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A febre dos corais

Imagem de “Chasing Coral” (2017), um documentário que regista a batalha que um grupo de pessoas decidiu iniciar para tornar visível o rápido desaparecimento dos recifes de coral

Imagine que a partir de hoje o seu corpo passava a viver com mais dois graus de temperatura. Sentir-se-ia permanentemente cansado, tremeria, teria sono, suaria, provavelmente perderia o apetite e teria menos defesas contra a dor. Ao fim de pouco tempo poderia desidratar-se e ter alucinações. A médio prazo, não sobreviveria.

É o que tem acontecido a uma grande parte dos recifes de coral espalhados pelo mundo, fora do alcance da nossa vista, e também, até há pouco tempo, do nosso entendimento. Com o oceano a absorver 93 por cento do calor que as emissões de dióxido de carbono geram, livrando-nos de uma temperatura média que atingiria os 50 graus centígrados, o habitat dos corais tornou-se o primeiro lugar a sofrer os efeitos das alterações climáticas.

Obrigados a viver com mais dois graus do que lhes é natural, os corais começaram a dar sinais de stress. Um pouco à semelhança do que faria o nosso corpo, essas entidades complexas e ricas arriscaram dar uma resposta inteligente ao aquecimento das águas. Nalguns casos, exacerbaram as suas cores, ao ponto de as tornarem fluorescentes, na tentativa de criar um filtro para as proteger do sol. Seguiu-se uma descoloração em massa. Primeira manifestação de uma morte anunciada.

Nos últimos 30 anos, desapareceram 80 a 90 por cento dos corais da Florida. Perdemos mais de 50 por cento dos corais do mundo. E com o que aconteceu em 2016 é provável que as crianças de hoje já não os possam ver quando chegaram à idade adulta.

“Chasing Coral/Perseguindo Corais” (2017), documentário da Netflix, do mesmo realizador de “Chasing Ice” (2012), Jeff Orlowski, regista a batalha que um grupo de pessoas decidiu iniciar para tornar visível não só este rápido desaparecimento dos recifes de coral em várias partes do mundo como as suas consequências. Nem que seja porque 25 por cento da vida marinha começa nos recifes ou porque é nos corais que se encontram alguns dos elementos usados nos medicamentos para combater o cancro. Os recifes servem ainda de travão aos ciclones e de “creche” aos peixes. No fundo são entidades complexas, a base de um ecossistema.

A descoloração dos corais é, por isso, apenas um sinal de um fim que se aproxima (rapidamente) sem que nós estejamos a fazer algo de válido e eficaz para o evitar. Se nada for feito nos próximos 25 anos, o oceano ficará demasiado quente para que os recifes de coral possam sobreviver. De brancos como os nossos ossos mortos, os corais passarão a ser cinzentos, como já aconteceu em muitos lugares, nomeadamente, em 2016, em 29 por cento da Grande Barreira de Coral, na Austrália (29 por cento só num ano! O equivalente a perder todas as florestas ao longo de 900 quilómetros).

É o princípio de uma enorme alteração do ecossistema marinho com efeitos devastadores no resto do planeta. Ora, se percebemos a urgência de estancar a nossa febre, o que nos falta para pôr um fim à febre dos corais? Vê-los morrer, como acontece em “Chasing Coral”? Ou acordar de vez da nossa febre?