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Não é o fim do mundo, mas pode ser o fim das notícias no ‘feed’ do Facebook

Dan Kitwood / Getty Images

Em seis países começou a ser testada uma ferramenta que apenas deixa visível no “feed” as publicações dos amigos de cada utilizador. Tudo o resto, notícias e entretenimento, vai para um separador aparte. A ideia é claramente começar a cobrar dinheiro a quem quiser manter-se no feed principal. Portugal ainda não está incluído neste teste

Não há almoços grátis. Nem mesmo nas redes sociais. No caso a mais popular rede social do mundo parece estar a preparar-se para “servir a conta” a todas páginas de organizações, empresas ou marcas, como é o caso dos sites noticiosos e de entretenimento, que queiram aparecer no “feed” principal dos seus seguidores. Tudo porque o Facebook está a testar deixar apenas visível no “feed” comum dos utilizadores apenas as publicações pessoais e anúncios pagos, colocando na “borda do prato” - num separador à parte chamado Explore - todos os conteúdos restantes, mesmo que os utilizadores os sigam até então. Quem quiser manter-se visível no menu principal terá de puxar os cordões à bolsa. De momento, esta experiência está a ser feita apenas em seis países: Bolívia, Cambodja, Guatemala, Sérvia, Eslováquia e Sri Lanka, mas talvez seja uma questão de tempo até abranger todo o resto do mundo.

Noutros casos o objetivo desse mesmo Explore é mostrar aos utilizadores publicações de páginas que não são seguidas, mas que o Facebook julga poderem ser do potencial interesse da pessoa. Supondo que o algoritmo desta rede conheça bem o perfil, os gostos e os anseios de cada um. Adiantando-se ao próprio utilizador.

O impacto desta mudança nos países abrangidos pela experiência tem sido enorme, nomeadamente nos sites noticiosos, fazendo com que as suas interacções tenham diminuído entre os 60% e 80%. O que é esmagador. “Esse novo Explore matou 66% do nosso tráfego. Destruiu-nos, foram anos de trabalho varridos.”, afirma Dina Fernandez, jornalista e membro do conselho editorial do site de notícias guatemalteco Soy502. Também na Eslováquia, a queda na visita às páginas de notícias andou pela ordem dos 60%. O jornalista eslovaco Filip Struhárik, so dite de notícias Dennik N chama a atenção para as consequências desta mudança: “Os utilizadores estão a reportar vários erros. Alguns não encontraram o separador, mas também não encontraram as publicações de páginas que seguem no feed.”

Este menor alcance pode ser um sério problema para edições e redacções pequenas, iniciativas de cidadãos ou ONG´s que precisam do Facebook para chegar às pessoas e não podem pagar para se manterem no feed principal. O mesmo jornalista alertou ainda para o facto de sessenta das grandes páginas eslovacas e media terem passado a ter “quatro vezes menos interacções (gostos, comentários, partilhas) desde que começou o teste.”

Do lado de Zuckerberg a mensagem é que isto não passa ainda de um “teste” e que “não há planos para o expandir.” A versão oficial é que “o objectivo do teste é perceber se as pessoas preferem locais separados para conteúdo pessoal e público.” Foi esta a justificação do responsável pelo feed de notícias do Facebook, Adam Mosseri, em comunicado. E assegurou ainda que o sucesso desta versão de colocar de fora do prato principal estas determinadas publicações dependerá apenas da reacção e feedback dos utilizadores. “A maioria do que as pessoas partilha são fotos pessoais e atualizações de estado”, comentou Mosseri no Twitter. Deixando subentendido que as pessoas não se interessam tanto pelas notícias e outros conteúdos. Claro está que esta é a uma estratégia de angariar mais dinheiro a quem queira promover os seus conteúdos e o Facebook é uma rede perita não só em juntar pessoas como em fazer fortuna. Com os seus dois biliões de utilizadores e um papel cada vez mais relevante na publicidade digital a sua receita e lucro continuam a ser estratosféricos. Só entre Abril e Junho deste ano o Facebook teve um lucro de 3,9 biliões de dólares - 70% mais do que mesmo período em 2016. E a sua receita cresceu 47%, ou seja ascendeu aos 9,4 biliões de dólares.

Recorde-se que o Facebook é a maior empresa a reunir e distribuir publicações noticiosas no mundo, ou seja, tem a faca e o queijo na mão sobre os media, apesar de afirmar não as seleccionar, editar ou promover. Por outro lado, desde o final de 2016, a rede mais influente do planeta tem sido amplamente criticada e acusada de manipular a opinião pública, com falsidades e propaganda embrulhadas como notícias. E é aqui que reside a sua maior perigosidade, parasitar notícias e de se querer substituir à imprensa, criando realidades construídas com interesses obscuros. Como foi o caso de uma falsa notícia que referia um elogio do Papa Francisco a Donald Trump ou de Hillary Clinton a vender armas a terroristas Há mesmo quem diga que ações como esta terão ditado a vitória de Trump. O que é certo é que o mundo está no Facebook, mas nem sempre o mundo é bem contado ou noticiado através do facebook.