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Todas as noites ouvem palmas. E não saem para as receber

Foram mais de uma centena, quase duas. Hoje, só Cristina e João são profissionais na arte de “soprar o texto” (dizê-lo muito baixo, quase como um sibilar, sem lhe imprimir qualquer emoção ou intenção, quando o ator se esquece da fala). Deles quer-se discrição, quase invisibilidade. Os pontos estão a desaparecer, a profissão está a morrer. Esta quinta-feira estreia “Sopro”, uma peça sobre aqueles que são a luz que se acende no esquecimento do ator

ATO I - Morte

(Em palco. A plateia está cheia, levantada a aplaudir. Os atores agradecem já com o pano fechado. Terminou mais uma noite de espetáculo. De lado, no limite entre o palco e os bastidores, está uma mulher vestida de negro com uma pequena lanterna na mão e outra no bolso)

Não há ninguém para aprender o ofício, para ficar no escuro à sombra do ator. Há lá quem queira todas as noites ouvir palmas e nunca aparecer para as receber, depois de ter estado com a atenção concentrada na peça, à espera de salvar alguém da falha. Esse é (em parte) o trabalho do ponto. Em Portugal, são apenas duas pessoas na profissão. Pela Europa são poucos mais, fala-se em não mais de cinco ou seis.

“A maior parte das pessoas nem sabe que existem pontos. E as poucas que conhecem, não estão para isto. Se não leem livros em casa vão estar a ler por obrigação durante sete ou oito horas ao dia?” Cristina Vidal já perdeu a conta ao número de peças que soprou – assim se chama a arte de dizer o texto tão baixo, quase como um sibilar, sem lhe imprimir qualquer emoção ou intenção. Quando começou, e já lá vão 39 anos, guardava os programas de cada espetáculo (eram tempos em que também o nome do ponto tinha destaque nos cartazes, lado a lado com o dos atores). Já se deixou disso: “não tenho espaço em casa para tanto papel.”

Durante o espetáculo não basta ter o guião à frente e ler o que vem a seguir quando há um silêncio, que tanto pode ser uma “branca” como uma pausa dramática. E o ponto sabe a diferença. Conhece bem o ator, já o viu dezenas de vezes a fazer a mesma cena.

Marcos Borga

“Nas estreias há muita ansiedade mas isso começa para aí uma semana antes. Durmo menos bem, sonho muitas vezes com o espetáculo, ando sempre um bocadinho irritadiça, com vontade de fugir e de não falar. Sonho que quero ajudar os atores e não consigo, porque o som não chega lá, ou o ator não nos ouve, ou não conseguimos ver onde está…É um pesadelo horrível.”
Todas as noites de espetáculo, lá está o ponto bem à beira da ribalta, escondido, preparado para remediar o esquecimento. Todos os dias lá está nos ensaios, a ajudar na aprendizagem do texto e a anotar toda e qualquer alteração. É também a memória de cada peça. No texto do ponto fica tudo gravado: movimentações, luz, som, cenários… Com este guião é possível recuperar um espetáculo de há 50 anos e reproduzi-lo ao ínfimo pormenor.

Já foram muitos. Havia o Afonso, o Rui, a Ofélia, o Orlando, a Inês, o Manuel, o Vasco, o Jorge, o Fernando e a Filomena. Eram tantos os que sopravam baixinho o texto quando o ator, no centro do palco, com o foco de luz e a atenção do público, se esquecia do que tinha a dizer. Hoje, são apenas dois: Cristina Vidal e João Coelho. Não há mais ninguém. Só eles.


Ato II – Vida

(Sala Garret, no Teatro Nacional D. Maria II. Tudo é negro: cadeiras, chão, paredes, panos, corrimões, escadas. Ao fundo, apenas uma portada da janela está entreaberta e deixa entrar a luz. Cristina está sentada numa cadeira, também negra, à espera)

Aos 61 anos, Cristina Vidal é um dos dois pontos profissionais em Portugal. Ambos trabalham no Teatro Nacional D. Maria II (TNDMII). “Continuo sem saber porque se gosta tanto disto. Sofre-se tanto, a pessoa tem tantos nervos e problemas. É algo muito interior, não consigo explicar.” Enquanto nos conta a sua história, está nervosa, não é hábito ser ela o centro das atenções.

marcos borga

Um tio levou-a ao teatro pela primeira vez, tinha cinco anos. Ficava em silêncio e de olhos arregalados para não perder nada. Via as peças infantis e também as que não eram para a sua idade. Para não ser apanhada pelos inspetores, escondia-se onde ninguém a conseguia ver ou ouvir. “Assisti muitas vezes na caixa ao lado do ponto, sem nunca imaginar que algum dia iria estar ali. Depois, mais tarde, lembro-me de pensar ‘já estive aqui’”, conta.“Ainda vejo as coisas com uma certa frescura no olhar. Talvez não seja a mesma magia de quando era miúda, até porque a idade não é mesma. Mas ainda é muita.”

Cristina foi ponto pela primeira vez em 1978. “As Calcinhas Amarelas”: assim se lia na primeira página do guião quando, na caixa do ponto, ficou sentada no último degrau do escadote, dentro daquele buraco na frente do palco, coberta por uma cúpula em madeira. Com a cabeça ao nível do chão, tinha “o melhor lugar da sala”. “Correu bem. Tive que intervir poucas vezes, os atores eram muito seguros.”

marcos borga

É raro ir ao teatro fora do trabalho. A paciência de Cristina não é muita e já chega aquilo que vê de lado (sim, porque agora é nas laterais do palco que trabalha). “Enervo-me. Se há uma pausa ou uma coisa qualquer, acho que é uma falha do ator. Se ouço um barulho, ponho-me a pensar no que terá caído lá para trás.”

Nunca quis ser atriz. A exposição assusta-a. Vive nas sombras, escondida nos bastidores. Todas as noites ouve as palmas sem nunca sair para as receber. “A discrição do ponto deve ser proporcional à indiscrição do ator”, ouve-se pelos corredores do teatro.


ATO III – História

(Casa do Artista. Sala ampla com muita luz. Há sofás, cadeiras e mesas com aspeto antiquado. Nas paredes estão pendurados retratos de grandes nomes do teatro português)

Na madrugada de 2 de dezembro de 1964, numa quarta-feira, um brutal incêndio deixou só de pé as paredes exteriores e a entrada do D. Maria II. Joaquim Samora tinha estado lá poucas horas antes. Acabara de pontar o “Macbeth”, de William Shakespeare. Hoje, aos 80 anos, lembra-se bem. Lembra-se disso e de tudo o resto: sabe o nome dos atores, encenadores e com quem trabalhou, conta histórias sem hesitar e recorda as peças. No olhar há saudade daqueles tempos “difíceis mas felizes”.

A primeira página do guião de “Macbeth” que pertencia a Joaquim Samora

A primeira página do guião de “Macbeth” que pertencia a Joaquim Samora

Com a vida de Joaquim quase se conta a história recente do teatro lisboeta. Esteve na inauguração do Maria Matos, passou pelo São Luís, Avenida, Capitólio, Monumental e ABC. Fez clássicos, tragédias, comédias e revistas. Aprendeu a ser ponto como quem aprende a dançar. Não havia escola ou formação. “Via e, sem saber muito bem como, fui aprendendo.” Nesses tempos, o ponto precisava de ter um número mínimo de horas ou peças para conseguir a carteira profissional. Joaquim já não consegue fazer aquele tom de voz muito baixo mas, ao mesmo tempo, muito forte e claro. Está reformado e vive na Casa do Artista, quando lhe pedem ainda tenta sussurrar as palavras.

“Os textos clássicos têm de ser mais respeitados, não se pode meter buchas [improviso]. O ator tem uma fala no primeiro ato e no segundo tem outra muito parecida. Essa semelhança pode levá-lo a saltar não sei quantas folhas do texto. Se isso acontece, o ponto tem de o puxar atrás. E depois há as brancas, que são terríveis. Eu costumava dizer que o ponto é uma luz que se acende no esquecimento do ator”, explica Joaquim.

Joaquim Samora está há pouco mais de um ano a morar na Casa do Artista

Joaquim Samora está há pouco mais de um ano a morar na Casa do Artista

marcos borga

Não é certo quando surgiu a profissão que hoje está a desaparecer. Na cultura anglo-saxónica, nos tempos do teatro medieval, existia a figura do book holder (aquele que segura o livro, numa tradução literal). É o mais próximo daquilo que representa o ponto na era contemporânea. No século XVII, com a institucionalização dos teatros por toda a Europa, começando em França, a profissão ganhou novo estatuto e importância.

Em Portugal, os primeiros registos remontam ao século XIX, quando o ponto era descrito como alguém que recordava o texto em momentos de esquecimento. Hoje, é bem diferente. “A partir do momento em que o ponto surge de forma institucional no teatro, tem muitas outras funções que vão além daquela que é a mais conhecida”, explica Alexandre Pieroni Calado, artista e investigador, responsável pelo projeto “Parole Soufflée”, que inclui a apresentação do espetáculo “Kaspar: Palavra Soprada” e a publicação do livro “Os pontos do Teatro D. Maria II”.

“Quando é preciso ensaiar à margem com um ator, o ponto faz isso. Quando é preciso trabalhar com a equipa técnica para explicar como correu o ensaio, o ponto faz isso”, enumera Tiago Rodrigues, diretor do TNDMII. “Ainda tem outro papel: é uma espécie de escudeiro do cavaleiro andante - que é o ator -, sempre presente, que discute, acompanha e percebe as angústias. Isto tem um aspeto humano muito bonito”, acrescenta.

Como ator, Tiago Rodrigues nunca trabalhou com ponto. Se tiver que acontecer, diz, “espero que seja com a Cristina”

Como ator, Tiago Rodrigues nunca trabalhou com ponto. Se tiver que acontecer, diz, “espero que seja com a Cristina”

marcos borga

Nos anos 1950 e 1960, o ponto era completamente essencial. Até então, os atores não recebiam o texto na totalidade. Era frequente terem apenas as suas falas (não havia fotocopiadoras, cada cópia era manuscrita). Depois, as peças eram montadas muito rapidamente, com poucos dias de ensaio e, por vezes, a equipa desdobrava-se em mais do que um espetáculo ao mesmo tempo. O ponto articulava todas estas gentes. Operava como um verdadeiro maestro do espetáculo.

“Agora, há vergonha de usar o ponto. As pessoas sentem-se humilhadas por precisarem de ajuda e preferem que não se saiba que precisaram do ponto. É sinal de que a memória está a enfraquecer ou de que já não se concentram com tanta facilidade como antes. Dá um sinal de fragilidade”, lamenta Cristina.

Segundo a CETbase, um sistema de informação sobre teatro em Portugal do Centro de Estudos de Teatro, ao longo dos anos apareceram 180 nomes diferentes associados à profissão e o ponto foi usado em 595 espetáculos.


ATO IV - Memória

(Sala de figurinos. Paredes pintadas a verde água e apenas uma pequena janela por onde entra a luz de um dos primeiros dias quentes do ano. À volta da mesa está uma série de cadeiras. Há garrafas de água)

Cristina Vidal conta histórias atrás de histórias. É um diário vivo do que se passa e passou nos bastidores do teatro. Mas quando as conta nunca usa nomes. “Ui! Nomes, não gosto nada de dizer.” Quando regressa a outros tempos trata sempre os atores por dona ou senhor. E foram precisamente as suas memórias que inspiraram Tiago Rodrigues a levar a cena “Sopro”. A ideia era levar o ponto para o centro do palco.

Em tempos, Tiago saltitava de teatro em teatro, de espetáculo em espetáculo. Quando assentou no D. Maria II, a primeira vez que se cruzou com Cristina nos corredores disse-lhe: “havemos de fazer aquele trabalho”. Agora, vão fazê-lo. “Usar o ponto como uma metáfora dos bastidores do teatro, que raramente é visto ou aplaudido. Ao mesmo tempo, através desse olhar, falar do mundo. Na sociedade, em locais em que as pessoas se organizam, há quem esteja mais à margem e na sombra”, explica.

marcos borga

O primeiro ensaio é mais como um encontro, em que toda a equipa se senta à volta da mesa. À direita do encenador está Cristina. Falam, trocam ideias, riem-se. São meses de preparação: há que acabar de escrever o texto (e que até ao último minuto antes da estreia muito provavelmente sofrerá alterações); pensar o cenários, as luzes, músicas; organizar a logística, a comunicação e divulgação. Nisto tudo, Cristina continua a ser ponto. Mas será também atriz, que viverá a sua realidade em cena.

Tiago Rodrigues já viu “Sopro” muitas vezes: na sua cabeça, nas linhas do texto, mas sobretudo nos ensaios e em palco. “Cada vez que vejo, descubro a Cristina. Penso que a razão é fundamentalmente a diferença entre ser ponto e atriz. A atriz está a trabalhar para ser vista enquanto a Cristina, que é ponto, está a trabalhar para não ser vista. É uma presença humilde, de serviço e é, sobretudo, uma presença que põe a luz e a importância nos outros. ”


Ato V – Futuro

(O espaço grande e alto foi transformado num pequeno teatro. Com plateia e palco – e sem caixa do ponto. A limitar o palco, longos panos brancos caídos do teto e à boca de cena plantas. Num canto daquilo que parece ser um armazém recuperado, uma mesa comprida com várias cadeiras e guiões espalhados)

Em “Sopro”, Cristina está sempre em palco. Não é normal fazê-lo e ainda não se sente à vontade. A poucos dias da estreia no Festival de Avignon, França (em Lisboa estreia esta quinta-feira, 2 de novembro, no Teatro Nacional D. Maria II), há retoques e alterações a tratar, detalhes para afinar. No ensaio, de quando em quando, tudo pára. Não se percebe logo o que aconteceu. Os atores olham uns para os outros sem saber ao certo o que fazer.

marcos borga

“Na peça, vais ter de arranjar uma forma de fazer isso: anotar qualquer coisa e ficarmos todos à espera. É tão bonita essa dependência”, interrompe Tiago Rodrigues durante uma das várias passagens do texto. Tudo parou porque Cristina teve de pegar num lápis (nunca caneta, porque o texto está sempre a mudar) e escrever uma marcação.

Outra vez, Cristina voltou a adiar uma cirurgia. Há sempre um espetáculo ou um ensaio a fazer. “Nunca faltei a nada. Credo! Que horror”, diz enquanto bate na madeira. O encanto pelo teatro não desapareceu, apesar de já lhe conhecer todos os segredos.

A tecnologia não passou ao lado da profissão. “Com o ponto eletrónico, o ator leva um auricular e eu, nos bastidores, dou-lhe o texto. Na primeira vez, em 2000, nem eu nem o ator sabíamos como se usava. A sensação de fazer aquele espetáculo do princípio ao fim com um aparelhinho que ajudou imenso foi maravilhosa”, lembra.

“Não há tantos pontos porque não há tanto teatro. Deve ser por isso”, atira Joaquim Samora. Talvez seja. Mas não é só por isso. Há também a vergonha. Ser ajudado passou a ser sinal de fragilidade, de que a memória está a enfraquecer. “Preferem que não se saiba. Tudo bem, não se sabe”, diz Cristina. Os dois ainda são do tempo em que se usava a caixa do ponto, que desapareceu de todos os teatros.

marcos borga

E depois há ainda a asfixia financeira em que o teatro vive há uns anos e as mudanças na estética teatral, que passou a dar grande importância ao movimento - e não só ao texto falado. O teatro como forma de entretenimento perdeu espectadores para o cinema, a televisão, a rádio e, mais tarde, a Internet. “Quando questionamos o porquê de só haver dois pontos, também poderíamos questionar o porquê de, no Teatro Nacional, serem apenas meia dúzia de atores, quando já foram 30. As equipas são mais pequenas”, justifica Alexandre Pieroni Calado.

“Há um conhecimento específico, e não podemos permitir que desapareça, por mais tradicional e antiquado que pareça. A partir do momento em que desaparece, passa a ser da ordem do museológico e deixa de ser teatral”, defende Tiago Rodrigues.

Com o tempo a profissão mudou, o teatro desbravou novos caminhos, a sociedade diverte-se de outra maneira. Há menos público e peças, há mais cortes no número de trabalhadores. Será o ponto final?