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Paraíso ou Apocalipse? Política ou tecnologia?

A Web Summit 2017 vacilou entre um futuro ao estilo da cidade noturna, mas cintilante, do primeiro “Blade Runner”, e a aridez violenta dos desertos de “Mad Max” (na foto)

A breve prazo, segundo se anunciou na Web Summit, poderemos ter aplicações e tecnologias perfeitas para controlar a nossa asma, ainda que possamos ter mais asma, devido à poluição. Carros que irão conduzir-nos ainda que fiquemos mais perdidos. Robôs que querem fazer-nos sentir mais acompanhados ainda que estejamos mais sozinhos. Uma inteligência artificial que tanto pode dar-nos vida como matar.

Uma semana depois, e com a distância de quem não andou por lá (mas acompanhou o que se foi dizendo), parece possível concluir que a Web Summit 2017 vacilou entre um futuro ao estilo da cidade noturna, mas cintilante, do primeiro “Blade Runner”, e a aridez violenta dos desertos de “Mad Max”. O que se acentuou nesta edição foi o tempo de incerteza em que vivemos, divididos entre a miragem do paraíso (acessível a apenas alguns) que a tecnologia promete, e o pesadelo do Apocalipse à escala global.

O inferno já é, de resto, uma realidade para quem não tem como escapar aos efeitos do aquecimento global. Existe há anos para os refugiados sírios que – como Al Gore, ex-vice-Presidente dos Estados Unidos, lembrou no encerramento da Web Summit – descobriram na seca prolongada uma das causas da guerra. Para os porto-riquenhos que, arrasados pelo furacão Maria, não têm eletricidade nem comunicações há várias semanas. Para os habitantes de Nova Deli, cidade na qual os níveis de poluição obrigam as pessoas a respirar um ar equivalente a fumar mais de 40 cigarros por dia. Para os esfomeados rohingya, mortos e perseguidos pelo exército da Birmânia. Para os portugueses que, depois de acossados pelos incêndios, veem agora as suas culturas secar à falta de água. Para todos os seres marinhos que lutam para sobreviver na Grande Barreira de Coral na Austrália...

Sem saber se a Cimeira do Clima poderá travar as alterações climáticas, Al Gore não se limitou a subir ao palanque dos ‘techs’ para acrescentar mais uns dados que todos nós podemos 'googlar'. Al Gore fez questão de estar em palco, como disse, com uma única missão: recrutar.

A propósito da presença de Al Gore na Web Summit, lembrei-me de um texto da “The New Yorker”. Publicado em 2013, o artigo contava que, no contexto de uma visita de Barack Obama a Silicon Valley, um dos trabalhadores terá informado um colega que não pretendia perder tempo com o Presidente dos Estados Unidos: “Eu poderei fazer muito mais diferença no mundo do que alguém no governo alguma vez conseguirá fazer.” O caso não era relatado como uma situação isolada, mas como parte de uma crença maior, partilhada por muitos outros 'colaboradores’ do ‘campus’ – meio no qual já era ponto assente, nessa altura, que a política havia sido tomada pelos medíocres, e que no seu lento e arrastado movimento pouco ou nada poderia fazer para mudar o mundo.

Passou meia dúzia de anos, o que em tecnologia faz muita diferença. E em política, pelos vistos, também. Os EUA têm agora Trump como Presidente – alguém que defende as energias fósseis e se recusa a reconhecer como factuais as alterações climáticas.

Al Gore não quis, porém, usar o palco da Web Summit para discutir questões políticas. Nem se concentrou na incerteza do mundo que nos espera. Num discurso de esperança, escolheu sublinhar a urgência de agir – reafirmada esta semana pela carta (publicada na “BioScience”) que alerta para os devastadores efeitos das alterações climáticas, assinada por 15 mil cientistas oriundos de 184 países (pensa-se que é o documento com o maior número de assinaturas na história da ciência).

Al Gore parece ter percebido, como muitos outros políticos (grupo no qual se inclui António Guterres, secretário-geral da ONU), que, na luta para evitar um desastre ao nível global, não podemos (com ou sem arrogância intelectual) dispensar a gente de todos os Silicon Valleys deste mundo.