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#justiça. Sócrates, um pobre (mas generoso) provinciano

Foto Rui Duarte Silva

Toda a gente devia ter um amigo como José Sócrates. Eis um homem que, mesmo estando a passar "por dificuldades financeiras" – como admitiu ao juiz Carlos Alexandre –, nunca negou uma ajuda às pessoas mais próximas. Segundo a acusação do Ministério Público (MP), o ex-primeiro ministro terá distribuído centenas de milhares de euros por várias mulheres da sua vida. Só a amiga Sandra Santos, emigrada na Suíça, terá recebido quase 100 mil euros entre 2008 e 2014, mas a lista de beneficiárias é longa: inclui Sofia Fava, a ex-mulher, Célia Tavares e Lígia Correia, a atual companheira, entre outras.

Ao juiz, Sócrates disse ser "um pobre provinciano que andou na política durante uns anos", mas a então namorada, Fernanda Câncio, insistiu para que visitasse um apartamento no Chiado que estava à venda por mais de dois milhões de euros. "Goldo, a apaltamento duplex daquele pledio tem 314 m2 e quatro lugares de garagem, 4 quartos e 4 casas de banho.

Custa 2 milhões e 200 mil. Queles visital?" Noutra mensagem intercetada pela investigação, uma antiga assessora, Maria Rui, apela à bondade do ex-governante. "Amigo, preciso de massa na sexta-feira para pagar. Pode ser. Posso ir buscar." Sócrates, claro, não a nega. "São mesmo 5 mil? Não custa nada. E não ficas a dever". Quem não gostava de ter um amigo assim?

Estas gentilezas só eram possíveis graças a Carlos Santos Silva. Toda a gente devia ter um amigo como Santos Silva. O pacto entre os dois parecia selado a sangue: Sócrates pedia, ele dava. E dava muito. Segundo as contas do próprio, mais de 500 mil euros (embora tenha destruído os registos). Segundo os cálculos do MP, uns 12 milhões, usados para comprar casas, férias de sonho, obras de arte e muito mais. E o que recebia Santos Silva em troca? Uns conselhos para escolher a pedra do chão de uma casa em Paris.

Santos Silva seria um bom amigo, mas não o mais generoso. Na tese da acusação, o verdadeiro mãos-largas desta história é Ricardo Salgado: terá entregue mais de 70 milhões de euros a Sócrates, Henrique Granadeiro e Zeinal Bava para manter o controlo da PT. Seriam prendas, como aquela (no valor de 14 milhões de euros) que o antigo homem forte do BES diz ter recebido do construtor José Guilherme?

A "Operação Marquês" é a história de uma comovente generosidade. Quem precisa de ganhar o Euromilhões quando tem amigos assim?