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Marcelo abraça missão das primeiras-damas

Presidente da República beija a mão da ex-primeira-dama, Maria Cavaco Silva, no Bazar Diplomático de 2016 Foto Campiso Rocha

Campiso Rocha

Nos últimos 34 anos, os cônjuges dos diplomatas arregaçam as mangas, empurram caixotes, e põem de pé o Bazar Diplomático, que se realiza esta sexta-feira e sábado. A receita obtida na venda de produtos e comidas dos quatro cantos do mundo vai ser entregue a instituições que apoiam pessoas com deficiência física grave. Tudo com o alto patrocínio do Presidente Marcelo, que assume uma missão tradicionalmente desempenhada pelas primeiras-damas

Mais do que um estilo pessoal no exercício da função presidencial, o patrocínio de Marcelo Rebelo de Sousa ao Bazar Diplomático − quermesse tradicionalmente apoiada pelas primeiras-damas − é um ato político. A frase anterior pode soar estranha mas, como se lê no site da Presidência da República, uma das funções do Presidente é a “nomeação dos embaixadores e enviados extraordinários, sob proposta do Governo, e a acreditação dos representantes diplomáticos estrangeiros”, o que implica a manutenção de uma relação cooperativa do PR com os membros do corpo diplomático e suas famílias.

E é por esta razão − e porque o regime assim o permite − que quando soar o meio-dia desta sexta-feira o Presidente visita o Bazar Diplomático.

Marcelo na cerimónia de entrega dos 92 mil euros obtidos no Bazar Diplomático de 2016. Uma das entidades beneficiárias foi a Sociedade Portuguesa de Esclerose Múltipla

Marcelo na cerimónia de entrega dos 92 mil euros obtidos no Bazar Diplomático de 2016. Uma das entidades beneficiárias foi a Sociedade Portuguesa de Esclerose Múltipla

Foto Presidência da República

Num regime semipresidencial como há em Portugal “o PR não é uma mera figura decorativa como acontece nos regimes republicanos parlamentares; nestes, o Presidente tem meras funções protocolares”, diz o politólogo António Costa Pinto: “Nota-se mais a ausência do cônjuge do Presidente quando a função deste é meramente protocolar. Mas esse não é o caso de Portugal, com um regime semipresidencial”, onde as funções do cônjuge do PR ou das primeiras-damas que até aqui tivemos passam pela “plasticidade” que estas e o PR lhes queiram atribuir.

Já que as causas sociais têm sido uma constante no exercício do PR, acresce dizer que as receitas obtidas na edição deste ano do Bazar vão ser entregues a instituições que apoiem pessoas com dependência física grave.

Como começou o Bazar em Portugal

A grande impulsionadora do Bazar foi a ex-primeira-dama Manuela Ramalho Eanes, que tinha apenas 37 anos quando o marido foi eleito Presidente, em 1976; era muito mais jovem do que as suas antecessoras, licenciada, com uma carreira profissional e um filho pequeno.... o que foi uma verdadeira novidade em Portugal e não só.

A 1ª edição do Bazar Diplomático, em 1983, patrocinada por Manuela Eanes, realizou-se nas antigas instalações da FIL. No ano seguinte passou para o Castelo de S. Jorge

A 1ª edição do Bazar Diplomático, em 1983, patrocinada por Manuela Eanes, realizou-se nas antigas instalações da FIL. No ano seguinte passou para o Castelo de S. Jorge

Foto ARQUIVO A CAPITAL

Rapidamente percebeu que queria dar o seu contributo para a divulgação do país junto das embaixadas acreditadas em Portugal e começou a organizar eventos com as mulheres dos embaixadores estrangeiros, que passaram por pequenas excursões a várias cidades, e palestras no Palácio de Belém sobre a cultura portuguesa.

“Fizemos uma sessão em Belém com o filme ‘Ana’, do realizador António Reis, que está muito esquecido”, contou ao Expresso. Com este convívio, constatou que muitas mulheres de diplomatas portugueses passavam por algumas dificuldades: “Durante anos tinham sido funcionárias sem vencimento do Estado português, acompanhando os maridos, e trabalhando ao lado deles na divulgação do país”, lembra: “Quando os maridos morriam” – e houve vários casos de mortes relativamente precoces − “tanto elas como os filhos ficavam numa situação vulnerável de rendimentos e proteção social”.

Foi por constatar estas fragilidades na vida destas mulheres que Manuela Eanes teve uma longa conversa com Isabel Rilvas, que acabara de regressar de Nova Iorque, onde estivera a acompanhar o seu então marido, o diplomata Leonardo Mathias.

A entrega dos donativos do Bazar de 1987 foi feita em abril do ano seguinte. A preços atuais rendeu mais de 237 mil euros que foram doados ao Instituto Reumatologia e obra social da Sé do Porto

A entrega dos donativos do Bazar de 1987 foi feita em abril do ano seguinte. A preços atuais rendeu mais de 237 mil euros que foram doados ao Instituto Reumatologia e obra social da Sé do Porto

aRQUIVO A CAPITAl

Isabel , que pilotou aviões e foi pioneira do paraquedismo feminino em Portugal, regressara com ideias novas: “Vi que as mulheres dos diplomatas tinham uma associação que as representava e cá não havia nada. Quando estávamos fora os nossos filhos não tinham seguro de saúde e nós também não. Havia uma série de questões deste tipo” que não estavam garantidas nem acauteladas. “Com o apoio da Drª Manuela Eanes, comecei a tentar formar uma associação. Fui falar com o ministro dos Negócios Estrangeiros, que era o André Gonçalves Pereira, e com o responsável pelo Protocolo de Estado. O pior é que eram os dois solteiros.... não estavam muito sensibilizados para estas questões. Mas ouviram. Cederam-nos uma sala no Palácio das Necessidades para fazer uma primeira reunião, onde apareceram 60 pessoas. Nunca esperámos tanta adesão. Fizemos a Associação, que na altura se chamou Associação das Mulheres dos Diplomatas, e a escritura de constituição foi assinada a 30 de junho de 1982”, conta Isabel Rilvas, que alguns anos depois se divorciou.

Em março deste ano, o PR condecorou Isabel Rilvas, na cerimónia de entrega dos 92 mil euros angariados no Bazar de 2016 Foto Presidência da República

Em março deste ano, o PR condecorou Isabel Rilvas, na cerimónia de entrega dos 92 mil euros angariados no Bazar de 2016 Foto Presidência da República

Presidência da República

A primeira edição do Bazar foi em 1983 e, desde aí, só não se realizou em 2005, último ano do segundo mandato de Jorge Sampaio. Em 2007 não houve Bazar, mas as entidades promotoras organizaram um almoço para angariar fundos para as crianças angolanas amputadas.

Entre 1983 e 2015, a duas associações promotoras do Bazar (Associação das Famílias dos Diplomatas − AFDP, e anteriormente a Associação das Mulheres dos Diplomatas Portugueses) entregaram “cerca de 4,5 milhões de euros a diversas instituições que desenvolvem projetos sociais”, disse ao Expresso em 2016 a presidente da AFDP, Maria Luís Jorge Mendes: “Temos tudo documentado e verificamos o destino das verbas que entregamos, para saber se foram aplicadas nos projetos que selecionámos a partir das candidaturas recebidas”. A edição do Bazar Diplomático de 2016 rendeu 92 mil euros.

Entre 1984 e 1987, realizaram-se quatro edições do Bazar Diplomático no local Castelo de S. Jorge, o local mais simbólico de Lisboa

Entre 1984 e 1987, realizaram-se quatro edições do Bazar Diplomático no local Castelo de S. Jorge, o local mais simbólico de Lisboa

ARQUIVO A CAPITAL/IP

As mulheres dos ex-Presidentes também participaram quase sempre no “júri de seleção das instituições e projetos candidatos” como disse ao Expresso Maria José Ritta, mulher do ex-PR Jorge Sampaio.

Maria José Ritta envolveu-se pessoalmente no Bazar quando Jorge Sampaio era Presidente. Ao Expresso, a ex-primeira-dama diz: “Tinha um projeto mais vasto para divulgar os produtos portugueses. Entendi que fazia sentido ter um stand próprio no Bazar, onde estavam produtos de cunho tradicional e popular, [alguns] produzidos por artesãos; era uma forma de estimular estas atividades e divulgar bordados, doces, artesanato etc. Queria promover aquilo que nos distingue [enquanto país] no meio de tantos produtos” trazidos por embaixatrizes estrangeiras. “E foi por isso que fiz questão de estar nesse stand, a vender” e a divulgar a produção nacional.

A ex-primeira-dama Maria José Ritta quis divulgar os produtos tradicionais do nosso país e montou uma banca no Bazar AFDP

A ex-primeira-dama Maria José Ritta quis divulgar os produtos tradicionais do nosso país e montou uma banca no Bazar AFDP

Se para muitos a palavra bazar cheira a viagem, para outros é apenas um dos 18.073 arabismos presentes na língua portuguesa, que utilizamos para designar um mercado público, onde se vende de tudo e que pode ter fins beneficentes.

Presidente da República no Bazar Diplomático de 2016; à direita, a embaixadora de Marrocos, Karima Benyaich

Presidente da República no Bazar Diplomático de 2016; à direita, a embaixadora de Marrocos, Karima Benyaich

Campiso Rocha

Esta sexta-feira e sábado, as receitas obtidas nas vendas feitas no Bazar Diplomático, revertem a favor de instituições que apoiam pessoas com dependência física grave. O certame realiza-se no Centro de Congressos de Lisboa, a partir das 11h. A visita do PR acontece pouco depois da abertura, e é provável que Marcelo recorde a ideia que transmitiu há um ano: “Esta ideia começou há muitos anos com a Dr.ª Manuela Eanes e como não há primeira-dama, fui eu a fazê-lo”. As questões de género estão a mudar.

  • Até fritam croquetes para angariar milhões

    As mulheres dos diplomatas não gostam de ser descritas como as “senhoras que andam de croquete na mão de receção em receção”. Nesta altura do ano, arregaçam as mangas, empurram caixotes, e põem de pé o Bazar Diplomático, uma venda de Natal que nos últimos 32 anos entregou muitos milhões de euros a instituições sociais. Esta sexta e sábado, no Centro de Congressos de Lisboa, há produtos e comidas dos quatro cantos do mundo, com o alto patrocínio do Presidente Marcelo