigências. Desde logo, tempo adequado para atender os doentes. Por isso, também no próximo ano serão publicadas normas com novos tempos para as consultas, que não deverão ser marcadas com intervalos inferiores a vinte minutos.

Miguel Guimarães explica que vão ser definidos três a quatro tempos padrão, ajustados às especialidades. Por exemplo, psiquiatria ou medicina familiar devem beneficiar de tempos mais longos e ortopedia ou cirurgia vascular de consultas mais rápidas.