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O sabor da estação

São o fruto da estação fria 
mas já estão por toda a parte. 
O cheiro a castanhas assadas 
já se sente nas principais praças 
do país, mesmo que o tempo 
ainda esteja para outros apetites

nuno fox

Cheiram a nostalgia e a desejo, maior ainda se for o primeiro cartucho do ano, e até já tiveram direito a fados. As castanhas, assadas nos velhos assadores a carvão, regressam todos os anos às cidades e vilas portuguesas, com o sabor de sempre (apesar de nem todos os anos serem de boa castanha) e sempre pela mesma altura. Chegam com o outono e prolongam-se inverno fora, com os vendedores a marcarem a estação fria ano após ano — contrariando o sol que ainda aquece e a chuva que teima em não molhar.

Em ‘O homem das castanhas’, Carlos do Carmo deu voz àqueles que têm as mãos pretas, enegrecidas pelo carvão, e já na altura a vida era difícil. “Na Praça da Figueira,/ Ou no Jardim da Estrela,/ Num fogareiro aceso é que ele arde./ Ao canto do outono, à esquina do inverno,/ O homem das castanhas é eterno”, entoou o fadista, mas hoje os tempos são outros e a verdade é que nem tudo é eterno.

Nos últimos anos, até os cartuchos mudaram — o papel de jornal ou de lista telefónica teve de ser trocado pela folha branca ou por um saco de papel —, mas não são essas as mudanças que preocupam as vendedoras. “Na escola eu até era Luiza com z, mas depois obrigaram-me a mudar”, conta Luísa ao Expresso, e di-lo entre lamentos que mistura com as saudades de outros tempos, em que o tempo se queria e vinha na altura certa. “Ainda está muito calor e depois claro que não apetece”, desculpa a vendedora da lisboeta Praça da Figueira, na Baixa.

“Há gente a comer gelados e no verão até é o que eu vendo, mas já não é altura para isso.” Não é ela que está mal, o outono é que teima em não chegar e a paciência já começa a esgotar-se. E Luísa, que se apresenta assim mesmo, sem apelidos para não atrapalhar a conversa (que se quer rápida e de poucas palavras, não vá aparecer um turista), até tem muita. “O segredo para uma boa castanha assada é a paciência” — diz-se que a castanha assada com o seu tempo tem outro sabor —, mas o produto também tem de ser bom. O deste ano, assegura, é do melhor. Palavra de vendedora, que só tem pena que a castanha este ano tenha vindo mais pequena. “O estrangeiro nem tanto, mas o português compra muito com os olhos.” A dúzia continua a levar 12 castanhas, mas alimenta menos. “Não enche o olho”, remata.

Do lado da produção, Filipa Mateus concorda. “Este ano há menos castanha e os produtores têm feito algumas queixas por causa da seca”, conta a representante da sociedade agrocomercial Soutos da Vila ao Expresso, numa iniciativa da Feira da Castanha, em Lisboa. “Depende dos ouriços, mas há muitos que trazem duas castanhas boas e bem desenvolvidas e uma mais pequena. A essas, que não cresceram, chamamos-lhes as fenecas.” O problema é que este ano há demasiadas fenecas — nome dado aos frutos em forma de vírgula, de aspeto “mais mirrado” e sem condições para serem comercializados e consumidos —, com as dificuldades a afetarem mais umas zonas do que outras.

O segredo do sucesso para fazer boas castanhas está no carvão, deve ser de origem mineral

O segredo do sucesso para fazer boas castanhas está no carvão, deve ser de origem mineral

d.r.

“Do que sabemos dos produtores, há castanheiros que deram boa castanha mas outros viram a produção descer bastante. Depende das condições de cada local em específico, porque se o castanheiro conseguir absorver água de algum poço no terreno acaba por produzir bem na mesma.” Filipa Mateus relativiza o problema, mas se quem trabalha com a castanha sabe que a sorte começa a fazer das suas na altura de abrir os ouriços, quem as come refere que o jogo de sorte e azar só termina depois da última castanha estar descascada. “É preciso ter cuidado”, comenta um consumidor na Praça Luís de Camões, no Chiado, enquanto põe no lixo a castanha que lhe restava no cartucho.

O que importa é que haja muita e boa castanha, que não faltam adeptos do fruto espalhados por toda a parte. Se Luísa diz que os estrangeiros comem e gostam — “às vezes, mesmo sem saberem o que estão a comer” —, por cá há quem se dedique a garantir que o pregão não morre e que o alimento que matou a fome a milhões de pessoas (antes de a batata entrar na cozinha portuguesa) continua com adeptos.

É o caso de João Aguiar, da Confraria da Castanha. Para este confrade, o mais importante é “defender este produto, assim como o castanheiro”, e não haverá melhor forma de o fazer do que em confraternizações dedicadas às castanhas. Integrada na Festa da Castanha — que aconteceu a semana passada em Sernancelhe, a vila do distrito de Viseu conhecida pela produção do fruto —, deu-se também a “entronização de novos confrades”, para que a tradição não se perca.

“Quem quer quentes e boas, quentinhas?/ A estalarem cinzentas, na brasa./ Quem quer quentes e boas, quentinhas?/ Quem compra leva mais calor p’ra casa.”, canta também Carlos do Carmo, mas a verdade é que não é fácil guardar o fruto no saco por muito tempo. O segredo do sucesso, explica Elisabete Gonçalves, passa também pelo carvão utilizado (de origem mineral em vez de vegetal), mas este também não está a ser um ano bom para a vendedora do Jardim da Estrela. Por enquanto, é como se apenas tocasse nos espinhos, porque as vendas estão muito difíceis. “Normalmente é nesta altura, de outubro e novembro, que amealhamos para o resto do ano, mas já vamos a metade e nada”, lamenta.

Até agora vale-lhe a alegria dos gelados, que também vende no pequeno quiosque em forma de elétrico (montado em frente à Basílica, junto à entrada do jardim), mas Elisabete não quer prolongar as memórias de verão. “Quem está mal é o São Pedro, não sou eu. Por esta altura já devia estar a fazer assador atrás de assador e hoje ainda só fiz um, que ainda não vendi.” A falar com o Expresso à sombra da carrinha — “Não vê como é que eu estou?”, questiona, apontando para a roupa que veste no final de outubro como se fosse julho —, conta que às vezes os clientes não percebem que não é ela quem está errada, é o tempo. “Já por cá?”, dramatiza, imitando a clientela.

Enquanto o frio não chega, Elisabete não para e já tem uma nova ideia para o local. Vai transformar a banca de gelados em algo diferente. “No dia 1 de novembro, troco os gelados por produtos novos. Vou trazer as Tripas de Aveiro para Lisboa e até já tenho o slogan: ‘Quem provar vai tripar!’” O doce da região centro vai ser a atração do espaço, onde também pretende vender Queijadas de Sintra e uns paninis. Divertida e habituada às surpresas que as temperaturas lhe reservam, Elisabete não desiste do lugar que já é um pouco seu. O negócio das castanhas é para continuar e espera que melhore entretanto. Que venha o frio, que o fogareiro está pronto para os próximos meses.