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“Casamos com um cabaz de Natal: à frente está o caviar e o champanhe, mas atrás há latas de sardinha e atum”

Nuno Botelho

“Talvez para sempre”, o novo livro de José Gameiro, fala de todos nós. Do casal que decide fugir, deixando os respetivos cônjuges em casa; do que mantém duas vidas paralelas, sem razão aparente nem remorso; do que decide morrer em conjunto, ao fim de 50 anos de vida a dois. Este é um livro sobre a vida, com pessoas dentro

José Gameiro já não dá consultas à sexta-feira. Aos 68 anos, os pacientes só lhe ocupam dois dias por semana, entre consultas individuais e de casal. Mas estes continuam a dar-lhe pano para mangas. Recém-chegado de uma viagem de três semanas à Etiópia, aonde foi à aventura com a mulher, encontramo-lo no sofá de sua casa, onde seguia, através de uma aplicação no telemóvel, o trajeto do avião do filho, que chegava de Barcelona nesse dia. Iria buscá-lo dali a umas horas. Falou-se de relações, do casal, de novas famílias, de aviões e comboios - e, inevitavelmente, do amor.

Começou a fazer terapia familiar no Hospital de Santa Maria, em 1977. Os casais que lhe chegavam ao consultório traziam temas diferentes dos de hoje?
Nessa fase inicial, víamos sobretudo famílias de doentes nossos. Quando fundamos a Sociedade de Terapia Familiar, em 1979, começamos a ver famílias em privado. Os casais aparecem mais tarde. Os temas mudaram pouco. Um aspeto, contudo, mudou: os homens estão muito mais à defesa do que estavam. Eles têm menos saber sobre como estar em casal. Isto foi pacífico enquanto as mulheres “amocharam”. Isso agora acabou. Elas estão mais exigentes, e dizem: “desculpa lá, mas isto não é para sempre”. É talvez para sempre, como digo no livro. “Se tratares bem disto, talvez a gente se aguente. Se não tratares...” E de vez em quando, encostam-nos à parede. Quando isso acontece, eles não sabem o que fazer.

Tem-se tendência a achar que a infidelidade está na base da maioria das separações, mas isso nem sempre destrói um casal, pois não? É um mito. Ao contrário do que se pensa, ninguém se separa por uma infidelidade. Isso só acontece se a pessoa se apaixonar pela outra com quem tem um caso. De outro modo, quem põe o pé na argola passa um mau bocado, mas ao fim de umas semanas de guerra, raiva e mágoa, a relação do casal pode oscilar entre isso e grandes camas, com muito fogo de artifício, como já não havia há muitos anos.

Trai-se se se estiver bem na relação?
Trai-se. Também se trai. Há infidelidades que não têm nada a ver com o casal. Há pessoas que podem ter uma infidelidade às 15h, e chegarem a casa à noite contentes e felizes. Isto faz muita confusão, mas existe. Homens e mulheres. Hoje, a situação está muito mais equilibrada. Elas são é menos apanhadas do que eles.

Nuno Botelho

Quais são os casais mais difíceis de "tratar"? Os que o procuram por causa de uma crise extra-conjugal, ou os que trazem anos de impasse, de marasmo?
As crises resolvem-se. O problema são os casais que trazem 20 anos de agressões, de desqualificações, de crítica. A pior coisa que pode existir numa relação é a crítica. Dou sempre o mesmo exemplo: imagine que quero este livro neste lugar, e a minha mulher o tira do sítio. Tenho três hipóteses: ponho o livro no lugar que quero e não digo nada. Peço, de forma simpática, para ela o pôr no sítio. Ou digo: "Tu és uma besta. Já te disse 50 vezes que não quero o livro aqui. Não és capaz de perceber isto? És atrasada?" É atacar o outro por um motivo de merda, perdoe-me a expressão. Há casais que fazem isto sistematicamente. Ninguém aguenta.

Isso resolve-se?
Às vezes resolve-se. De forma muito diretiva, explico: “Se quer que a sua relação continue, este comportamento tem de acabar. Nos próximos 15 dias, está proibido de fazer isto”.

Outro fator novo que lhe deve aparecer são as novas famílias, com as temáticas dos "Meus, os Teus e os Nossos". Quais os seus principais desafios?
É a relação com os filhos do outro. Depende um pouco da idade dos miúdos. Há coisas relativamente constantes, como o facto de as raparigas serem mais complicadas para os padrastos e as madrastas. São sofisticadíssimas, na capacidade cirúrgica de atingir o outro. Os rapazes deixam correr mais as coisas. Às vezes, pode correr muito bem quando eles são pequeninos, mas depois na adolescência complicar-se. Ou também quando os novos casais se juntam de forma muito desajeitada - como, passados poucos meses da separação, metem lá outra pessoa em casa. Os casais têm muita pressa em juntar os trapinhos, mas digo-lhes sempre: “Não tenham pressa, que isto depois vai ser uma grande confusão”. Estes casais cometem um erro muito grande, que é pensarem a família atual como uma família clássica - que não é. É completamente diferente.

Como se preparam estes casais para não esperarem algo que já viveram emocionalmente antes?
Aconselho a que tenham calma, e não negligenciem o espaço de cada um com os respetivos filhos. Os miúdos não vão nisso de "agora somos uma nova família, temos de andar todos juntos". Querem manter uma relação privilegiada com os seus progenitores, tendo espaços só deles. Depois, é preciso ver se o outro aceita isso ou não, e qual a dinâmica do casal novo. Há pessoas que se sentem excluídas se não forem juntas para todo o lado. É ainda importante manter boas relações com a família de origem. É muito difícil ter uma relação conjugal estável se um dos membros do casal tem uma relação complicada com a família do outro. A lealdade à família de origem é sempre mais antiga que a lealdade conjugal. Nas novas famílias, o que suporta a relação é o casal. É mais complexo, há um número mais elevado de separações. Dito isto, às vezes corre bem.

Quando escreveu "Os Meus, os Teus e os Nossos", em 1998, já tinha essa vivência, ao ter casado segunda vez e ao conviver com os filhos da sua mulher?
Já era uma situação pessoal, sim. Tento não falar por experiência própria, mas fiquei 'expert' do problema.

Separou-se pela primeira vez quando a sua filha mais velha tinha 17 anos. O que é sempre difícil num divórcio?
A sensação de ter falhado um projeto. Ainda casamos - ou acasalamos - a achar que é "até que a morte nos separe".

As ex-mulheres ainda são mais mazinhas nas separações?
Usam mais os filhos como arma de arremesso nas separações violentas. Hoje, está muito "na moda" lançar acusações criminosas para bloquear os processos de separação, como acusações de assédio sexual.

Já teve pacientes nestas situações?
Já. Mas muitas vezes, não chegam a ser julgados, por quando se chega a acordo - financeiro, entenda-se (faz o gesto do dinheiro, esfregando os dedos) -, a acusação é retirada. Aconselho o mais possível os casais a não irem para tribunal.

Nunca se cansa de ouvir casais?
Canso, canso. Às vezes digo às secretárias: “agora não há casais durante umas semanas”. Não consigo ver mais de três por dia. O nível de atenção que tenho de ter, como estão a olhar um para o outro, a linguagem corporal...

O que pesa mais numa relação: a parte irracional do amor, ou a arte de cultivar a relação?
Eu não intervenho no amor. Só consigo intervir na arte de cultivar a relação. Não sabemos por que gostamos, mas quando nos queremos separar, arranjamos logo 50 razões.

Como veio parar à psiquiatria?
Pensei em várias coisas antes de me decidir. Pensei ser internista, gostava muito de medicina interna, mas no fim do curso optei pela psiquiatria - provavelmente por influência da minha irmã mais velha, que enveredou pela área. A minha mãe costumava dizer que era a única mulher em Portugal mãe de dois filhos psiquiatras.

E como chega à terapia de casal?
De forma casual. Eu, o Daniel Sampaio e o José Maria Neves Cardoso fomos a um congresso em Florença, e apaixonámo-nos pela temática.

De 1985 a 2008, trabalhou no hospital Miguel Bombarda. Conviveu com o António Lobo Antunes, também psiquiatra e escritor?
Sim, foi meu colega anos e anos. Fui chefe dele... Mas já o apanhei com um estatuto muito especial, em que escrevia o dia todo. Era um tipo um bocado fechado, mas com quem a relação era fácil.

Na sala de casa do Alentejo, tem cerca de 30 comboios, incluindo o primeiro, que o pai lhe deu aos 8 anos. Ainda hoje brinca com eles.

Na sala de casa do Alentejo, tem cerca de 30 comboios, incluindo o primeiro, que o pai lhe deu aos 8 anos. Ainda hoje brinca com eles.

Ana Baião

Como começa a escrever?
Através do Cáceres Monteiro, por volta de 1986, n' "O Jornal". Eram crónicas semanais, uma secção chamada "Foro Íntimo". Antes, já tinha escrito livros técnicos, como um a meias com o Daniel Sampaio sobre a toxicodependência nas famílias. Fiz o doutoramento, fui publicando vários livros. Só em 2008 comecei a escrever crónicas para o Expresso, por convite do João Garcia, de quem entretanto me tornei amigo.

Nunca lhe falta matéria? Há sempre tema no seu consultório?
Normalmente, agarro numa frase que oiço - pode não ser na clínica -, e a partir daí faço uma crónica. Às vezes, pode demorar 15 minutos, outras vezes 3 horas.

Coleciona comboios elétricos. O primeiro recebeu-o do seu pai, aos 8 anos. Ainda o tem. É um transporte para a infância?
Seguramente que é. O meu pai deu-me aquele comboio no ano em que se separou da minha mãe. Montou-o comigo no chão. Mais tarde, brinquei lá muito com o meu filho mais novo.

Ainda brinca aos comboios?
Sim. Os meus comboios estão numa sala, na minha casa do Alentejo. Tenho 30 ou 40, montados. Quando lá vou, brinco, enquanto a minha mulher dorme, de manhã. Ponho-os a andar, depois 'faz a agulha', depois entra outro... Adoro brincar.

Outro transporte presente na sua vida é o avião. Tem um, há muitos anos. O que há nas nuvens que não há em terra?
É difícil dizer em palavras. Há uma liberdade, um prazer físico. E é curioso, porque eu tinha muito medo de voar de avião quando era miúdo, aos 10, 11 anos. Isto passou numas férias em que ficámos em frente ao aeródromo de Portimão, há trinta e tal anos. Na altura disse para a minha primeira mulher: "quando chegar a Lisboa, vou tirar o brevet". Assim foi. Hoje em dia, vou tomar café de avião ao país inteiro - ao Algarve, ao Porto. Costumo dizer que vou "passear o cão". É o prazer de voar, é relaxante. Em família, já fomos a Paris, a Marrocos.

Viaja muito. Sempre viajou?
Viajo desde muito jovem. Para mim, é sempre motivo de empolgamento, mesmo que seja só para ir ao Alentejo ou ao Porto. Hoje em dia, faço várias viagens grandes com a minha mulher, a África e à Ásia. Este ano, fomos ao Vietname do Sul, ao Camboja e ao Laos, e vimos a grande migração no Quénia. No fim de janeiro, iremos à Nova Zelândia. Na Etiópia, fiz uma coisa muito violenta, subi a um vulcão ativo, durante 5 horas. Andei em cima de lava, petrificada.

Voltando ao amor - quanto mais ouve sobre ele, menos sabe?
Sei do meu. Aprendi sobretudo a tolerância. E desisti de tentar mudar o outro. Nós casamos com um cabaz de Natal: à frente está o caviar e o champanhe, mas atrás todos temos latas de sardinha e atum. Somos todos parecidos. E há coisas que é preciso aceitar. Às vezes o casamento é uma grande seca. Não se pode estar sempre empolgado, com foguetes a saltar. Se se conseguir isso de vez em quando, é bestial.

Andamos todos a correr atrás de um ideal de felicidade que não existe?
Claro. Mas a felicidade permanente não existe. Não é possível manter um empolgamento sistemático.

A principal relação que temos na vida é connosco?
Tem de ser. Se não, estamos lixados. Se achamos que a nossa felicidade depende de outra pessoa, é meio caminho andado para o disparate.