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Juramento dos médicos vai mudar

O compromisso solene feito na formatura está a ser atualizado. Novo “Hipócrates” é mais centrado no doente

A medicina vai deixar de ser uma arte para ser uma profissão, impondo aos médicos que sejam pragmáticos no que fazem. A mudança faz parte do novo Juramento de Hipócrates, o pai da medicina moderna e a cujos princípios os médicos de todo o mundo dedicam solenemente o seu respeito. A primeira formatura em Portugal com o novo compromisso é já no próximo dia 19, em Coimbra.

As alterações ao juramento, escrito em 1771, foram propostas pela Associação Médica Mundial, modificando a Declaração de Genebra — o documento que em 1948 ratificou a versão original de Hipócrates. A autonomia e a dignidade do doente e o bem-estar são dois dos principais conceitos que a partir de agora fazem parte da declaração solene. “São recomendações da própria Organização Mundial da Saúde e um pilar do exercício da medicina atual. Este novo compromisso é uma adaptação aos tempos modernos”, explica o bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães.

A modernização do texto reflete também a diversidade que caracteriza a humanidade deste tempo. Por exemplo, foi introduzida a orientação sexual — desde sempre omissa — como uma das várias “considerações” que os médicos não podem permitir que se interponham entre o seu dever assistencial e o doente a tratar.

“O juramento acrescenta também a idade, o sexo, a doença ou deficiência como aspetos não discriminatórios”, refere Miguel Guimarães. Na versão anterior constavam apenas a religião, a nacionalidade, a raça, a política ou condição social.

E os doentes não só não podem ser discriminados, como, ao invés, têm de ser tidos em grande consideração. “Esta declaração centra-se mais no doente. Aliás, os primeiros princípios do juramento são dedicados à autonomia e à dignidade dos doentes e isto é uma novidade”, explica o bastonário.

Segundo o texto, primeiro os médicos prometem “solenemente consagrar a vida ao serviço da humanidade” e, logo depois, “a saúde e o bem-estar do doente serão as primeiras preocupações”. O respeito pela autonomia e a dignidade de quem precisa de ser tratado surge em terceiro lugar, seguido pelo “máximo respeito pela vida humana”. Ao todo, são 13 princípios, mais dois do que os anteriormente consagrados.

Médicos têm de zelar 
pela sua saúde

Outra das novidades é que os médicos têm de prometer olhar igualmente pela sua saúde. “É dada ênfase à necessidade de cuidarem de si e de manterem as suas capacidades para prestarem cuidados com melhor qualidade, isto numa clara referência à pressão atual que é exercida sobre os médicos”, afirma Miguel Guimarães.

Estudos recentes revelam um número crescente de casos de esgotamento entre os profissionais de saúde, sobretudo entre os clínicos. No novo “Hipócrates”, o médico tem de prometer “cuidar da saúde, bem-estar e capacidades para prestar cuidados da maior qualidade”.

Sendo também esta a era da divulgação do conhecimento, o juramento dita que os profissionais estejam atualizados e partilhem o que sabem com os colegas. “Partilharei os meus conhecimentos médicos em benefício dos doentes e da melhoria dos cuidados de saúde”, lê-se. Mas há um limite à partilha: os segredos confiados são para respeitar, “mesmo após a morte do doente”.

O tempo passou, a medicina evoluiu mas há juramentos que se mantêm inalterados pela evolução dos costumes e até mesmo do conhecimento. Destaca-se o respeito pela vida humana. “Guardarei o máximo respeito pela vida humana” e “não usarei os meus conhecimentos médicos para violar direitos humanos e liberdades civis, mesmo sob ameaça” são duas das promessas solenes dos médicos.

O antigo juramento

Ao ser admitido como 
membro da profissão médica:
Juro solenemente 
consagrar a minha vida 
ao serviço da humanidade

Guardarei o respeito 
e o reconhecimento que são devidos aos meus mestres

Exercerei a minha arte 
com consciência e dignidadeConsiderarei a saúde 
do meu doente como meu primeiro cuidado

Respeitarei o segredo 
que me foi confiado

Manterei, por todos 
os meios ao meu alcance, 
a honra e as nobres 
tradições da profissão médica

Os meus colegas serão 
meus irmãos

Não permitirei 
que considerações 
de religião, nacionalidade, raça, política ou condição social, se interponham 
entre o meu dever 
e o meu doente

Guardarei respeito absoluto pela vida humana desde 
o início, mesmo sob ameaça.

Não farei uso dos meus conhecimentos médicos contra as leis 
da humanidade

Faço este juramento solenemente, livremente 
e pela minha honra

O novo juramento

Como membro 
da profissão médica:
Prometo solenemente consagrar a minha vida 
ao serviço da humanidade

A saúde e o bem-estar 
do meu doente serão 
as minhas primeiras preocupações

Respeitarei a autonomia 
e a dignidade do meu doente

Guardarei o máximo respeito pela vida humana

Não permitirei 
que considerações sobre idade, doença ou deficiência, crença religiosa, origem étnica, sexo, nacionalidade, filiação política, raça, orientação sexual, estatuto social ou qualquer outro fator se interponham 
entre o meu dever 
e o meu doente

Respeitarei os segredos 
que me forem confiados, mesmo após a morte 
do doente

Exercerei a minha profissão com consciência e dignidade e de acordo com as boas práticas médicas

Fomentarei a honra 
e as nobres tradições 
da profissão médica

Guardarei respeito 
e gratidão aos meus mestres, colegas e alunos 
pelo que lhes é devido

Partilharei os meus conhecimentos médicos 
em benefício dos doentes 
e da melhoria dos cuidados de saúde

Cuidarei da minha saúde, bem-estar e capacidades para prestar cuidados 
da maior qualidade

Não usarei os meus conhecimentos médicos para violar direitos humanos e liberdades civis, mesmo sob ameaça

Faço estas promessas solenemente, livremente 
e sob palavra de honra