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Terra Madrasta (ou o homem parado no meio da pradaria)

Memorial dedicado às 26 pessoas assassinadas em Sutherland Springs, no Texas, no dia 7 de novembro Foto Mark Ralston/AFP/Getty Images

Foto Mark Ralston/AFP/Getty Images

"Terra Madrasta" apresenta-nos os despojos de uma América que, antes do "subprime", já sabe o que é estar em ruínas

Tenho na minha cabeça a imagem de um homem, de calças de ganga e botas, parado numa grande pradaria. Ao fundo uma casa. Nas mãos uma espingarda. Não é um cowboy. É um colono. Um agricultor. Lembro-me desse homem sempre que há notícias de tiroteios em massa nos Estados Unidos. Podia tê-la ido buscar a Hollywood (e provavelmente também vou). Mas recordo-me invariavelmente de um livro: “Bad Land: An American Romance”.

Em meados dos anos 90 do século XX, Jonathan Raban fez uma incursão por uma das regiões mais remotas dos Estados Unidos. Daí resultaria esse livro, no qual o escritor inglês misturaria as impressões de uma viagem pelo coração das grandes pradarias do estado de Montana com a matéria que foi descobrindo em livros antigos, velhos diários, cadernos garatujados com os algarismos de quem fez contas à vida, conversas e deambulações por paisagens sem fim, pontuadas, por vezes, por casas abandonadas.

“Terra Madrasta”, nome que a obra recebeu em português (Quetzal, 1999), apresenta-nos os despojos de uma América que, antes da crise do ‘subprime’, já sabe o que é estar em ruínas; e leva-nos ao tempo em que alguém com rabiscos num mapa fazia nascer uma cidade, e outra, e outra... ao longo de uma linha férrea. A veia pela qual circulariam campesinos pobres; sangue europeu pronto a injetar numa terra virgem.

Desse livro, guardo sobretudo passagens avulsas sobre a solidão desses primeiros colonos, gente pouco interessada em mimetizar a vida em comunidade das miseráveis e esfomeadas aldeias europeias de onde tinham saído. A sede da terra. A obsessão pelas vedações. A insanidade mental provocada pelo isolamento de famílias inteiras... Os ingredientes que haveriam de justificar a inevitável crença no direito ao uso de armas para defesa própria.

Esta semana, numa tentativa de reagir ao recente tiroteio do Texas e de avaliar o problema com que os Estados Unidos se confrontaram mais uma vez, o jornal “The New York Times” destacou um gráfico no qual é evidente uma clara discrepância entre o número de armas que circula no país de Trump e aquele que existe noutros países do mundo, para concluir que há uma causa que está antes de todas as outras. Trata-se do número de armas em circulação no país. “Os americanos representam 4,4 por cento da população mundial, mas têm 42 por cento das armas no mundo”.

Entre 1966 e 2012, 31 por cento dos tiroteios em massa, no mundo inteiro, aconteceram nos Estados Unidos. O jornal conclui que não vale a pena culpar o racismo, a falta da coesão social, a saúde mental ou mesmo a desigualdade social, ainda que todas essas causas contem. Os tiroteios só deixarão de existir quando os americanos renunciarem a uma crença fundadora, a de que o direito à posse de armas é mais importante do que a proteção de vidas inocentes, apanhadas pela insanidade de um só homem. Mas dentro de muitos deles existe esse homem parado no meio da pradaria.