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Afinal, onde estão os extraterrestres? Talvez nos oceanos interiores dos planetas gelados

Há uma nova hipótese para explicar a ausência de provas de civilizações extraterrestres: a maioria delas estará encerrada no interior de planetas ou luas com oceanos de água no estado líquido debaixo de uma espessa calote de gelo e rocha, que não permite comunicações de longa distância

Virgílio Azevedo

Virgílio Azevedo

Redator Principal

A dinâmica de Encelado, uma das luas geladas de Saturno, que pode ter organismos vivos no seu oceano interior: 1. Influxo de água fria do oceano salgado para o núcleo de rocha porosa. 2. Água aquecida sobe em plumas e interage com as rochas. 3. Saída da água no fundo do oceano. 4. Transporte de calor e material rochoso através do oceano. 5. Aquecimento localizado derrete a sua calote gelada. 6. Jactos de vapor de água e partículas entram em erupção a partir de fissuras no gelo

A dinâmica de Encelado, uma das luas geladas de Saturno, que pode ter organismos vivos no seu oceano interior: 1. Influxo de água fria do oceano salgado para o núcleo de rocha porosa. 2. Água aquecida sobe em plumas e interage com as rochas. 3. Saída da água no fundo do oceano. 4. Transporte de calor e material rochoso através do oceano. 5. Aquecimento localizado derrete a sua calote gelada. 6. Jactos de vapor de água e partículas entram em erupção a partir de fissuras no gelo

ESA/NASA/CNRS (França)

O Paradoxo de Fermi é a aparente contradição entre a elevada probabilidade de existirem civilizações extraterrestres, admitida por muitos cientistas, e a falta de evidências concretas sobre a sua existência, como comunicações vindas do espaço ou sondas espaciais. Tem o nome do famoso físico italiano Enrico Fermi (1901-1954), mas na verdade ele nunca falou desta contradição, que foi citada quase 30 anos depois da sua morte por um senador americano para pôr em causa o programa de pesquisa de inteligência extraterrestre (SETI) da NASA.

O cientista planetário americano Alan Stern, do Southwest Research Institute em Boulder, no estado do Colorado, avançou recentemente com uma nova hipótese que pode explicar este paradoxo, num encontro da Sociedade Americana de Astronomia: “a maior parte dos mundos com biologia e civilizações são mundos com oceanos interiores de água no estado líquido”, aquilo a que ele chama WOW (water ocean worlds).

Segundo a revista “Science”, Stern defendeu que a maioria dos extraterrestres vive provavelmente no interior destes planetas, em oceanos com dezenas ou mesmo centenas de quilómetros de profundidade, isolados do exterior por espessas calotes de gelo, ou de gelo misturado com rocha, que se formaram na sua superfície.

Ou seja, as calotes impedem que os extraterrestres comuniquem com a Terra e com outros planetas ou luas potencialmente habitáveis. Esta hipótese surge devido às descobertas ocorridas nos últimos anos de oceanos de água no estado líquido no Sistema Solar, debaixo das calotes geladas de várias luas de Júpiter, Saturno e Neptuno, de asteróides e até do planeta-anão Plutão.

Fontes hidrotermais que alimentam vida

São pequenos mundos em que a água gelada é a principal componente da sua crosta, onde existem montanhas e vales profundos à superfície. Mas no seu interior a água encontra-se no estado líquido e possíveis fontes hidrotermais no fundo dos oceanos poderão, tal como na Terra, fornecer nutrientes que permitam a existência de vida.

O calor não virá apenas das fontes hidrotermais. Nesta segunda-feira, a Agência Espacial Europeia (ESA), organização a que Portugal pertence, revelou que o calor suficiente para gerar a atividade hidrotermal há milhões de anos dentro de Encelado, uma das 62 luas de Saturno, que tem um oceano de água líquida no seu interior, “poderá ser gerado através da fricção de maré provocada pela força de gravidade de Saturno, se Encelado tiver um núcleo altamente poroso”.

Esta conclusão consta de um artigo científico de Alan Stern publicado no mesmo dia na revista “Nature Astronomy”, com base nas observações da sonda espacial internacional Cassini, que terminou a sua missão em setembro. O artigo revela que aquela lua de 500 km de diâmetro (o diâmetro da Terra é de 12.756 km) tem um oceano salgado debaixo de uma calote gelada com uma espessura média de 20 a 25 km. E jactos de vapor de água e grãos de gelo são expelidos para o espaço através de fissuras nessa calote. Na composição dos materiais expelidos a sonda Cassini identificou sais e poeira de sílica, “o que sugere que estes materiais se formaram através de água quente – pelo menos à temperatura de 90 graus – interagindo com o núcleo poroso de Encelado”.

Encelado tem um oceano debaixo de uma calote gelada com 20 a 25 km de espessura e jactos de vapor de água e partículas são expelidos para o espaço através de fissuras no gelo

Encelado tem um oceano debaixo de uma calote gelada com 20 a 25 km de espessura e jactos de vapor de água e partículas são expelidos para o espaço através de fissuras no gelo

ESA/NASA/CNRS

Alan Stern admitiu mesmo, na sua comunicação no encontro da Sociedade Americana de Astronomia, que a emergência de vida nestes mundos seja mais favorável e produtiva do que na Terra. “O interior dos WOW parece ser particularmente conducente ao desenvolvimento de vida, devido a duas vantagens: independência ambiental em relação à sua estrela hospedeira no que diz respeito ao balanço energético, temperatura, pressão e toxicidade; e estabilidade ambiental, porque está protegido de numerosos riscos que ameaçam a vida”, como a queda de asteróides ou meteoros, a radiação cósmica, os ciclos climáticos e as atmosferas letais.

Civilizações incapazes de comunicar a longa distância

Mas a grande questão é se os eventuais organismos vivos que povoam estes oceanos profundos evoluíram para seres inteligentes, capazes de criar civilizações e tecnologias de comunicação a longa distância. Como refere a revista “Science”, a hipótese de Alan Stern “não é baseada na evidência científica, mas pela primeira vez faz uma ligação entre a prevalência de oceanos debaixo do gelo em vários mundos e a falta de sinais extraterrestres”.

Para o psicólogo Douglas Vakoch, presidente da organização METI International (Messaging Extraterrestrial Intelligence), “não é preciso invocar o Paradoxo de Fermi”. Com efeito, “os sinais bioquímicos da vida são muito difícieis de detetar à distância”, sendo necessárias tecnologias e telescópios mais potentes do que os atuais para os identificar.

Alan Stern argumenta também que se os extraterrestres ainda não nos encontraram, “é porque chegaram à conclusão de que as comunicações a longa distância não valem a pena”, especialmente se pensarem que muitas civilizações estão, como eles, presas em oceanos debaixo de uma espessa camada de gelo.