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E agora, Microsoft?

Na hora da despedida, Joe Belfiore usou o Twitter para decretar a morte oficial do sistema operativo da Microsoft para smartphones

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A Microsoft tem vindo a fazer um caminho que a está a levar a deixar de ser uma empresa de venda de produtos para uma que comercializa serviços

Eu estava lá quando Steve Ballmer exclamou: “Developers, developers, developers!.” A linguagem corporal já não tão exuberante do, então, CEO da Microsoft foi exposta perante uma plateia de mais de 4000 programadores em 2011 na conferência Build – o evento técnico onde a “empresa do Windows” revela para onde está a caminhar em termos de desenvolvimento de plataformas de software.

Ballmer pedia o apoio dos programadores. Queria a sua ajuda para desenvolver o ecossistema de aplicações móveis para o Windows Phone – o Windows desenhado para smartphones. A Microsoft estava apostada em ganhar quota à Google e à Apple que dominavam (e dominam) o mercado das plataformas móveis.

Nesse ano, em 2011, a Microsoft tinha fechado uma parceria com a Nokia, e o fabricante finlandês começava a lançar equipamentos com o Windows Phone. Ou seja, Ballmer e Stephen Elop (que era CEO da Nokia, mas tinha passado pela Microsoft) davam os primeiros passos para aquilo que viria a ser a compra da Nokia por parte da Microsoft, em 2013. Tratava-se de uma fuga para a frente - e a única solução encontrada pela empresa fundada por Bill Gates para ter dispositivos no mercado que suportassem a plataforma móvel Windows.

A empresa não conseguia seduzir os fabricantes de smartphones. O que era compreensível. Anos antes da compra da Nokia, a Samsung e a LG (só para citar os mais importantes) tinham colocado no mercado milhares de terminais com o sistema operativo móvel da Microsoft. As vendas foram más. Tão más que os fabricantes não mais voltaram a apostar nessa plataforma – nem mesmo com todos os incentivos propostos por Steve Ballmer.
Atirar a toalha ao chão

Também estive lá em 2015. Nessa altura, coube a Satya Nadella abrir mais uma edição da Build e, também ele, se multiplicou em manobras de sedução destinadas aos programadores. Pedia-lhes que acreditassem no Windows Phone e desenvolvessem mais apps. O apelo de Nadella e o dinheiro que a Microsoft estava a despejar na Nokia e na comunidade de programadores eram medidas necessárias para que a empresa conseguisse ganhar alguma preponderância no mercado da mobilidade.

Afinal, tinham passado quatro anos desde o apelo de Ballmer e a situação não tinha melhorado. Nem a boa qualidade de construção e estabilidade dos terminais agora assumidamente Microsoft (o logótipo da Nokia acabou por desaparecer do chassis dos telefones) fez disparar as vendas. Faltava o ecossistema. As apps, entenda-se. Não havia empresa no mundo que, quando passava os seus serviços para a área da mobilidade, visse o Windows Phone como uma prioridade. Todas as apps eram desenvolvidas primordialmente para Android e iOS. Google e Apple não tinham rival à altura e já tinham ajustado o mercado à sua oferta. O iOS, da Apple, é a plataforma que mais fatura; o Android, da Google, a que está em mais dispositivos. Estavam distribuídos os despojos do mercado móvel e a Microsoft não conseguia entrar nessa partilha de riqueza.

A semana passada coube a Joe Belfiore, vice-presidente da Microsoft e responsável pela área do Windows, dar a extrema-unção ao sistema operativo móvel. No Twitter disse que a Microsoft já não ia desenvolver hardware ou software para a plataforma Windows Mobile 10 – a mais recente encarnação do Windows Phone. Acabam os telefones e novas versões para o Windows móvel (a empresa vai continuar a lançar atualizações de segurança para o sistema) e a Microsoft deita a toalha ao chão. Acabaram os sonhos de conquista do mercado da mobilidade para a empresa americana. Depois de milhões de dólares investidos, o Windows Mobile 10 tem, segundo a consultora IDC, apenas 0,3% de quota de mercado.

Uma longa história

A Microsoft foi das primeiras empresas a chegar ao ecossistema da mobilidade. O Windows CE - o primeiro sistema desenhado para equipamentos móveis – começou a ser desenvolvido em 1996 e foi o grande motor para a inteligência que existia nos pequenos equipamentos usados em fábricas e em outros ambientes empresariais (quem não se lembra dos estafetas de entregas a picar no ecrã com um stylus?). Falo dos PDA (Personal Digital Assistants), os computadores de bolso que ainda hoje encontro quando visito fábricas em Portugal. Apesar de ter chegado primeiro, a empresa não conseguiu aproveitar o advento dos smarphones, que foi tomado com grande mestria pela Apple, a qual conseguiu ver a importância de dominar toda a cadeia de valor - criando, para isso, um telefone, uma plataforma e uma loja de apps.

O ciclo estava fechado. Algo que a Google só concretizou o ano passado quando chamou a si o desenho e fabrico dos smartphones – uma movimentação para não ficar dependente de fabricantes como a Samsung, que domina o mercado mundial de vendas de equipamentos móveis.

A Microsoft tentou. Fez a plataforma. Comprou a Nokia. Pagou aos programadores. Estimulou as empresas a entrarem no ecossistema. Não havia nada a fazer. O número de apps nas plataformas rivais crescia a ritmo viral e era isso que conquistava os utilizadores. E não apenas os do consumo.

Profissionais de todos os segmentos compravam iPhones e Androids e levam-nos para dentro das empresas. Um movimento (definido como Bring Your Own Device) que obrigou as organizações a abrir os seus sistemas às plataformas da Google e da Apple. As apps eram verdadeiros cavalos de troia que permitiram a esses dispositivos tornarem-se extensões quase naturais do Windows, que era, e é, o principal sistema operativo usado nas empresas. Ou seja, ocuparam um lugar que seria, por herança dinástica, pertença do Windows Mobile 10.

Qual é a estratégia atual da Microsoft? A empresa tem vindo a fazer um caminho que a está a levar a deixar de ser uma empresa de venda de produtos para uma que comercializa serviços. Por isso, o Windows e o Office deixaram de ser, praticamente, sistemas vendidos à licença, para serem disponibilizados num modelo de negócio de subscrição. A isso deve juntar-se toda a estratégia de Cloud da empresa (o “Cloud first”, tão defendido por Nadella).
Mas há mais. A empresa está apostada na Realidade Mista ou na Inteligência Artificial – só para citar algumas das tecnologias mais sonantes. E fabrica hardware. Além dos ratos e dos teclados que estão lá quase desde a génese da empresa; a Microsoft produz a consola XBox e os computadores Surface.

Quanto ao mercado da mobilidade, a aposta passa por disponibilizar aplicações como o Word ou o Excel aos utilizadores do iOS e do Android. Ou seja, em vez de tentar ganhar posição com equipamentos e um sistema próprio, a Microsoft opta por capitalizar as plataformas dos rivais utilizando-as como canal para vender subscrições.

Claro que ao abandonar desta forma o mercado dos smartphones, a Microsoft está a abdicar do potencial de todos os milhões de utilizadores que nos países em vias de desenvolvimento começam agora a pegar num equipamento deste tipo pela primeira vez. Pessoas que, possivelmente, não vão ter um computador e para as quais o telefone será o seu único elo de ligação ao mundo digital. Um elo que já não vai passar diretamente pela Microsoft ou pelo Windows. O que pode colocar em questão o futuro da empresa fundada por Bill Gates.

E não se pense que a Microsoft não sabe a importância de mercados como o indiano, o chinês, o russo ou o brasileiro. Esses foram, há anos, os destinos prioritários para o lançamento dos telefones mais baratos da Nokia a usar o Windows Phone. Mas a estratégia não resultou e foi o Android, primeiro, e o iPhone, a seguir (e em segmentos diferentes), que ganharam a corrida.

À Microsoft resta sempre a hipótese de fazer uma movimentação semelhante à da IBM. A empresa americana, em tempos o maior fabricante mundial de computadores, vendeu a área de PC à empresa chinesa Lenovo (computadores e servidores) e dedicou-se por inteiro aos serviços. O que não a impediu de continuar a ser uma das empresas que mais patentes regista no mundo (mais de 8000 o ano passado) e a estar, por exemplo, na liderança da computação inteligente. Não são argumentos que a coloquem no dia a dia do consumidor final, é verdade. Mas são fulcrais para o mercado empresarial e o negócio tem corrido bem – a empresa apresenta resultados esta semana.

Será esse o destino da Microsoft? Abandonar a linha da frente e ficar num segundo plano sem a exposição mediática típica de quem produz para o grande consumo? Não acredito. Tanto a Xbox como os computadores Surface vão continuar a fazer as parangonas sempre que existir um novo lançamento. Além disso, o Windows é incontornável. Vão ser necessárias décadas para que esse sistema operativo seja ultrapassado por qualquer outra coisa que surja entretanto. E, nessa área de negócio, tanto a Apple como a Google têm sistemas rivais e nunca conseguiram fazer sombra à Microsoft. Por isso, o Windows, que esteve lá no princípio, vai continuar a ser a linha de vida que liga a Microsoft a milhares de milhões de pessoas espalhadas por todo o planeta.