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Cientistas portugueses descobrem mecanismo de defesa do parasita da malária

PATRICK KOVARIK/GETTY

O mecanismo identificado por uma equipa deinvestigadores do Instituto de Medicina Molecular permite que o parasita da malária sobreviva dentro das células do fígado do corpo hospedeiro, onde ganha a capacidade de infetar glóbulos vermelhos e provocar os sintomas típicos da doença

Virgílio Azevedo

Virgílio Azevedo

Redator Principal

Uma equipa de investigadores do Instituto de Medicina Molecular (IMM) liderada por Maria Manuel Mota, identificou um mecanismo de defesa do parasita da malária que lhe permite sobreviver dentro das células do fígado do corpo hospedeiro, onde ganha a capacidade de infetar glóbulos vermelhos e provocar os sintomas típicos da doença.

O "Plasmodium", explica um comunicado do IMM, "replica-se dentro das células do fígado do seu hospedeiro envolvido por uma membrana que o protege contra ameaças presentes no ambiente intracelular, nomeadamente a autofagia, um processo em que as células degradam materiais que não precisam e que é acionado depois da infeção". Este processo está dependente da proteína LC3.

Apesar de a autofagia ser acionada pelas células do hospedeiro após infeção, e ao contrário do que se verifica com outros agentes patogénicos mais suscetíveis, o parasita da malária é resistente a este mecanismo de defesa celular. Mas a equipa de Maria Manuel Mota descobriu que a proteína UIS3 se liga à proteína LC3 e forma uma espécie de escudo protetor contra a autofagia. Sem esta proteção, o parasita fica vulnerável e é rapidamente eliminado pela célula do hospedeiro.

Desenvolver novos medicamentos

O estudo que levou a esta descoberta foi publicado esta segunda-feira na revista científica "Nature Microbiology" e demonstra que sem a proteína UIS3, o parasita não é capaz de sobreviver dentro de células do fígado de ratinhos de laboratório. No entanto, recupera a sua capacidade infeciosa se a autofagia do hospedeiro se encontrar comprometida.

A descoberta identifica, assim, a proteína UIS3 como um possível alvo para o desenvolvimento de novos medicamentos contra o parasita da malária, nomeadamente contra as formas hepáticas da doença, que em algumas espécies de "Plasmodium" podem persistir no hospedeiro num estado dormente e provocar a doença anos depois da primeira infeção.

"Identificar novos alvos terapêuticos é particularmente relevante numa altura em que se começa a registar, no Sudoeste Asiático, a ocorrência de parasitas resistentes aos fármacos disponíveis", sublinha o comunicado do iMM. Por isso, no futuro a equipa de Maria Manuel Mota "espera identificar compostos que atuem no parasita de forma a manipular a sua capacidade de inibir a autofagia e testar a sua eficácia como tratamento contra a malária".