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Apenas 8 multas por queimadas num dia em que a missão era salvar vidas

Rui Duarte Silva

Autoridades ainda não fizeram o levantamento total sobre as causas dos incêndios do último dia 15, que mataram 45 pessoas. Mas havia gente a fazer queimadas um pouco por todo o país, apesar destas estarem proibidas até 30 de outubro

Salvar pessoas cercadas pelas chamas, retirar automobilistas de autoestradas envoltas pelo fumo dos incêndios, evacuar aldeias inteiras, cortar vias principais e secundárias para não haver o risco de se transformarem em estradas da morte. No último dia 15, era esta a missão principal dos efetivos da GNR que estavam em ação na zona centro do país.

Fiscalizar quem estava a fazer queimadas ou a trabalhar com máquinas de corte estava um pouco abaixo na lista de preocupações dos militares. São estes os motivos que explicam o número “atípico” de multas passadas pelo Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente (SEPNA), da GNR, no dia em que morreram 45 portugueses, vítimas dos fogos florestais em Coimbra, Guarda, Viseu e Leiria.

Queima de lixo incendiou Pinhal de Leiria?

Apesar de as autoridades no terreno não terem ainda feito o levantamento das causas das 524 ignições registadas nesse dia 15 de outubro, Paulo Fernandes, investigador do Centro de Investigação e de Tecnologias Agroambientais e Biológicas (CITAB) da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) sustenta que a análise de dados dos incêndios deste e de outros anos “permite estabelecer uma relação estreita entre a meteorologia e as ocorrências registadas nesse dia, uma vez que em termos estatísticos 90% das ignições estão relacionadas com as condições meteorológicas”. Ou seja, a informação científica permite “prever aproximadamente o número de fogos por dia a nível nacional, sendo que a nível regional entra em jogo uma outra variável, a do comportamento humano”.

luís barra

Cruzando a informação recolhida, Paulo Fernandes revela que apenas consegue apontar a origem de dois dos fogos de 15 de outubro: “Uma queima de lixo aparentemente apagada, mas que reacendeu devido a um rescaldo mal feito, esteve na origem do incêndio no Pinhal de Leiria”; e uma fogueira feita por um agricultor da Figueira da Foz causou um incêndio que consumiu 300 hectares neste concelho.

Ao Expresso, o gabinete de comunicação da Câmara Municipal da Marinha Grande não confirma no entanto que tenha sido uma queimada a dar início ao incêndio no Pinhal de Leiria, referido por este especialista. Segundo o Expresso apurou, nem a autarquia nem os bombeiros locais têm conhecimento das causas desse incêndio.

As duas situações relatadas por Paulo Fernandes devem-se, a aparentemente, a comportamentos negligentes. E os dados estatísticos de 2003 a 2013 indicam que 56% das causas dos incêndios têm na base fogos postos por comportamentos negligentes, relacionados com queimadas feitas por pastores e agricultores, queimas de sobrantes ou uso de motosserras, tratores ou outras ferramentas agrícolas que lançam faíscas sobre a mata seca iniciando o fogo.

Queimadas proibidas até 30 de outubro

No domingo negro em que os fogos se estenderam entre Viseu e o Tejo — consumindo 5% do território nacional e deixando um lastro de cinza ao longo de 520 mil hectares — havia gente a fazer queimadas um pouco por todo o país, apesar destas estarem proibidas até 30 de outubro.

Porém, segundo o especialista, “os fogos provocados por mão humana tendem a consumir uma área menor que os de causa natural”. Isto explica-se pelo facto de os que têm mão humana terem “início próximo de aglomerações humanas, enquanto os outros acontecem em zonas mais remotas e inacessíveis”.

Pegando no sistema de informação de fogos do ICNF, Paulo Fernandes constata que os fogos postos representam um terço dos incêndios e a área ardida corresponde à mesma percentagem, cerca de 30%. Enquanto os fogos de causa natural ou provocados por descargas elétricas (ou o contacto entre cabos elétricos e árvores) são em menor número, mas ocorrem em dias de meteorologia mais extrema e estendem-se por uma área maior.

“Uma semana depois de 15 de outubro, apesar de dois ou três dias de chuva, ainda se viam fumarolas em várias das zonas por onde passaram os fogos”, lembra Henrique Pereira dos Santos, arquiteto paisagista, lembrando que “tipicamente” são feitos “maus rescaldos, o que leva habitualmente a 11% de fogos provocados por reacendimentos”. Para o arquiteto, que há muito se dedica a analisar estes fenómenos, “a questão não é como começam os fogos, mas sim porque é que não se consegue pará-los”. E aí aponta como uma das razões o facto de “o dispositivo de combate não saber onde está ou não ter feito o trabalho de prevenção”. Esse é um dos pontos que se quer mudar agora, “aproximando a prevenção do combate”, acrescenta.