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Novo relatório: podiam ter sido “evitadas algumas mortes e muito sofrimento” em Pedrógão

Rui Duarte Silva

O grupo de trabalho nomeado pelo Governo para apurar o que falhou no incêndio de Pedrógão Grande que provocou 65 mortos no passado mês de junho, é claro: sobrou caos e descoordenação. Faltou socorro e o que houve foi tardio e mal organizado

EDP, Ascendi, Proteção Civil, INEM, Bombeiros. No relatório elaborado pelo grupo de trabalho nomeado pelo Governo para apurar o que falhou no incêndio de Pedrógão Grande, que provocou 65 mortos no passado mês de junho, entregue esta segunda-feira à tarde no Ministério da Administração Interna, não há contemplações. Vidas podiam ter sido salvas, houve falha humana e grande, convertendo este fogo num caso de estudo nacional e internacional.

Neste relatório, coordenado por Xavier Viegas, do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, fala-se de descargas elétricas e do contato entre a vegetação e a linha de média tensão, causador de descargas que causaram a ignição e deram início ao incêndio de Pedrógão Grande. A causa do incêndio terá sido, portanto, a "deficiente gestão de combustíveis na faixa de proteção da linha, por parte da entidade gestora". Traduzindo: a EDP não limpou a vegetação na proximidade dos fios, como deveria ter feito.

E as críticas prosseguem. Aos comandantes operacionais no terreno faltou "perceção da importância deste incêndio, nos vários escalões da decisão", o que levou a que "não fossem utilizados mais recursos, nomeadamente mais meios aéreos pesados, no seu combate, no período entre as 15h00 e as 18h00". "A reação ao agravamento da situação foi claramente tardia", afirma o documento.

Perante as características "pouco usuais do comportamento do incêndio" e "devido à falta de socorro junto às casas, de energia elétrica, de água e comunicações, gerou-se uma fuga das pessoas". E foi na fuga que a maior parte das vítimas pereceu: das 65 mortes, apenas quatro das pessoas estavam dentro de casa, todas "tinham algum tipo de problema de mobilidade ou saúde".

A "falta de limpeza da envolvente das estradas permitiu que muitas pessoas fossem colhidas em plena fuga, pelo fumo e radiação do incêndio, pelas chamas da vegetação em redor e mesmo por árvores caídas na própria estrada". Neste ponto, o relatório remete a inação para a Ascendi, a concessionária da EN 236-1.

Também as comunicações merecem uma avaliação negativa. Rádio e telefone tiveram "uma falha geral em toda a região, quer por limitações inerentes aos sistemas, (...) quer por sobrecarga de utilizadores, ou ainda por deficiente utilização de alguns dos sistemas". Um problema que, segundo o relatório, "foi agravado pela indisponibilidade de meios complementares devido à falta de planeamento".

"A coordenação das operações, que incluía o socorro às vítimas e o combate ao incêndio, foi claramente afetada, após as 22h00, quando se tomou conhecimento da existência de um grande número de vítimas mortais". É como se dissesse que, ao se conhecerem as mortes, se tivesse instalado o caos entre as lideranças dos operacionais. "Não foi prejudicado apenas o combate, como também o socorro às vítimas feridas. Não foi feita uma operação de busca e salvamento em larga escala - em condições muito difíceis - de ir junto dos feridos para os retirar para locais onde pudessem ser tratados". E conclui de forma taxativa: "Estamos convencidos de que se poderiam ter evitado algumas mortes e muito sofrimento aos feridos se este socorro tivesse sido mais pronto e melhor organizado."

O diagnóstico não deixa dúvidas sobre a fragilidade nacional, afirmando que "a grande dimensão da tragédia colocou em evidência que o sistema de emergência não está preparado para fazer face a um número tão massivo de pessoas afetadas, feridas ou mortas". Finalmente, o relatório confirma que "os municípios de Pedrógão Grande e de Castanheira de Pera não dispunham de Plano Municipal de Defesa da Foresta Contra Incêndios validados pelo Instituto de Conservação da Floresta e da Natureza, facto que "inibiu estas entidades de receberem financiamento durante os últimos anos, para promoverem ações de prevenção, com manifesto prejuízo destas".