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Lisboa vai ouvir falar do trabalho forçado no III Reich. E dos portugueses que lá penaram

Um colóquio internacional e uma exposição trazem à capital alguns dois maiores especialistas no tema. E demonstrar que Portugal não ficou à margem dessa realidade

Litografia de Jean Cluseau-Lanauve sobre a vida no Stalag XIIA, oferecida e dedicada ao português José Nunes Pinto, que ali foi internado como prisioneiro de guerra em 1940

Litografia de Jean Cluseau-Lanauve sobre a vida no Stalag XIIA, oferecida e dedicada ao português José Nunes Pinto, que ali foi internado como prisioneiro de guerra em 1940

Foto Cortesia de Ana Paula Pinto

Durante a II Guerra Mundial, a economia nazi sustentou-se à custa do trabalho escravo. Este mobilizou mais de 20 milhões de pessoas na Alemanha e nos países ocupados, passando a ser central sobretudo a partir de 1941, quando a guerra alastrou para Leste. Não só a maioria dos campos de concentração eram campos de trabalho forçado e os deportados utilizados para esse efeito. Tal força seria também encontrada entre os prisioneiros de guerra, internados nos muitos Stalags espalhados pela Alemanha, e entre os trabalhadores voluntários civis que, instigados pela promessa de melhores salários, cederam à propaganda nazi e aceitaram trabalhar em solo alemão. Muitos dos que entraram não conseguiram sair.

Em 2001, a fundação alemã EVZ (Memória, Responsabilidade e Futuro) foi criada para indemnizar as vítimas do trabalho forçado nazi. Subjacente a esta tarefa estava o reconhecimento de que aquela era uma realidade merecedora de atenção especial. Por esta razão, quando em 2009 o processo de compensações chegou ao fim, a EVZ continuou a financiar o estudo do fenómeno. E por isso apoiou a investigação sobre os portugueses engolidos por aquela feroz e imensa máquina. “Eles não faziam ideia de que havia portugueses. Portugal nesse campo não existia”, diz ao Expresso Fernando Rosas. O historiador coordenou a equipa de investigadores formada por Cláudia Ninhos, Ansgar Schaefer, António Carvalho, Antonio Muñoz-Sánchez e Cristina Clímaco, do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, que passou quatro anos a pesquisar essa realidade.

As conclusões a que chegaram vão ser agora apresentadas no colóquio internacional intitulado “O trabalho forçado na Europa durante a Segunda Guerra Mundial”, a decorrer este sábado no Goethe Institut. Nomes como Andreas Eberhardt, presidente da fundação EVZ, Ulrich Herbert — um dos pioneiros na investigação do trabalho forçado no III Reich — Dieter Pohl, Béla Rásky, Martin Bock, Brunello Mantelli, Maurició Janué Miret — a relatar o caso espanhol -, Peter Gaida, Thomas Fontaine — a abordar as políticas de deportação na França ocupada —, e Raphaël Spina, com uma comunicação sobre os estrangeiros que trabalharam para o Reich. No final, haverá a performance “O Ódio é uma falta de imaginação. Uma colagem literária - um testemunho encorajador”, concebida por Michael Lahr, com a presença de Jolana Blau, sobrevivente do campo de concentração de Theresiendstadt. Esta sexta-feira é inaugurada, no CCB, a exposição “Trabalhadores forçados portugueses no III Reich”, que foca a lente no contexto nacional. Em ambos os momentos, trata-se de demonstrar não só que houve vítimas portuguesas na engrenagem de escravatura nazi, mas também que em muitos casos foi possível reconstruir os seus percursos, sabem quem são e de onde vinham, e quantas foram, e quando e de que modo acabaram na Alemanha de Hitler.

Um inventário sem fim à vista

“Como é que um português vai parar a um campo de concentração? Como se torna trabalhador forçado na Alemanha? Que destino estas pessoas tiveram? Como o Estado português se comportou perante esta realidade? Estas eram as perguntas que precisavam de ser respondidas”, enumera Fernando Rosas. E porque a história é feita muitas vezes dos seus restos, daquilo que sobreviveu à destruição, as respostas obtidas são apenas um primeiro estádio da investigação, o início de um inventário que não se sabe onde nem quando irá acabar.

Para já, existem algumas certezas. Sabe-se que a maioria dos cerca de 600 portugueses envolvidos no trabalho forçado transitaram para a Alemanha a partir de França. Muitos eram emigrantes naquele país, a fugirem do desemprego que nos anos 30 grassava em Portugal e a cederem aos apelos de uma Alemanha que, iniciada a guerra, reforçara as promessas de bons salários. “Os alemães deixavam entrar toda a gente, mesmo quem não tivesse documento válido em França ou passaporte. Mas estes, depois, não podiam sair”, esclarece Ansgar Schaefer. A inexistência de um acordo de trabalho entre Portugal e a Alemanha servia de argumentação à legação portuguesa em Berlim para não emitir documentação.

José Nunes Pinto era estilista de alta costura em Paris quando se deu a invasão alemã. Alistou-se no Regimento de Marcha de Voluntários Estrangeiros, foi preso pelos alemães e internado no Stalag XIIA. Voltou para Portugal e instalou-se no Porto, onde foi o primeiro costureiro a fazer desfiles de moda

José Nunes Pinto era estilista de alta costura em Paris quando se deu a invasão alemã. Alistou-se no Regimento de Marcha de Voluntários Estrangeiros, foi preso pelos alemães e internado no Stalag XIIA. Voltou para Portugal e instalou-se no Porto, onde foi o primeiro costureiro a fazer desfiles de moda

FOTO Cortesia de Ana Paula Pinto

Sabe-se também que houve 206 portugueses entre os prisioneiros de guerra internados nos Stalags, forçados a trabalhar ao abrigo do artigo 17º da Convenção de Genebra. E que 77 cidadãos nacionais passaram pelo sistema concentracionário nazi. Neste caso, a contagem final é resultado não da simples adição mas da matemática mais complexa — e pouco exata — do III Reich, uma vez que um só indivíduo pode estar inscrito no registo de vários campos. Por outro lado, as estatísticas alemãs sobre o número de trabalhadores estrangeiros no país apontam o ano de 1944 como aquele em que houve mais portugueses no sistema, com um total de 376, entre os quais 35 mulheres. Já em 1943 houve 363, entre os quais 40 mulheres. Mais uma vez, ambos os números não são acumuláveis.

Há também uma quantidade indefinida de portugueses recrutados à força em França ao abrigo do Relève, o programa acordado em 1942 entre Franz Sauckel e o Governo de Vichy para o regresso de um prisioneiro de guerra francês em troca de três trabalhadores civis a serem mandados para a Alemanha, ou do Service du Travail Obrigatoire (STO), que em 1943 obrigava ao recrutamento compulsivo de civis em França. Cartas dos consulados e das legações dão conta de muitos portugueses que foram enviados para trabalho forçado na Alemanha no âmbito destes acordos, mesmo tratando-se de nacionais de um país neutral e em clara violação do direito internacional — e sem que o Governo português interviesse no sentido de os resgatar.

O Estado Novo, aliás, terminado o conflito, “abafou qualquer notícia do envolvimento português no esforço de guerra alemão”, afiança Fernando Rosas, acrescentando que os diplomatas no terreno agiram em nome pessoal e não em resposta a qualquer instrução oficial. O grupo de investigação consultou os arquivos alemães, franceses e portugueses, além do International Tracing Service, que contém o precioso Índice Central de Nomes, com informação sobre 17,5 milhões de vítimas. E, mesmo assim, está no começo. Numa segunda fase, diz o historiador, será necessário um aprofundamento, que pode passar pela pesquisa nos arquivos belgas e nos centros de recrutamento espanhóis, entre outras fontes. “A nossa estimativa é provisória”, alerta. Mas é “o início de qualquer coisa que já não se pode ignorar”.

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    A economia alemã durante a II Guerra Mundial assentou no trabalho escravo. E a neutralidade portuguesa não impediu que muitos cidadãos nacionais fossem apanhados na engrenagem. Um grupo de historiadores passou quatro anos a pesquisar sobre esta realidade e a 17 e 18 deste mês vão apresentar as primeiras conclusões num colóquio internacional e numa exposição que terão lugar no CCB, em Lisboa