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A luta de quem enfrenta o cancro mais letal. “A minha estatística é viver”

À esquerda, Júlia Vidal, professora primária.

D.R.

Esta quinta-feira assinala-se o Dia Mundial do Cancro Pancreático, a doença oncológica com menor taxa de sobrevivência. O diagnóstico é quase sempre tardio. A investigação é insuficiente. Conheça o panorama negro e a lição de vida de uma professora primária de 59 anos que aprendeu a amar a vida

Foi há pouco mais de um ano, em junho de 2016, que tudo mudou para Júlia Vidal. Um longo outono instalava-se mais cedo na vida desta professora primária, quando lhe foi diagnosticado cancro pancreático, o 12.º mais comum em todo o mundo (sétimo a nível europeu) e com uma taxa de mortalidade muito próxima dos 100%. O pior inimigo é o diagnóstico tardio, quando o tumor já se encontra metastizado. Estima-se que, todos os anos, mundialmente 300 mil pessoas possam ser afetadas. Se olharmos para o panorama nacional, os números rondam as 1300 incidências anuais. Esta quinta-feira assinala-se o Dia Mundial do Cancro Pancreático e o Expresso conta-lhe a história de luta de Júlia Vidal, sempre com a lição bem estudada de amar a vida. Nos olhos tão azuis como o céu cabe um universo de esperança. “Não quero saber dos números, Não me interessam nada. A minha estatística é viver”, explica esta professora de 59 anos.

“É uma doença terrível. Quando conto às pessoas a doença que tenho, as pessoas ficam imediatamente assustadas. É um cancro que mata muito”, frisa Júlia Vidal, que ao longo de 38 anos ensinou várias crianças a ler e escrever. Mas, por vezes, as linhas da vida são tortas e a caligrafia que o futuro reserva nem sempre é a mais redondinha.

Júlia nunca teve nenhum problema de saúde, além do cansaço natural da profissão. Plantar a sua horta biológica é uma paixão antiga e os cuidados com a alimentação sempre foram uma constante. Dois anos antes de ter sido diagnosticada com cancro do pâncreas tinha feito análises. Estava tudo bem, mas tudo acabaria por mudar naquele fatídico mês de junho de 2016.

“Comecei a sentir dificuldades na digestão e, apesar de fazer dieta, não melhorava. A urina era escura, da cor do vinho do Porto”, recorda Júlia Vidal, residente em Aveiro. “Isto prolongou-se durante uma semana. Aí assustei-me. Pensei que tivesse algum problema no fígado, até que marquei uma consulta com o meu médico de família. Assim que me viu, achou-me demasiado amarela”, acrescenta. No dia seguinte foi fazer exames, mostrou-os imediatamente ao médico de família e, sem esperas, foi logo encaminhada para o hospital. “A rapidez de todo o processo, desde o dia em que fui ao meu médico de família até o IPO ter pegado no meu caso, foi determinante”, acredita a paciente.

A atuação tinha de ser célere e, em caráter de emergência, Júlia foi submetida a uma cirurgia de sete horas no IPO, do Porto. Teve de retirar a ‘cabeça’ do pâncreas, a vesícula e parte do estômago. “O sistema digestivo fica completamente alterado e o próprio metabolismo fica diferente”, explica esta portadora de doença oncológica, mais comum entre indivíduos do sexo masculino.

Os números indicam que num conjunto de 100 mil pessoas, 12 homens podem vir a ser afetados. Nas mulheres, o número fica-se pelos 8. O cancro pancreático pode surgir a partir dos 50 anos e fatores como o tabagismo, a obesidade e o consumo de álcool fazem aumentar a incidência desta doença. Pessoas com diabetes e pessoas com histórico familiar de problemas oncológicos estão também incluídas nos grupos de risco. Dores nas costas, emagrecimento permanente, cansaço, tom de pele amarelado e alterações dos hábitos intestinais são alguns dos sintomas iniciais e que devem servir de alerta para uma patologia em que o diagnóstico não é uma tarefa simples.

Vítor Neves, presidente da associação “Europacolon Portugal - Apoio ao Doente com Cancro Digestivo”.

Vítor Neves, presidente da associação “Europacolon Portugal - Apoio ao Doente com Cancro Digestivo”.

D.R.

“A localização torna o diagnóstico difícil. Apenas com uma Tomografia Axial Computarizada (TAC) ou uma ressonância magnética pode ser identificado, porque na ecografia não aparece”, explica Vítor Neves, presidente da associação “Europacolon Portugal - Apoio ao Doente com Cancro Digestivo”. “O pâncreas está ‘abraçado’ a outros órgãos complicados de intervir em termos cirúrgicos”, acrescenta o especialista, para quem o problema mais grave do cancro pancreático é a taxa de mortalidade. “É a mais alta de todas as doenças oncológicas, muito próxima dos 100%”, afirma o responsável, em declarações ao Expresso, à margem de um debate promovido no Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto, onde estiveram reunidos médicos especialistas, representantes de associações, investigadores e doentes oncológicos.

Lutar, lutar, lutar. “Se há 20 pessoas que vencem, eu tenho de estar nessas 20”

Júlia Vidal permaneceu no IPO durante cinco semanas. A cirurgia deixou-a bastante debilitada. “Perdi dez quilos naquela fase. Quando saí do IPO nem forças tinha para pegar no meu telemóvel”, conta a paciente. Em setembro de 2016, começou a recuperar algumas das forças, mas um mês depois iniciou a quimioterapia. Na última TAC que fiz não havia vestígios da doença e os marcadores estão mais próximos do normal”, assegura Júlia Vidal, para quem o apoio da família - o marido e os dois filhos - tem sido essencial nesta batalha, durante a qual “a força interior é muito importante”. Todos os dias vai à luta pela sobrevivência. “Eu amo a vida. Tenho de ter sempre projetos e alguma coisa para fazer. Isso não mudou”, assevera a antiga professora, de cabelos dourados, num tom sereno e sempre com um sorriso nos lábios. “O fundamental é acreditar sempre que é possível vencer e contrariar as estatísticas. Somos mais do que números. A parte mental é muito importante e tem de nos puxar. Se há 20 pessoas que vencem, eu tenho de estar nessas 20. Não quero saber quantas morreram. Temos de ser positivos. Não resta outra solução”, considera.

A única coisa que Júlia não consegue perceber é a escassa investigação relativamente a uma patologia tão letal, sem uma quimioterapia dirigida para este tipo de cancro. “É preciso que alguém olhe para isto, sem interessar os números”, frisa esta portadora de doença oncológica. Relativamente a esta matéria, Vítor Neves lamenta que o investimento nesta área esteja congelado há 40 anos e que “a investigação esteja entregue, quase por completo, à indústria farmacêutica e uma indústria que investe em investigação vai querer retorno, mais tarde ou mais cedo”. Para o presidente da Europacolon, “é importante motivar o Estado, as academias e os centros de investigação para se aplicarem na investigação de cancro pancreático”, acrescentando que apenas 2% das verbas aplicadas na investigação de doenças oncológicas se destinam ao cancro pancreático.

Durante o ano de 2018, a Europacolon irá desenvolver um programa de sensibilização para este tipo de cancro, contactando 1500 médicos de família, centros de saúde e os próprios utentes. “Queremos perceber qual é o tipo de sensibilização existente momento, que nós estimamos ser muito baixa. O objetivo passa por promover ações de formação, para um aumento de literacia para os profissionais de saúde”, adianta o dirigente ao Expresso.