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Candidatos a professores têm das médias mais baixas

FOTO marcos borga

São cada vez menos os alunos que querem dar aulas. E estes estão longe de ter as notas mais altas. Portugal não é um caso único

No concurso nacional de acesso ao ensino superior deste ano, os alunos que entraram nos cursos de formação de professores foram dos que apresentaram as notas mais baixas. De acordo com os números da Direção-Geral do Ensino Superior, facultados ao Expresso, num total de 22 áreas de estudo, estas formações apresentaram a segunda média de acesso mais baixa na primeira fase do concurso — 131 valores numa escala de 0 a 200 — e que entra em linha de conta com a média do secundário e os exames nacionais exigidos como provas de ingresso. Apenas as licenciaturas em Serviço Social apresentaram uma média inferior, numa lista que é liderada pelos cursos de Matemática e Estatística.

A frequência das licenciaturas em Educação Básica é um dos requisitos obrigatórios para quem quer ser educador de infância, professor do 1º ciclo do ensino básico ou do 2º ciclo, a disciplinas como Matemática e Ciências ou História e Geografia. Quem quiser dar aulas no 3º ciclo e secundário tem de ter um curso na área disciplinar que quer vir a lecionar, seguido de um mestrado em ensino. E, a este nível, o cenário não é melhor, assegura Carlos Ceia, coordenador dos mestrados em ensino na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova de Lisboa. Não havendo médias calculadas no acesso aos mestrados, Carlos Ceia reconhece que os candidatos que têm aparecido “não são os melhores, nem em termos académicos nem de vocação”.

“A procura pelos cursos de formação de professores é muito flutuante. Neste momento, estamos num ponto muito baixo da procura. Este ano foi muito difícil conseguir abrir os mestrados para o ensino, e houve escolas que nem os abriram. Os jovens têm a perceção de que a carreira docente não é atrativa: não há emprego imediato, e os professores são bombardeados com notícias negativas; por exemplo, agora ficaram a saber que são a única carreira da Administração Pública que não vê o tempo de serviço recuperado para efeitos de progressão.” Além disso, acrescenta o professor da FCSH, a profissão é “cada vez mais desgastante, do ponto de vista físico e psicológico, com a autoridade a perder-se e as manifestações de indisciplina e desrespeito a acontecerem logo no 1º ciclo”. “Tudo isto contribui para baixar o interesse de potenciais futuros professores. E só se houver mais candidatos é que podemos escolher os melhores”, explica.

Profissão desvalorizada

Cristina Loureiro, diretora da Escola Superior de Educação do Politécnico de Lisboa, garante que, “apesar das baixas médias de acesso aos cursos de formação de professores, continua a haver uma procura elevada”. Mas concorda que existe um problema de desvalorização da profissão. “Basta ver as notícias. São todas de natureza negativa, tanto no que respeita aos professores (greves, precariedade, concursos e dificuldades de colocação) como aos resultados da educação (exames, rankings). Além deste clima social negativo, há ainda o facto de todas as pessoas acharem que conhecem bem a profissão, apenas porque se cruzaram com professores. E a imagem que têm é a que cada um traz da sua experiência pessoal.”

No último grande inquérito internacional a professores (o TALIS 2013, conduzido pela OCDE em 38 países e economias), esta perceção ficou bem evidente. Apenas 10% dos docentes portugueses inquiridos disseram que a sua profissão era valorizada pela sociedade. Só noutros cinco países foram encontrados valores mais baixos. A média da OCDE é bem mais alta: 31%.

Outro dado revelador é o facto de muito poucos jovens dizerem que esperam vir a ser professores. Na edição de 2006 do PISA (a maior avaliação internacional em Educação, também da OCDE) foi pedido aos alunos de 15 anos que realizaram a prova que respondessem à pergunta: “Que profissão esperas ter aos 30 anos?” Entre os mais de 40 países e economias onde foram recolhidos estes dados, 5% disseram querer vir a ser professores. Em Portugal, foram 1,5%. Só sete países ficaram abaixo.

A importância 
de atrair os melhores

Ao Expresso, Seong Won, um dos investigadores que realizou o estudo “Who Wants To Be a Teacher”, em que foram analisados estes dados do PISA, disse não haver diferenças entre os números apurados em 2006 e em 2015. Mas mais preocupante do que este valor são os resultados apresentados por estes estudantes nos testes que avaliam a literacia matemática e científica e a leitura. “Em Portugal, os alunos que acham que vão ser professores tendem a ter resultados na leitura e na matemática mais baixos do que os colegas que esperam vir a trabalhar noutras profissões que também exigem um diploma de ensino superior. Este padrão repete-se em 2015. E verifica-se noutros países da OCDE. No entanto, em Portugal a diferença é mais acentuada”, aponta o investigador da Universidade de Buffalo, nos Estados Unidos.

Na verdade, olhando para as médias de 2006 (as que foram analisadas de forma desagregada no estudo “Who Wants To Be a Teacher”), constata-se que é em Portugal que se verifica a maior diferença nos resultados entre os que querem ser professores e os que querem exercer outras profissões qualificadas. Nesse ano, os alunos portugueses que integram o primeiro grupo tiveram uma média de 437 pontos contra os 492 dos colegas que ambicionavam outras profissões. A média global do país foi de 466. Na leitura, a diferença entre o primeiro e o segundo grupo é ainda maior (ver quadro).

Já na Finlândia e no Luxemburgo acontece a situação inversa, com os jovens que esperam seguir a carreira docente a apresentar os melhores desempenhos nos testes PISA. “Para melhorar a qualidade do ensino em Portugal, será importante atrair estes estudantes para a profissão”, comenta Seong Won.

Como? “É urgente que haja um pacto social sobre a Educação, em que todos, mas todos, a encarem de forma positiva, divulgando e apoiando o que de melhor se faz em Portugal. E nós temos excelentes escolas e profissionais, excelentes experiências de colaboração da escola com a comunidade e vice-versa”, sublinha Cristina Loureiro.

Carlos Ceia acredita que dentro de cinco a dez anos, quando o sistema voltar a precisar de milhares de professores (quase metade dos que estão a dar aulas têm mais de 50 anos), a procura dos cursos de ensino vai voltar a aumentar e a triagem será maior. “A maior parte das faculdades aceita nos seus mestrados de ensino todos os alunos que tenham as habilitações exigidas pela lei, até por uma questão de sobrevivência. A FCSH deve ser a única que aplica aos candidatos uma prova em que se faz uma minissimulação de uma aula para ver se têm o perfil. Um mau professor consegue cumprir o que lhe é pedido em termos de testes e exames. Mas nada substitui a avaliação em sala de aula”, defende.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 4 de novembro de 2017