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Sociedade

Assédio sexual para lá de fronteiras e sotaques

Discussão sobre a campanha contra o assédio sexual "#MeToo" no Parlamento Europeu em outubro deste ano

CHRISTIAN HARTMANN/REUTERS

Uma realidade global, capaz de limitar a liberdade feminina, que chegou às manchetes por Hollywood mas que é muito mais vasta e está presente em todos os continentes, aparecendo em força e com surpresa em países escandinavos como a Dinamarca. A CNN fez um retrato negativo do assédio sexual nos vários continentes

"Uma mulher está a andar sozinha pela rua, sem caminhos alternativos a seguir, até que percebe que terá de passar por um grupo de homens. Poderá ouvir comentários como 'olá beleza? ou 'olá, rapariga sexy', o tom poderá ser mais enfático e o caminho poderá ficar bloqueado ou a situação poderá tornar-se mesmo mais agressiva, com os homens a tocarem no corpo da mulher. Em último caso, pode haver abuso sexual ou violação. Qualquer mulher, em qualquer país, é capaz de relatar uma experiência como esta". É assim, de forma gráfica e visual, que a CNN dá início a um trabalho sobre o assédio sexual no mundo, as semelhanças e diferenças verificadas nos vários continentes, dando consistência e fundamentação estatística a um problema cada vez mais referido na comunicação social.

Considerado nas suas várias manifestações possíveis, o assédio sexual é abordado neste artigo como uma "parte da vida quotidiana, particularmente em locais públicos" e que, como explica Rachel Jewkes, diretora do programa internacional "O que funciona para prevenir a violência contra mulheres e raparigas", é utilizado, sobretudo, para "limitar a liberdade feminina". De acordo com as Nações Unidas, mais de 35% das mulheres, em todo o mundo, já tiveram de lidar com situações de violência física ou sexual e 120 milhões de raparigas foram submetidas a relações sexuais forçadas. E quase 750 milhões de mulheres foram obrigadas a casarem-se antes de completarem 18 anos.

Na Europa, foram analisados dados relativos a 28 países e os resultados demonstram que o abuso sexual e físico por parceiros e ex-parceiros atravessa as fronteiras, tocando em todos os Estados, com destaque para a Dinamarca, onde 52% das mulheres ouvidas disseram já terem passado por estas situações de violência. Seguem-se a Finlândia (47%), a Suécia (46%) e a Holanda (45%). A França e o Reino Unido aparecem com 44%. Neste país, 64% das mulheres dizem já terem sido assediadas em locais públicos.

Nos Estados Unidos, refere o texto da CNN, o problema ultrapassa e muito o circuito restrito de Hollywood, onde, segundo Ted Bunch, co-fundador do grupo "A Call to Men" que visa prevenir a violência masculina, "as mulheres são vistas como objetos, propriedades". Cerca de 65% das norte-americanas inquirdas disseram já terem lidado com o assédio em plena rua e uma em cada quatro foram sexualmente assaltadas ao longo da vida.

Em países da América Latina, como o Brasil, os dados são mais negativos, com 86% das mulheres a afirmarem já terem sido confrontadas com violência e assédio sexual em público. O pior é que 84% das inquiridas no Brasil diz ter sido violada ou assediada por elementos das forças policiais.

Nem no Pacífico a situação parece estar resolvida, embora as diferenças entre os países sejam enormes, com 17% das mulheres da Austrália a dizerem terem sido vítimas de violência sexual pelos parceiros e o total subir para 64% nas Ilhas Fiji. Mas 40% das australianas dizem não se sentirem seguras à noite na vizinhança onde vivem e 90% das mulheres da Papua Nova Guiné a dizerem terem sofrido assédio nos transportes públicos.

Os casos mais graves, contudo, continuam a ser registados em África e na Ásia. No continente africano o assédio afeta milhões de mulheres, com mais de metade da população feminina da Tanzânia a dizerem ter sido violadas pelos próprios maridos e parceiros, de acordo com os dados de um relatório recente da Organização Mundial de Saúde, citado pela CNN. Na Etiópia, o total chega aos 71% de mulheres afetadas.

Na Nigéria mais de 43% das raparigas são obrigadas a casar, de acordo com as Nações Unidas, e seis em cada dez crianças com menos de 18 anos já foram confrontadas com alguma forma de violência física, emocional ou sexual, segundo a Comissão Nacional da População daquele país.

Na África do Sul, apenas 12% das mulheres dizem sentirem-se seguras perante ofensas verbais ou físicas nas suas próprias zonas de residência e 80% das entrevistadas disseram terem experimentado alguma forma de abuso no último ano, de acordo com o relatório "Action Aid". E, segundo a organização sul-africana "Rape Crisis", mais de 53 mil violações foram registadas nos serviços policiais daquele país em 2014 e 2015, o que permite calcular uma média diária de 150 violações. e, o pior, alerta a organização, é que a maior parte dos casos nem chega a ser relatado pelas vítimas.

A situação mais grave, no entanto, surge no continente asiático, onde uma cultura baseada na honra e na cobrança da castidade feminina pela própria família agravam a situação das mulheres assediadas. Tudo começa pelo próprio espaço público, considerado à partida um território masculino e marcado pela insegurança, o que faz com que sirva de argumento para que as mulheres e as raparigas permaneçam em casa, afastadas da possibilidade de terem acesso à educação.

No Bangladesh, 84% das mulheres ouvidas disseram terem sido assediadas, física ou verbalmente, em público. Mais de metade já foram pressionadas pelos condutores dos transportes públicos e mais de metade já foram violadas pelos companheiros. Na índia, Paquistão e no Bangladesh, a desigualdade de género é considerada uma marca social enraizada.

O silêncio feminino sobre o problema nos países árabes é classificado como surpreendente pelo trabalho da CNN. Especialistas citados, como a libanesa Lina Abirafeh, diretora do Instituto para Estudos sobre as Mulheres no Mundo Árabe, dizem que tal se deverá ao medo. "As pessoas estão assustadas", afirma,sublinhando o estigma e a vergonha que ficam associados às situações de violência e assédio sexual naqueles países. apesar da falta de denúncias, estima-se que 37% das mulheres que vivem em países árabes tenham experimentado situações de violência ao longo da vida, segundo dados das Nações Unidas.