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Almeida Henriques: “Era dantesco. Às 4 da manhã cheguei a admitir que tudo podia acontecer”

Almeida Henriques temeu que o fogo entrasse em Viseu, capital do distrito que teve mais mortes nos incêndios de domingo. Presidente da Câmara fala de um cenário dantesco, relata retirada de pessoas que assim foram salvas, critica mudanças na Proteção Civil e lamenta que o Governo não dê a devida atenção aos efeitos do sucedido. “Se este número de mortos e esta descoordenação não devem levar a consequências políticas, então o que é que deve levar a consequências políticas?”

António Almeida Henriques, do PSD, é presidente da Câmara Municipal de Viseu, tendo sido reeleito nas últimas autárquicas. Em conversa ao final da tarde desta segunda-feira, interrompia amiúde as respostas tossindo por causa do fumo que mergulhava a cidade. Só às 2h50 já desta terça-feira choveria – copiosamente. Na fatídica noite de domingo, Almeida Henriques esteve toda a noite na proteção civil, em contacto com entidades envolvidas no combate e assistência a populações. Soubera dos incêndios pelas notícias.

A que horas soube dos incêndios no domingo?
Há logo um facto estranho: desde que mudaram as chefias da Proteção Civil, o responsável por Viseu nunca mais me foi notificando de nenhuma ocorrência no concelho.

Isso aconteceu este domingo?
Sim, aconteceu o mesmo. Só tive conhecimento do que estava a acontecer no meu concelho porque estava a ver notícias e porque tenho forças próprias no terreno, designadamente o meu comandante dos bombeiros municipais, que me foi mantendo a par. A determinada altura, fui para a Proteção Civil para poder ter informação e entrar em ação. Eu podia ter passado toda a noite sem ter qualquer informação e sem estar no local de ação, porque não tive qualquer contacto por parte da Proteção Civil, o que é um estranho comportamento.

Foi sempre assim?
Quando o tenente-coronel Lúcio estava em funções – ele era o antigo responsável [pela Proteção Civil em Viseu] –, não havia ocorrência nenhuma no concelho, desde um acidente a uma ignição, de que eu não tivesse conhecimento nos minutos seguintes. O que é normal, porque nós temos conhecimento do terreno, o que permite uma atuação mais rápida.

Essa foi uma das chefias mudada em abril.
Ele foi mudado três, quatro meses antes da época de incêndios. Sim, foi uma das mudanças de chefias. Mas enfim, esta é uma questão de pormenor. O meu vice-presidente foi para a Proteção Civil a partir das dez e meia, eu fui ao início da noite.

O que viram?
Vimos que um incêndio não pede licença para entrar por um concelho dentro. Não tivemos nenhuma ignição em Viseu mas entrou-nos o incêndio que estava a ocorrer em Mangualde, entrou-nos o incêndio de Nelas, o incêndio de Tondela, o incêndio de Vouzela e ainda houve ameaça de que entraria o incêndio de Castro Daire. O que verificámos foi um teatro de operações dantesco. Tínhamos vários fogos a entrar pelo concelho e estávamos a ajudar alguns concelhos vizinhos com os nossos efetivos dos bombeiros municipais e dos bombeiros voluntários, sobretudo no apoio às populações. E houve que tomar algumas decisões muito rápidas. A primeira conclusão que tiro é que, mais do que nunca, se justifica que o combate de incêndios deve ser feito a nível intermunicipal.

Quando chegou à Proteção Civil, o que encontrou? Uma situação sob controlo ou em descontrolo?
A situação na Proteção Civil era de normalidade do ponto de vista da informação que chegava. O coordenador distrital do CDOS fez-me um ponto de situação global de todas as situações que estavam a acontecer no distrito e era visível que nenhuma delas tinha origem no concelho em Viseu. Daquela troca de informações – e felizmente Viseu tem várias pessoas alocadas especificamente à Proteção Civil –, com o comandante dos bombeiros municipais e dos bombeiros voluntários, procurámos antecipar problemas. Por exemplo, a frente que estava a chegar de Tondela iria afetar algumas povoações em Silgueiros e sabê-lo permitiu-nos atuar na Pedra Cavaleira ou em Póvoa Dão. Concentrámos os nossos meios – designadamente os bombeiros municipais e os bombeiros voluntários – na lógica de apoiar as populações nos sítios onde antecipámos onde podia haver risco de isolamento. Tivemos situações de pessoas que vivem em casas isoladas e, com o conhecimento das nossas forças mais o dos presidentes das juntas de freguesia de proximidade, isso permitiu-nos irmos lá buscá-las. Hoje [segunda] estamos a alojar uma família de quatro pessoas, uma família fortemente carenciada, que se salvou porque o presidente da junta tinha o dado concreto da família e fomos buscá-los a casa.

Almeida Henriques: “Se se tinha dúvidas de que é importante ter um corpo de bombeiros profissionalizado, hoje deixei de as ter”

Almeida Henriques: “Se se tinha dúvidas de que é importante ter um corpo de bombeiros profissionalizado, hoje deixei de as ter”

Tiago Miranda

Salvou-se? A casa ardeu?
A casa ardeu. Hoje mesmo atribuímos uma casa na respetiva freguesia, Silgueiros, para que esta família já possa hoje pernoitar num local de proximidade, para não a desenraizarmos. É só um pequeno exemplo de como é importante agir na proximidade. E essa é uma segunda conclusão, de como é importante ter o conhecimento local. Quer o CDOS, quer o CNOS, têm uma concentração de informação qualificada a nível nacional e regional, mas falta-lhes esta noção do terreno. O presidente da junta é que sabia onde é que morava esta família isolada, como acaba por saber que indo não por aquela rua ou por aquela estrada onde o fogo já está a deflagrar se pode chegar onde se quer.

A Proteção Civil não conhece o terreno.
Sim. A Proteção Civil acaba por ter uma visão mais global. E isso é outra lição que tirei ontem: se tinha dúvidas de que é importante ter um corpo de bombeiros profissionalizado, hoje deixei de as ter. É dos dinheiros mais bem empregues que a autarquia está a fazer, que é investir mais de um milhão de euros para ter bombeiros municipais mais profissionalizados, que no fundo trabalham como sapadores. É um corpo de 45 homens, altamente treinado, profissionalizado, que ao longo do ano vai desenvolvendo outros trabalhos. Sem meios de proximidade não se consegue atuar. E se Viseu não tivesse meios próprios, não podia ter atuado como atuou junto das populações, designadamente na salvaguarda de vidas humanas, que é sempre a nossa prioridade. Hoje está a atuar na fase de rescaldo, tenho mantido viaturas destas duas corporações sob a nossa coordenação a fazer rescaldo. A proximidade dos meios é extremamente importante.

Quantos presidentes de juntas foram ativados?
Acabámos por incomodar uns dez: à medida que fomos identificando um potencial de risco, fomos por antecipação. Para dar um exemplo, nós pusemos o presidente de junta de Calde de prevenção às seis da manhã, porque o fogo de Castro Daire estava a vir e tudo levava a crer que iria entrar em Viseu através de Cabrum. Automaticamente alertámos com horas de antecedência o presidente da junta, para tomar medidas de proximidade. Se fosse necessário, teríamos tirado sete famílias que vivem naquela povoação de Cabrum. Às quatro da manhã a situação já era tão calamitosa que fizemos uma pequena reunião e declaramos a situação de emergência municipal, que permite uma melhor integração dos meios ao nível concelhio e requisições mais fáceis de meios. Tivemos necessidade de encontrar alojamento não para as pessoas que estavam a ser deslocadas no concelho – por exemplo em Silgueiros abrimos a sede da junta de freguesia para deslocar essas pessoas – mas também estávamos a receber pessoas de Tondela, Mangualde, Vouzela. Nesta articulação que se fez com o Regimento de Infantaria 14, de imediato o quartel se disponibilizou para receber 100 a 120 pessoas, mas acabou por ter 230 pessoas que passaram lá a noite e tiveram lá as suas refeições. E criámos também um centro no quartel de bombeiros municipais, onde ao longo da noite foram recebidas várias pessoas.

Qual foi o momento mais marcante da noite?
Começámos a receber notícias de mortes e isso levou-nos a verificar que a dimensão da catástrofe não era só material. À hora a que saí da Proteção Civil estimava-se que haveria cinco a oito mortos no distrito, com maior enfoque no concelho de Vouzela, discutia-se se seria quantificada a morte da senhora grávida que fez inversão de marcha numa situação de pânico na A25 e identificava-se também o caso de um senhor que teria morrido de AVC por causa do incêndio – o senhor terá sido notificado pelos agentes de autoridade para sair daquela aldeia porque corria risco de vida e não saiu, morreu depois com um AVC. Além disso, há um momento muito marcante, por volta das quatro da manhã, sentimos que a situação estava mesmo fora de controlo. Cheguei a admitir que tudo podia acontecer. Da mesma maneira que sabia que em Tondela o fogo tinha entrado pela cidade dentro, e tinha chegado junto do estádio com consumo de várias vivendas, cheguei a por a hipótese de aqui [em Viseu] haver uma situação dessas.

De o fogo entrar na cidade de Viseu.
Sim. Por outro lado também comecei a aperceber-me que havia alguma instabilidade da população. Foi importante, e foi mais ou menos a essa hora, dar informação do município através das redes sociais, designadamente falando dos dois pontos onde as pessoas se podiam encaminhar para poder terem apoio, o quartel e os bombeiros, e dando nota de que tinha sido declarada a emergência municipal, com informação para tranquilizar as pessoas.

Já falou da necessidade de investimento em bombeiros municipais, de a ação ser intermunicipal e de proximidade. Que mais ilações se pode tirar?
A noite de ontem é uma noite de ação, de resposta a um conjunto de incêndios em circunstâncias muito anómalas, era quase uma tempestade perfeita, porque ter seis ou sete incêndios todos de grandes proporções a caminharem no sentido de Viseu é um clima dantesco. A determinada altura quem está na Proteção Civil só tem uma preocupação: onde é que estão as pessoas? Que pessoas podem estar em risco? Onde as podemos alojar? Que pequeno-almoço lhes podemos dar? Como vamos dar-lhes água?... Esse tipo de preocupações são as que nos assolam. Mas ao mesmo tempo sabemos que tudo pode acontecer, que o fogo pode irromper por áreas urbanas, como infelizmente aconteceu noutras partes do país. Falta aqui uma lógica de antecipação, porque se houvesse uma coordenação da Proteção Civil com partilha de informação dos responsáveis concelhios, com o conhecimento do terreno que temos podíamos antecipar problemas e soluções. Com a informação que fomos tendo do risco, antecipámos problemas. Houve 16 mortos no distrito, no concelho de Viseu não tivemos nenhuma morte. Tivemos sorte, mas algumas destas ações de antecipação também nos permitiram tirar pessoas do teatro de operações.

A Câmara foi informada na sexta feira sobre as condições meteorológicas de risco?
Nada. As únicas informações que temos recebido da Proteção Civil são os avisos de alerta laranja, alerta vermelho, que eu recebo no meu telemóvel de uma forma muito… lacónica.

Acha isso normal?
Não. Não acho nada normal. Estou na Câmara há quatro anos e já aprendi muita coisa. Aprendi que é melhor ter meios à nossa disposição do que não ter. Dá-se o caso de eu ter reforçado a Proteção Civil, de ter reforçado os meios dos bombeiros municipais e sobretudo ter estimulado uma sã colaboração entre todas as entidades ligadas à proteção civil. Fala-se hoje numa coordenação mais ativa, em Viseu ela já existe.

Antes estava o tenente-coronel Lúcio na Proteção Civil em Viseu. Quem é agora?
[pausa] Boa pergunta…

Boa resposta... não sabe. Esteve como presidente de Câmara no terreno este domingo, lidou com a situação de risco, tem conhecimento local, municipal, mas é também um responsável político que tem e teve responsabilidades nacionais [foi membro do governo de Passos Coelho]. Quatro meses depois de Pedrógão, e depois destes incêndios deste domingo, quão longe considera que se deve ir na responsabilização das autoridades envolvidas e do governo?
Hoje é o dia de aplicar a máxima de Marquês de Pombal no terramoto de Lisboa, enterrar os mortos e tratar dos vivos. Mas depois de Pedrógão e desta noite que vivemos, nada pode ficar como dantes. Além dos ensinamentos que tirámos é preciso haver responsabilidade política. Há uma coisa perfeitamente visível: há falhas de coordenação. Ninguém muda um conjunto de chefias a dois/três meses do início de uma época de incêndios. Nós já tivemos outros anos anormais mas nunca tivemos um número tão elevado de mortos como este ano. Se este número de mortos e esta descoordenação não devem levar a consequências políticas, então o que é deve levar a consequências políticas?

Que outras alterações devem ocorrer?
Será que não faz mais sentido pensarmos num modelo de organização intermunicipal e mais próximo das populações, em vez de ser um modelo muito centralizado em Lisboa? Como fazem os espanhóis? Essa é uma competência que devia claramente ficar nas comunidades intermunicipais. Obviamente que não deverá deixar de haver uma coordenação nacional de todos os dados, mas esta é uma matéria em que faz todo o sentido haver uma ação municipal, até pela natureza da ação mas também pela economia de meios. No nosso caso estaríamos a falar da comunidade intermunicipal de Viseu Dão Lafões, 14 municípios que terão quase vinte corporações de bombeiros. Estas vinte corporações podiam ser mais racionalizadas e ter um treino mais profissional, e serem utilizadas durante o resto do ano na prevenção. É um anacronismo defender maior profissionalização dos serviços de bombeiros e a Câmara de Viseu ver uma candidatura à criação de uma equipa de sapadores ser rejeitada porque já havia uma candidatura aprovada a outra instituição. Numa região como esta faz sentido haver mais do que uma equipa de sapadores a trabalhar de uma forma coordenada no ano inteiro. É preciso refletir se faz sentido ter uma lógica intermunicipal com maior envolvimento dos municípios. Por exemplo, antes desta época de incêndios, reuni-me com as autoridades e municiei todos os corpos de bombeiros com cartas topográficas com informação de todo o território da responsabilidade do município, e ao mesmo tempo com uma aplicação no telemóvel que permite em qualquer sítio o bombeiro ser encaminhado para o ponto de água mais próximo. São coisas que o município de Viseu fez por iniciativa própria, não há nenhuma política nacional que o defina. Estas boas práticas deviam ser copiadas e incrementadas para que houvesse uma ação mais concertada no terreno.

E nas aldeias, nas populações?
Há uma vertente política de coisas que estão identificadas. Temos um território desertificado, sobretudo no interior. Faltam os agricultores, que já lá não estão, os terrenos estão mais desertificados, as matas estão menos limpas. Isso implica outra forma de abordar o território. A reforma do emparcelamento é fundamental. Para, por exemplo, nós termos mecanismos que permitam atuar em terrenos em que nem sabemos quem é o proprietário. O envolvimento das autarquias nisso é fundamental.

E há os fogos postos…
É a perspetiva punitiva. Acho um bocado estranho que um responsável político nacional possa dizer que os incêndios de ontem foram fogo posto e que uma parte resultou da pastorícia. Se há provas, têm de ser apresentadas e é preciso que a justiça seja exemplar, porque se a justiça não for exemplar isso pode estimular outras pessoas a continuar a fazer queimadas ilegais ou a ter até atitudes proativas de ateamento de fogo. É preciso que haja uma legislação que tire da rua os potenciais criminosos. E se há crime económico, então nacionaliza-se o crime económico, faça-se por exemplo uma lógica de que toda a madeira ardida nesta altura é comprada pelo Estado que depois a vende. O problema é complexo mas é um problema que outros povos vivem. O que não podemos é andar anos a fio nisto. E todos nos lembramos que, noutros anos, não tão graves como este, o Parlamento se reuniu de emergência para discutir os incêndios, ministros caíram e responsabilidades políticas foram assumidas. Este governo não está a dar a devida importância a estas questões que têm corrido mal ao longo desta época de fogos.

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