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Os vizinhos de Siza vão para o CCB

Álvaro Siza junto do bairro construído em Haia

Jordi Burch

Durante vários meses de 2016, Álvaro Siza regressou a quatro bairros sociais construídos em diferentes épocas no Porto, Veneza, Haia e Berlim. Da visita resultou uma exposição apresentada na Bienal de Veneza, que agora chega a Lisboa

A exposição "Neighbourhood", que documenta o trabalho desenvolvido por Álvaro Siza ao longo de décadas no âmbito da habitação social, estará patente a partir de amanhã, terça-feira, e até 11 de fevereiro, na Garagem Sul do Centro Cultural de Belém, em Lisboa.

Trata-se de uma viagem única a um universo muito próprio criado por Álvaro Siza. Ao ponto de a representação oficial portuguesa na XV Bienal de arquitetura de Veneza ter sido centrada neste percurso, materializado numa mostra comissariada por Nuno Grande e Roberto Cremascoli, que agora chega ao CCB, sobre os trabalhos desenvolvidos no Campo di Marte, na ilha Giudecca, Veneza; Schlesisches Tör, em Berlim, na Alemanha; Schilderswijk West, em Haia, na Holanda; e Bairro da Bouça, no Porto.

Acompanho pelo Expresso e pela SIC, o regresso do arquiteto a projetos de habitação social construídos em diferentes contextos permitiu, antes de mais, um reencontro com os vizinhos, os homens e mulheres que hoje habitam aqueles espaços habitacionais de grande nobreza e com uma notável resistência à passagem do tempo.

A mostra patente no CCB, não apenas documenta o regresso de Siza aos bairros, como revela aspetos cruciais dessa viagem, plasmados no confronto com novos, ou outros não tão novos, fenómenos surgidos naqueles complexos habitacionais, como os problemas decorrentes da imigração, da gentrificação, do turismo ou da criação de uma espécie de guetos.

Nos dias 1, 2 e 3 de dezembro, a garagem Sul e a Talkie Walkie organizam uma “Viagem á Cidade de Álvaro Siza”. Durante o período da exposição serão organizadas várias conferências. A primeira está programada para 25 de novembro e será dinamizada por Nuno Grande. O tema é “arquitetura”, desenvolvido por um dos responsáveis por aquela enorme aventura de levar durante vários meses Siza Vieira a confrontar-se com o construído há décadas e o modo como agora está habitado.

No início era a Bouça

O périplo começou em janeiro do ano passado na Bouça, no Porto, um bairro emblemático, até pelo modo como os moradores se envolveram na sua construção após o 25 de abril no âmbito do projeto SAAL.

Para lá dos memoráveis dias vividos junto dos moradores dos edifícios de Berlim ou Haia, um dos momentos altos da viagem foi a visita a Campo di Marte, na ilha Giudecca. Ali, num projeto que reuniu Siza com Rafael Moneo, Aldo Rossi e o já falecido arquiteto italiano Carlo Aymonino, foi possível desbloquear uma obra que estava há anos por terminar. Durante a Bienal de Veneza surgiram as notícias de que o concurso para a construção do último edifício fora lançado e já havia sete propostas. Após uma paragem de dez anos surgia, por fim, a hipótese de terminar um projeto iniciado há 32 anos.

Deste modo, Siza poderá concluir a praça/jardim e estava previsto que mais tarde seria solicitado a Rafael Moneo que feche a praça com um edifício, tal como estava previsto no concurso internacional lançado em 1983 pelo ATER-Instituto de Habitação Social.

Siza venceu o concurso do plano global dois anos depois. Em 1986 a entidade promotora decide dividir o projeto entre os primeiros quatro classificados: Siza, Aldo Rossi, Rafael Moneo e Carlo Aymunino, com o português a ficar como coordenador geral da obra. Em 2004 foram entregues as partes trabalhadas por Rossi e Aymunino, tal como, mais tarde, uma primeira fase da obra de Siza. Entretanto o empreiteiro faliu e ficou tudo suspenso.

Pode dizer-se que o retomar da obra acaba por ser uma consequência direta da ação desenvolvida pelos curadores da exposição, Nuno Grande e Roberto Cremascoli. Em final de mandato, a direção do ATER decidiu deixar o caminho aberto para a conclusão da obra.

É um detalhe nesta imensa jornada retratada com fotos intensas e um vasto conjunto de materiais suscetíveis de proporcionarem uma visão mais consistente e mais alargada do que tem sido o labor desenvolvido por Álvaro Siza numa área tão crucial como a habitação social.

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    Siza não se acomoda à ideia de parar de cultivar a paixão do desenho, a necessidade da arquitetura. Construiu importantes núcleos de habitação social na Europa e, tal como anunciará João Soares na próxima segunda-feira no Porto, esse será o tema do pavilhão de Portugal na Bienal de Veneza deste ano