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“Foi o povo que se valeu a si próprio e segurou o fogo”

Populares e bombeiros no cenário de destruição, na zona de Viseu. “A aldeia ficou livre do inferno, mas não da tristeza e do prejuízo de quem perdeu o sustento”

Em Tondela as vassouras já substituíram os baldes, os pulverizadores usados para combater as chamas servem agora para limpar a fuligem e fonas que tingiram o concelho de preto, e o alívio já se pressente nos rostos, cansados e extenuados, de quem combateu o fogo durante mais de 20 horas. Mas à medida que o incêndio diminui de intensidade aumenta a estupefação pela destruição. O alívio que vai com as chamas é tragado pela comoção de ver o concelho “todo queimado, como não há memória”.

Em Parada de Gonta “foi o povo que se valeu a si próprio e segurou o fogo”, conta Júlio Pereira. A freguesia “tem uma equipa de sapadores, que deu o alerta logo no domingo e depois foi mobilizar tratores, bidons e enxadas”. Foi assim que os populares apagaram o fogo. Aqui esteve um único autotanque dos Bombeiros de Tondela, mas não há queixas: “o fogo era tanto que eles não podiam estar em todo o lado”. Numa freguesia de pouco mais de 1000 moradores “o povo ficou extenuado mas não deu tréguas ao fogo”, acrescenta Luís Carlos. Vinhas. Matas e barracões foram comidos pelas chamas “mas, felizmente, salvaram-se as casas e as pessoas”. Manuel Antero não esconde a “comoção de ver o concelho todo queimado, como não há memória. E nós já passámos pelos fogos do Caramulo”, desabafa enquanto vai limpando o pátio de casa. Ao fundo da aldeia, na Regueira, os populares concentram-se em proteger um aviário, enquanto junto no Vale Espinhoso é um armazém de materiais de construção que concentra tratores e populares. “Com tanto fumo temos que regar e molhar tudo para não termos surpresas”, diz Leonor Coelho. Junto ao centro de dia há uma carrinha pronta a fazer transportes de urgência e uma ambulância, da Cruz Vermelha, para prevenir males maiores.

E é assim em todo o concelho de Tondela, onde “muitos ficaram só com a roupa que traziam no corpo. Saíram de casa para apagar o labaréu e foram surpreendidos pela desgraça”, revela um dos bombeiros que ali aparece para ajudar ao rescaldo.

Todo o concelho de Tondela é um imenso retalho de terra queimada e são poucas as povoações que escaparam à tragédia. Na Póvoa da Catarina, 6 km na frente de fogo que se seguiu a Parada, o povo não desarma a mobilização. São velhos e estão “mobilizados e sozinhos” no Largo do Eirô. Daqui só saem “quando tudo estiver apagado”, esclarece Sizalda Carvalho. O fogo cercou a aldeia e “desde as duas da manhã que há muita preocupação”. Foram as mulheres “que saíram para as fábricas quem deu o alerta e de pronto a povoação ficou em alvoroço”. Sem água nas torneiras, “nem para cozinhar, quanto mais para apagar o fogo”, valeram enxadas, roçadoras e baldes. Aqui “não veio cá ninguém. Passou um carro da GNR, a meio da tarde, para saber se estava tudo bem e seguiu. Ficámos nós, o fogo e um triste alvoroço. Mantivemos a aldeia livre do inferno, mas não afastámos a tristeza e o prejuízo de quem perdeu o sustento”, acrescenta uma idosa, de vassoura na mão. “Não podemos parar, sabe, agora temos que limpar as cinzas e esta fuligem que pinta tudo de negro”, remata a octogenária. Mais à frente, em São Miguel do Outeiro, as chamas ainda não dão tréguas. Há dois velhos camiões de bombeiros e muito povo. De tratores e enxadas. “Cada trator tem 400 litros de água e é o que nos vale”, desabafa Paulo Santos. Sem ir há cama “desde domingo”, com marcas de cansaço visíveis e “muito preocupado”, a cara mostra algum “alívio. Conseguimos proteger a exploração pecuária que daqui até Tondela ardeu tudo, oficinas, tratores, barracões, lavoura. Foi uma desgraça”, desabafa este agricultor. Na aldeia há um tanque de água, da prevenção de incêndios, “a que nunca faltou abastecimento e foi com ele que aguentámos o braseiro”. Mais à frente, na Adiça, a situação “é bem pior. Arderam dois centros de incubação, e aqui todos vivem da avicultura, e vai haver muito desemprego”, vaticina Paulo Santos. Sem centros de incubação não há ovos nem galinhas e “o ganho pão destas gentes fica perdido”.

Uma extensa linha de fogo, vinda de Santa Comba Dão, Águeda e Carregal do Sal, atingiu o concelho e tudo queimou. “Há aldeias onde só não arderam as casas”, conta um dos bombeiros, que teima em apagar as chamas que ainda resistem. O povo, aliviado mas, angustiado, elenca prejuízos: casas, vinhas, duas fábricas, terrenos de agricultura, estufas, os prejuízos são imagináveis. Até tenho medo de ver a destruição. É uma calamidade como nunca vi”, remata Manuel Carlos enquanto ajuda os bombeiros a puxar manga, encosta acima.