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Olá, chamo-me Mohamad e trabalho das nove às cinco

Alberto Frias

Vão para o Alentejo lavrar os campos, para o Douro apanhar fruta, atendem o telefone em call centers de Lisboa ou fazem pão em Setúbal. São a minoria, mas também os que respondem ao “mais complicado” do processo de recolocação de refugiados: a integração

Rute Barbedo

“No início, quando íamos às compras, não percebia porque é que a minha mulher podia passar à frente das outras pessoas. Só depois nos explicaram que as grávidas tinham prioridade.” Ainda é o início para o sírio Mohamad Refaee, que chegou a Portugal a 29 de março, depois de se ter casado em Alepo (onde lhe bombardearam a casa), de ter pago a um contrabandista para escapar do caos, de ter aprendido inglês com militares americanos na Grécia e de ter sido pai em Lisboa. Mas o sírio vai-se habituando às diferenças do ‘mundo ocidental’, como as mulheres adorarem trabalhar ou os empregados terem direito a uma pausa para o almoço.

Mohamad é bonito. Traz uma camisa de tom pastel, parecido com o deserto. Os olhos claros falam por cima das olheiras fundas, de quem passou meses a dormir em tendas ou em estado de alerta. Parece nervoso, ou talvez desconfortável por interromper o dia de trabalho com uma conversa banal sobre a vida. Em Portugal, tudo é novo e tudo está a acontecer depressa. “A qualquer momento a minha mulher pode ligar a dizer que temos de ir para o hospital”, disse no dia da entrevista ao Expresso. Desta vez, não seria por uma má notícia, mas porque iria ser pai.

Pertence ao pequeno grupo de recolocados que começaram a chegar a Portugal no final de 2015 e que conseguiram emprego. “Na experiência do Centro Português para os Refugiados [CPR], cerca de 40% dos recolocados estão a trabalhar, mesmo que sem contratos de longo prazo”, calcula a presidente, Teresa Tito de Morais. Espalham-se pela Beira Baixa, pelo Alentejo, de mãos na agricultura, em cabeleireiros, em telefones de centros de atendimento, caixas de supermercado ou em sapatos feitos à medida, como os que saem da empresa que empregou Mohamad Refaee, 14 dias depois da aterragem.

Há todo um passo-a-passo para chegar ao estatuto de refugiado; e há outro para o de trabalhador, que empilha requisições para a identificação fiscal e da Segurança Social, autorizações de residência, idas ao Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, tentativas (e erros) de obtenção de equivalências nos diferentes graus de ensino, traduções de currículos de quem ainda está a tentar memorizar o alfabeto latino. “Existe um grupo de trabalho, que envolve vários ministérios e o Instituto do Emprego e Formação Profissional, entre outras entidades, que é um facilitador do reconhecimento de documentos, para que estas pessoas tenham a possibilidade de arranjar emprego mais rapidamente. Mas isto é na teoria. Entre a decisão política e a prática nas secretarias, o fosso é muitas vezes profundo”, reconhece a responsável do CPR.

“Não há diferenças, somos de vários países”

Para Mohamad, a vida retomou a rotina. “Às vezes sinto que estou em Alepo”, diz. Outras vezes, sabe bem que não. Lembra-se da mãe, que ficou na Turquia. Chora, porque sente saudades. “É só isso.” Sai de casa depois das oito, apanha o comboio para Lisboa e começa a trabalhar 15 minutos depois da meditação em grupo. “Também páro cinco vezes para rezar. Pedi-lhes, e eles consentiram”, conta o sírio. Fá-lo numa sala envidraçada, com Lisboa a esticar-se até ao Tejo, onde também acontecem as reuniões, em inglês, o mesmo que aprendeu na Grécia. “Aqui somos de vários países. Irão, Canadá, Sérvia… Por isso não há diferenças entre nós. Ou seja, não sou só eu que não sei coisas sobre Portugal”, diz Mohamad.

“Quando ele [o patrão, Rafic Daud], me perguntou ‘Queres trabalhar?’, eu disse logo que sim. Não queria acreditar...” Começou por arrumar sapatos, mas como “tinha jeito para números e computadores” (estudou Economia na Síria), passou a encarregar-se de tarefas administrativas, como a gestão de encomendas. “É uma função muito minuciosa e ele faz aquilo muito bem, é perfeccionista e tem vontade de evoluir”, conta Rafic. Se há uma falha numa referência é um problema. Basta trocar o cordão azul pelo verde, na base de dados, que “o processo vai todo para trás”, pormenoriza Mohamad.

Para o diretor da empresa, a problemática dos refugiados sempre foi “muito cara”. “Mas não foi por isso que contratei o Mohamad, mas porque estamos a crescer muito. Precisamos de pessoas; não interessa de onde vêm”, esclarece. “Temos aqui oito nacionalidades e vendemos para o mundo inteiro, são mais de 90 países. Portugal é um mercado que representa 1%”, detalha, indicando que, para o negócio, “a expressão natural e cultural interessa mais do que a língua, ou seja, a forma como se comunica com um chinês não é a mesma como se comunica com um americano”. Na abertura para o mercado do Médio Oriente, Mohamad poderá ser um trunfo.

A integração pelo trabalho

Entre os 1419 cidadãos recolocados no país entre dezembro de 2015 e agosto deste ano, que, como Mohamad, escaparam de uma situação de conflito, perseguição ou violação dos direitos humanos (passando por outros Estados antes de cá chegar), 798 abandonaram Portugal. Alguns foram para a Alemanha, França ou Reino Unido, à procura do “sonho europeu” ou da família (são muitas as que se espartilham no decorrer dos processos de recolocação). Dos que ficaram, cerca de 180 são acompanhados pelo CPR.

Há “muito trabalho pela frente” em relação ao número crescente de pedidos de asilo a Portugal (segundo o “Relatório de Imigração, Fronteiras e Asilo”, divulgado em julho pelos Serviços de Estrangeiros e Fronteiras, os pedidos espontâneos e de recolocados cresceram 64% entre 2015 e 2016, para o maior número dos últimos 15 anos) e “o grande desafio” do momento é a integração pelo trabalho. Ou seja, conseguir que, “ao fim dos 18 meses [durante os quais é concedido apoio financeiro, logístico, jurídico e psicológico], estes recolocados possam estar em condições de autossuficiência financeira”, especifica Teresa Tito de Morais.

Foi esse o pensamento de Alex (nome fictício), que pediu proteção a Portugal em dezembro do ano passado. Quando conseguiu emprego a organizar eventos (e a ganhar uma média de 1000 euros mensais), a primeira preocupação foi notificar o CPR e a Segurança Social de que já não precisava de apoio. “Propuseram-me comida, tentaram arranjar-me casa e apoio financeiro. Até pode ser mal interpretado, mas recusei, porque não preciso, tenho trabalho”, conta ao Expresso. Encontrou nas redes sociais a atual chefe – de origem ucraniana, que procurava um profissional fluente em inglês e russo – e hoje gere propostas e orçamentos para “estrangeiros que vêm casar a Portugal, em 90% dos casos”.

Aos 33 anos, Alex não teve de atravessar o Mediterrâneo numa embarcação sobrelotada – chegou a Lisboa de avião –, não tem a pele escura nem o som dos tiros a acordá-lo durante a noite, mas foge de uma “situação de risco” em que a homossexualidade é a causa. “Tinha um namorado e, por isso, nos últimos dois a três meses em que vivi lá fui várias vezes perseguido pela polícia”, afirma.

Quando relata a sua história nas idas ao banco ou à Segurança Social, perguntam-lhe se o país de onde veio está em guerra. “Não está”, responde, “mas não era uma situação em que pudesse escolher [ficar]”. Na realidade que deixou para trás, “99% dos homossexuais vivem escondidos”. “Eu até conseguia aguentar isso, mas a partir do momento em que comecei a ser perseguido, foi o ponto final. Em Portugal, há alguns traços de xenofobia, aqui e ali, mas posso andar livre na rua.”

O outro ponto final

Se para Alex, casa, alimentação e 150 euros por mês não tornam a vida fácil mas possível, num retrato de família a urgência de encontrar emprego é maior. Saad, de 47 anos, e Sanaa, de 38, chegaram há cerca de um ano a Portugal. São irrequietos e curiosos. Servem café solúvel e biscoitos em forma de argola cobertos de chocolate. Não há tâmaras nem chá.

José Carlos Carvalho

Sanaa já dá bons toques na língua portuguesa, os dois filhos (de 8 e 9 anos) vão em “nível avançado” e Saad, que arranjou trabalho numa empresa farmacêutica em Sintra (de origem jordana) duas semanas depois de se instalar no Cacém, quer começar a estudar à noite. Das conversas com outros refugiados e requerentes de proteção internacional, acreditam que uma das razões que motiva muitos deles a abandonar Portugal é a parca ajuda financeira em recomeço de vida. Depois, “18 meses [de apoio] é pouco”, afirma Sanaa. “Como é que, com seis filhos, é possível manter a casa e a família? Mas também é verdade que a vida não é fácil em lado nenhum…”

Como refere a presidente do CPR, “para os portugueses, pagar as contas também é complicado, mas muitas vezes eles têm uma retaguarda familiar”. No caso dos refugiados, “o Estado não tem feito um grande esforço, mas os apoios são necessários até haver algum equilíbrio nestas famílias. O país tem de dar trabalho, sim, mas também tem de gastar dinheiro para que estas pessoas, fragilizadas, que tiveram vivências muito difíceis, consigam viver. É uma questão ética. Não podemos pensar só se isto vai dar despesa ao país”, reivindica.

Da Síria para a Turquia, de lá para a Grécia e da Grécia para o Cacém, os três capítulos da travessia deixaram marcas, mas a família curda passa-as à frente. “Na Síria, trabalhávamos [Sanaa era contabilista e o marido agricultor] mas perdemos tudo. Bombardearam a casa de Alepo, mudámo-nos para um lugar mais distante e destruíram-nos a casa outra vez. Não havia nada a fazer”, relata Sanaa. “Na Grécia, éramos quatro numa tenda para dois, durante seis meses. Chovia todos os dias. Foi duro para eles”, continua, olhando para os filhos que brincam no chão da sala.

Com travessias destas como pano de fundo, “para encontrar emprego, basta querer”, acredita Saad, traduzido pela mulher, enquanto olha as mãos. Mas Saad é cheio de força. Não calha a todos. A procura durou-lhe duas semanas. A conselho de um vizinho, foi pedir trabalho numa farmacêutica e “o patrão gostou porque ele mexia-se bem”, regozija-se a mulher. Agora, faz de tudo um pouco, desde organizar a mercadoria à limpeza dos armazéns. “Um dia, o patrão disse-me: ‘Gosto muito do teu trabalho, mas se aprenderes português serás ainda melhor.’ Vou estudar à noite, seis horas por semana”, promete Saad, de trago dado no café solúvel.

Para já, “tudo – como a escola – é de graça”. “É verdade que às vezes o dinheiro [300 euros através do CPR e 580 por cada mês de trabalho] não chega para nos orientarmos. Mas é uma ajuda muito boa”, afirma Sanaa, que tem uma estratégia pensada para voltar à contabilidade. “É preferível aprender português primeiro para depois encontrar um trabalho melhor.” O marido continuará satisfeito na farmacêutica, mas se um dia conseguir ter “uma quinta para pôr lá todos os refugiados a trabalhar”, aí, sim, voltará a sentir-se em casa. O clima já é parecido com o da Síria, os alimentos pouco variam, só a qualidade da terra “é diferente”.

Saad, Sanaa, Abude e Maya deixarão os domingos para a volta de sempre. “Acordamos e vamos beber café, falamos com as pessoas do bairro e voltamos para casa para tomar o pequeno-almoço”, conta Sanaa enquanto Saad oferece uma maçã cortada em pedaços. “Depois vamos passear num jardim ou ao Rossio”, para onde os leva a linha de Sintra.

“Não há problema; ele não é músico”

Na outra linha, a da margem sul do Tejo, encontramos Abubakir e Alan, dois curdos iraquianos que partilham casa em Setúbal e tiveram “a sorte” de conhecer uma ‘mãe adotiva’, voluntária na Sociedade de Estudos e Intervenção em Engenharia Social. “Se não fosse a Zenóbia, não sei como seria. O CPR não nos acompanha. Só dão o dinheiro todos os meses e vão embora”, queixa-se Alan.

Tiago Miranda

Músico de formação, deu o primeiro concerto (remunerado) no final de julho, em Oeiras. Mas foi a música que lhe pôs a corda na garganta no Iraque, onde nasceu há 30 anos. “O meu pai quis que viesse para Portugal para poder estudar”, inicia Alan, mas Zenóbia (que agora ensaia o papel de tradutora) interrompe, pedindo que explique melhor. “Sim, há outra parte. Os fundamentalistas xiitas atacaram-me por tocar trompete perto de casa. Aconteceu várias vezes e o meu pai, como sou o filho mais novo e ele gosta muito de mim, disse-me para fugir para a Europa.” E ele, ficou no Iraque? “Sim, mas para ele não há problema; ele não é músico”, responde Alan.

Entre o trompete e o piano, passando pelo canto, este curdo de 30 anos acredita que, com a música, pode “trazer algo de novo” a Portugal, mas também quer aprender como se pinta a Europa nas pautas. No dia em que tocou no Palácio Flor da Murta, foi abordado por um maestro e convidado a participar num festival em Setúbal, em maio. “Pode ser que daí venham mais”, espera Zenóbia.

Tiago Miranda

Ao lado, Abubakir leva a mão ao rosto imberbe para dar uma passa no cigarro, pede uma pausa para encontrar as palavras, que o inglês é frágil e aprender português fá-lo “cansado”. É ele quem coze o pão em casa, que trabalha por turnos e nas escalas de litros, gramas e temperaturas, desde que foi admitido na padaria de uma grande superfície comercial da cidade. “Já trabalho há 14 anos. Como padeiro, comecei há quatro; antes estive em restaurantes”, conta o curdo de 22 anos. “O meu pai também fazia pão, mas não foi ele que me ensinou”, esclarece. Pouco disso servirá para fazer crescer os 32 tipos de pão que conheceu em Portugal e que lhe fazem subir as mãos à cabeça. Além de que o pão curdo, que é só um, não leva fermento. “Não como o pão daqui, faço o meu”, sorri o iraquiano com olhos de mundo novo. Na esplanada, Abubakir e Alan riem muito, querem posar para a câmara fotográfica. São dois miúdos, começaram a trabalhar há 14 e 21 anos, cada um deles. Têm mais de 30 pela frente.

Começar de novo requer um plano de emprego

O Conselho Português dos Refugiados, que apoia a colocação de requerentes de asilo em solo nacional juntamente com entidades como o Alto Comissariado para as Migrações e a Plataforma de Apoio aos Refugiados, está a “desenvolver cada vez mais mecanismos para facilitar a integração pelo trabalho”, segundo a presidente, Teresa Tito de Morais. Uma das iniciativas chama-se Começar de Novo.

Arrancou em setembro, com o objetivo de atenuar as dificuldades de inserção no mercado laboral, que, “em Portugal, se tem revelado um processo cada vez mais difícil e moroso, caraterizando-se por percursos de mobilidade profissional descendente que podem conduzir à perda da autoestima e à exclusão social”, pormenoriza o documento de apresentação do projeto.

O protocolo com uma empresa de gestão de recursos humanos servirá para fazer a ponte entre a oferta e a procura de emprego e assegurar formação no âmbito do empreendedorismo, uma realidade que “não é de agora, sobretudo na área da restauração”, lembra a presidente do CPR. “Na altura dos refugiados chilenos, eles faziam muito bem as empanadas e conseguiu-se montar um negócio de venda ambulante nas praias. Há também o caso do restaurante Brasuca, no Bairro Alto, com refugiados do Brasil… Portanto, há pequenos negócios que podem ser implementados”, nota a responsável.

Está também em fase de arranque a Rede Operacional de Apoio aos Refugiados, uma ferramenta digital de apoio aos profissionais das entidades de acolhimento e autarquias envolvidas no plano de recolocação de emergência, para que se possam multiplicar casos de sucesso pelo país. “Se uma coisa correu bem em Guimarães, talvez possa ser replicada em Castelo Branco”, sugere Teresa Tito de Morais.

“Portugal é um país generoso”, analisa a responsável, que não deixa de apontar “alguns focos de racismo e de xenofobia, ou medo de que roubem regalias ao povo português”. Nesse campo, que implica “passar a mensagem de que a vinda dos refugiados não será uma ameaça mas uma mais-valia”, adivinha-se “um trabalho muito grande” pela frente.