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“Devia deixar de amar quem me tentou matar, não é?”

FOTO GETTY

Foi por sorte, por milagre, que este ano 23 mulheres não aumentaram as estatísticas da morte por violência doméstica. Histórias de sobreviventes - e de homicídios conjugais em 2017.

Anabela tinha recebido o aviso de carta registada há uns dias. Não foi logo aos Correios, andou num compasso de espera de negação, como se pudesse adiar o inevitável. Na última quarta-feira abriu-a e lá estava: o julgamento da sua quase morte já tem data, começa no início de 2018, e ela está tudo menos pronta. É como se um pedaço de papel formal deitasse por terra todo o trabalho de recuperação interior dos últimos 11 meses. Desdobrou as páginas e saltou tudo cá para fora outra vez. A voz voltou a tremer, o corpo enrosca-se no sofá e não quer sair, as lágrimas caem do nada. Não é o esmiuçar público do que ocorreu que a transtorna. “É ver o Paulo outra vez.” Há uma mágoa grande, quase palpável, quando fala dele, mas não é contra ele. Não sente raiva nem ódio. Só pena. “É pena de não ter resultado. Tenho saudades dos nossos tempos bons. Nós gostávamos mesmo um do outro, sabe? É uma luta muito grande que tenho dentro de mim. Devia deixar de amar quem me tentou matar, não é? Mas não é assim tão fácil”, conta Anabela.

Paulo Roque, de 39 anos, e Anabela Lopes, de 37, viviam juntos há um ano e sete meses em Grândola, quando ela saiu de casa. As agressões tinham-se tornado comuns, e ela já não conseguia agarrar-se aos momentos bons para se manter por lá. “Não me separei por não gostar dele, mas porque era vítima. Ele era uma pessoa do 8 ao 80. Tanto era carinhoso como de repente virava bicho”, recorda. E lembra os olhos negros, a faca encostada ao pescoço, os ciúmes doentios. “Não havia volta a dar. Não se pode estar sempre a viver com medo.” No dia 2 de dezembro de 2016, Anabela pôs um ponto final na relação. A decisão não agradou a Paulo. Um dia convidou-a para um café. “Só mais tarde percebi o que ele então me disse: ‘Goza bem o Natal e o Ano Novo, que no início do ano as coisas vão ser bem diferentes.’”
No dia 2 de janeiro de 2017 raptou-a. O carro dela foi encontrado na berma da estrada, com o vidro do condutor partido, a chave na ignição e as portas trancadas.

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