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No dia em que saiu ar da torneira, Samuel soube que era assunto sério

Nuno Botelho

Viseu anda a contar gotas de água. A barragem que alimenta o concelho atingiu mínimos históricos e a Câmara tem resolvido o problema com recurso a camiões cisterna que transportam água de barragens vizinhas. Essa operação vai ser reforçada, mas entretanto a população tem de se aguentar com acesso limitado a água. Numa das aldeias há um chafariz que ainda não secou e que, por isso, é cada vez mais procurado por pessoas vindas de outras localidades

João Santos Duarte

João Santos Duarte

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Jornalista

Nuno Botelho

Nuno Botelho

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Fotojornalista

Há alturas em que só sai um fio de água, em especial de manhã bem cedo, ou já perto da meia-noite. Mas houve um dia, há cerca de duas semanas, em que Samuel abriu a torneira e tudo o que saía era ar.

“Percebi nesse momento que esta seca era mesmo para ser levada a sério.” Foi aí que decidiu mudar para a água do poço que tem no quintal da casa onde vive, na aldeia de Folgosa, apesar de este também já ter visto melhores dias. Num inverno normal estaria cheio, ou lá perto, e este ano a água já só se avista bem lá para o fundo.

Apesar de alguns habitantes do concelho de Viseu já terem passado pela experiência de não ter água na torneira em determinado momento, a autarquia garante que, até agora, foram situações pontuais e localizadas. “Até agora conseguimos passar por este período de seca extrema sem termos tido corte de água. Podemos ter tido situações pontuais, uma ou outra rutura no sistema, isso é normal. Mas temos conseguido manter os 60 depósitos espalhados pelo concelho abastecidos de água, jogando sempre com as previsões de consumo dos habitantes de cada localidade. Agora, pressão fraca nas torneiras é natural que exista, quanto a isso não há nada a fazer”, garante ao Expresso Almeida Henriques, presidente da Câmara Municipal de Viseu.

A albufeira da Barragem de Fagilde, que alimenta o concelho, está em mínimos históricos. Se não fossem usados outros recursos, Viseu só teria água para mais 20 dias. A solução tem passado por camiões cisterna que fazem várias viagens ao dia para transportar água de barragens vizinhas, nomeadamente Balsemão e Planalto Beirão, até ao Viso, onde está situado o principal reservatório que abastece Viseu. E, perante o agravamento da situação no Fagilde, a Câmara anunciou agora a duplicação do número de camiões, numa medida que vai ter efeito já nos próximos dias e que conta com o apoio da Águas de Portugal. “Estamos a reforçar a operação que montámos há cerca de 12 dias, que implicava 27 camiões a operar oito horas por dia cada um, fazendo um total de 122 movimentos A partir desta semana vamos aumentar para 12 horas diárias o transporte das águas que vêm das estações de tratamento de Balsemão e Planalto Beirão. Além disso, a Águas de Portugal tem em curso um processo de contratação de mais 15 camiões cisterna. O que quer dizer que, brevemente, vamos ter 43 camiões em constante operação.”

Mas a autarquia está ainda a avançar com medidas complementares. Tudo para reduzir ao máximo a necessidade de recorrer à água de Fagilde e assim prolongar o período de vida da albufeira. Almeida Henriques explicou ao Expresso que “foi feito um furo há cerca de 3 anos que ainda não tinha sido testado”. “Estamos agora a fazer os testes e, se tudo correr bem, terá capacidade de nos fornecer mais 3 a 4 mil metros cúbicos por dia.”

O depósito do Viso, o principal reservatório do concelho de Viseu, recebe todos os dias dezenas de camiões-cisterna carregados de água vinda de barragens de concelhos vizinhos.
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O depósito do Viso, o principal reservatório do concelho de Viseu, recebe todos os dias dezenas de camiões-cisterna carregados de água vinda de barragens de concelhos vizinhos.

Nuno Botelho

O chafariz na aldeia de Folgosa é cada vez mais procurado por pessoas vindas de aldeias vizinhas, e mesmo da cidade., que trazem dezenas de garrafões
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O chafariz na aldeia de Folgosa é cada vez mais procurado por pessoas vindas de aldeias vizinhas, e mesmo da cidade., que trazem dezenas de garrafões

Nuno Botelho

Belarmino da Silva, habitante da aldeia de Vilar, onde a população nunca teve água canalizada e tem de viver dos poços e furos.
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Belarmino da Silva, habitante da aldeia de Vilar, onde a população nunca teve água canalizada e tem de viver dos poços e furos.

Nuno Botelho

Dois dos chafarizes de Folgosa estão secos há anos, o que reduziu as fontes de água que a população poderia procurar.
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Dois dos chafarizes de Folgosa estão secos há anos, o que reduziu as fontes de água que a população poderia procurar.

Nuno Botelho

Idalina Rodrigues queixa-se da falta de pressão nas torneiras. “Ainda no outro dia levantei-me de manhã, queria tomar banho e não tinha água”
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Idalina Rodrigues queixa-se da falta de pressão nas torneiras. “Ainda no outro dia levantei-me de manhã, queria tomar banho e não tinha água”

Nuno Botelho

António é o dono da cervejaria Seixas, em Folgosa. “Fomos obrigados a poupar ainda mais. À noite há alturas em que corre muito pouca água”.
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António é o dono da cervejaria Seixas, em Folgosa. “Fomos obrigados a poupar ainda mais. À noite há alturas em que corre muito pouca água”.

Nuno Botelho

O presidente da Câmara de Viseu, Almeida Henriques, garante que não faltará água nas torneiras. “Estamos a reforçar a operação dos camiões-cisterna”
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O presidente da Câmara de Viseu, Almeida Henriques, garante que não faltará água nas torneiras. “Estamos a reforçar a operação dos camiões-cisterna”

Nuno Botelho

A Câmara Municipal de Viseu tem estado gastar 20 mil euros por dia com a operação de transporte de água com recurso a camiões cisterna, mas com a duplicação dos camiões, contando também com a parte que caberá à empresa Águas de Portugal, o custo diário desta operação deve ascender a 50 mil euros. Situação que leva o autarca a falar na necessidade de um reforço dos apoios por parte do Estado. “Eu acredito que o que ministro do Ambiente disse, que não iria faltar dinheiro para apoiar as autarquias nesta situação de emergência, é algo que vai ser cumprido.”