Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Sabe o que é o Antropoceno? O Fórum do Futuro explica-lhe

NUNO VEIGA / Lusa

Quanto tempo de vida temos no planeta Terra, caso nada seja feito para alterar o impacto provocado pelo homem no clima? A partir de domingo o Teatro Rivoli, no Porto, acolhe debates improváveis entre especialistas de várias nacionalidades, dispostos a debater o clima, a violência, a sexualidade, a tecnologia e a extinção

Comecemos por uma definição. O Antropoceno é visto por alguns cientistas como o período mais recente da história da Terra, em que as atividades humanas começam a ter um impacto significativo no clima do planeta e no funcionamento dos seus ecossistemas. Não há consenso para estabelecer a partir de quando entrámos no Antropoceno. Há quem escolha o final do século XVIII, a partir da introdução do motor a vapor. Outros preferem recuar bastante mais, até o advento da agricultura, e há quem vái ainda mais para trás na tentativa de definir o início de uma nova era geológica.

No Fórum do Futuro, a partir deste domingo e até dia 11, no Teatro Municipal Rivoli, no Porto, debater-se-á sobretudo o presente e o futuro a partir do modo como se equacionam as consequências do tempo que vivemos.

Uma das características mais estimulantes desta iniciativa que tanto se aproxima de um festival de debate e performance é a que resulta do cruzamento de especialistas de diferentes áreas. Como diz Guilherme Blanc, comissário do Fórum, “são convocadas figuras relevantes da cultura contemporânea, oriundas de diferentes geografias culturais, para responderem a duas questões específicas. Por um lado, apresentar uma perspetiva crítica sobre a era do Antropoceno. Por outro lado, equacionar as formas de relação com a natureza e o impacto que a ação da humanidade tem no equilíbrio terrestre”.

A abrir o evento, no domingo a partir das 16h, o sociólogo Richard Sennett, um dos especialistas que influenciou a Carta de Atenas, redigida por Le Corbusier, e também um dos autores dos “Quito Papers”, um apelo a arquitetos, urbanistas e políticos para repensarem e redesenharem o modo como nos relacionamos com a cidade, vai explorar as suas teses na conferência intitulada “A caminho da cidade aberta”. A partir das 19h há uma performance da artista Alexandra Duvekot. Integra uma composição musical em interação com plantas doentes e uma apresentação da sua investigação sobre a possibilidade de comunicação entre o Homem e as plantas.

Para concluir a jornada, com início às 21h30, é exibido o filme de Marie Losier “The Ballad of Genesis and Lady Jaye”. Ali se narra a história do/a artista Genesis Breyer P-Orridge e da sua mulher e parceira artística, Lady Jaye. Ambos decidiram, por amor, fundir-se numa só entidade.

Estamos a extinguir-nos?

Segunda-feira, dia 6, às 16h, o arquiteto japonês Sou Fujimoto vai falar de “Futuro Primitivo: arquitetura entre o natural e o artificial”. À noite, uma das conferências mais aguardadas. O cientista Sobrinho Simões será o moderador da conversa com Elizabeth Hadly. A catedrática de Biologia Ambiental na Stanford University defende que estamos a caminho da extinção. Explicou-o num artigo publicado na revista “Nature e tem sido acompanhada por vários cientistas. A sua tese é a de que temos pouco mais de 20 anos para mudar de rumo. Considera que o ser humano tem um grande poder de destruição e é hoje uma grande força geológica.

Entre outros destaques possíveis, é de referir o encontro, na terça-feira à noite, entre Hito Steyerl, artista visual, realizadora e escritora alemã, e Trevor Paglen, geógrafo e fotógrafo norte-americano. O tema é “Outros mundos”. Como diz Guilherme Blanc, “trabalham como ninguém a problemática digital e vão falar sobre os mundos invisíveis, provocados pela evolução tecnológica, inserindo aí as questões da vigilância”.

No dia seguinte, também á noite, será tempo de ouvir Francis Kéré. Kéré, natural do Burkina Faso, é o mais famoso dos arquitetos africanos. Desenvolve a sua obra em contextos adversos e desfavorecidos, quase sempre utilizando materiais e mão-de-obra local. O tema em debate será “Mais com menos: arquitetura como ato social”.

O encerramento do Fórum fica a cargo de Steven Pinker. O catedrático de Psicologia na Universidade de Harvard vai debater com José Pacheco Pereira a história e o futuro da violência a partir da tese de que vivemos numa sociedade menos violenta, mesmo se a perceção existente é contrária a essa realidade.

Uma das particularidades do Fórum, sublinha o comissário, “é a circunstância de haver artistas a refletir sobre questões científicas e cientistas a refletir sobre questões que são absorvidas pela arte contemporânea ou pela arquitetura”.

O programa completo do Fórum do Futuro pode ser lido aqui.