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Um vazio difícil de preencher na sucessão do bispo do Porto

Celebração solene da entrada em funções do novo Bispo do Porto, António Francisco dos Santos, na Sé Catedral, a 6 de abril de 2014

Filipe Pombo / Visão

“A diocese merece uma reflexão séria e alguém à altura de D. António Francisco”, dizem vozes do clero local

Será uma sucessão difícil, a de D. António Francisco dos Santos, bispo do Porto que morreu a 11 de Setembro com um enfarte fulminante. O seu desaparecimento aumenta para seis o número de dioceses católicas que mudarão de titular nos próximos meses, complicando um xadrez que já não era fácil. Mas, entre os problemas apontados por duas dezenas de membros do clero, incluindo sete bispos, ouvidos pelo EXPRESSO, estão os receios em relação ao núncio: as opções do embaixador da Santa Sé em Lisboa, por quem passam obrigatoriamente as nomeações de bispos, tendem a privilegiar pessoas não alinhadas claramente pelas opções do Papa Francisco (ver texto em baixo).

Próximo das pessoas, generoso, o bispo que morreu comungava também da visão do actual Papa em outros aspectos decisivos: abertura às questões sociais, aos mais pobres (convidou várias vezes pessoas sem abrigo para comer à sua mesa) ou aos divorciados que voltaram a casar são alguns dos exemplos.

Segunda diocese do país em população (dois milhões de pessoas), logo atrás de Lisboa, o Porto tem ainda problemas difíceis, que o anterior bispo tentava resolver: graves dificuldades financeiras em diversas instituições católicas ou conflitos envolvendo padres (o caso de Canelas, Gaia, por exemplo) eram alguns deles...

“Precisamos de bispos com cheiro a ovelha, como diz o Papa”, afirma um padre com responsabilidades numa diocese do Norte. “Não podemos ter carreiristas, mas bispos próximos de toda a gente, na linha do Papa”, acrescenta, notando que o núncio tem uma actuação que muitos consideram desalinhada de Francisco.

“O Porto merece uma reflexão séria e um bispo à altura de D. António”, diz um padre da diocese. “Não tenho memória de alguém que tenha criado tantas pontes, dentro e fora da Igreja, em tantos sectores, num tão curto espaço de tempo”, afirma outro.

“Os católicos e a Igreja estão cansados do clericalismo”, acrescenta outro padre do Norte, para quem o bispo que morreu deixou um legado de proximidade: “Estar com D. António Francisco era estar com uma pessoa e não com alguém que puxava da sua condição de clérigo ou membro da hierarquia.”

A dança de nomes

Manda a tradição que o Porto receba alguém que já é bispo noutra diocese há algum tempo. Vários padres receiam que, no actual panorama, sejam poucas as soluções: António Marto seria uma das mais consensuais; mas dificilmente o bispo de Leiria-Fátima aceitaria a mudança: está com 70 anos, daqui a cinco terá de apresentar a resignação. A não ser que o pedido viesse do Papa. Por isso, o seu encontro com Francisco, há duas semanas, em Roma, pode ser um sinal. Mas ainda é prematuro.

Outro nome consensual é o do bispo de Setúbal, José Ornelas, que recolhe muitas opiniões favoráveis, pelo menos entre os clérigos ouvidos pelo EXPRESSO. Biblista, tem também um carácter de proximidade muito na linha do bispo que morreu.

António Couto, de Lamego, é outra hipótese, preferida por um dos padres ouvidos, mas que levanta receios de outros, pelo seu perfil académico que pode “não dar continuidade” à proximidade conseguida por D. António. Também os bispos de Coimbra (Virgílio Antunes), de Bragança (José Cordeiro) ou das Forças Armadas (Manuel Linda) são citados como nomes a ter em conta. José Traquina, até aqui bispo auxiliar de Lisboa, era outro nome apontado. Mas a sua nomeação para Santarém, na semana passada, acabou com essa remota expectativa.

Já Virgílio Antunes, bispo de Coimbra, pode ser um nome a ter em conta para a diocese de Évora. O Funchal, outro lugar em aberto, já teve várias listas de nomes, mas António Carrilho ainda não tem sucessor. O “Diário de Notícias” do Funchal, escrevia em Março que Nuno Brás, bispo auxiliar de Lisboa, tinha sido recusado pelo clero local, já depois de o mesmo lhe ter sucedido em relação a Angra, Santarém e Setúbal.

Bispos nomeados há pouco tempo (como o auxiliar do Porto, António Azevedo, há ano e meio) ou um padre escolhido directamente para bispo poderiam ser outras soluções para preencher o vazio agora aberto, “mas a prática não é essa”, diz um clérigo do Porto,

Para agravar o problema, o processo é quase sempre “demasiado lento”, queixa-se outro padre, e “o núncio só empata”. “Tenho muito medo” do que possa acontecer, desabafa outro clérigo portuense. E um terceiro diz: “A nossa esperança é que seja o Papa e não o núncio a tomar a decisão.”

“Não estávamos habituados”

A acção de D. António Francisco apontava para uma renovação no sentido da colegialidade e da prática sinodal, de pôr as pessoas a pensar em conjunto. “Não estávamos habituados ao seu estilo e à dinâmica que ele tentava imprimir”, desabafa um padre. “Ele marcou muito a diocese, mas esgotou-se demasiado.”

Um outro pároco do Porto, que acompanhou de perto D. António, diz que ele devolveu ao clero “a alegria de ser padre”. Sabia ouvir, não se impunha, conversava, ficava no coração das pessoas, afirma. Mas um padre conta ter sabido de um grupo de colegas e leigos que escreveram ao bispo a apontar bloqueios: algumas das pessoas que o rodeavam, insistência em dinâmicas como procissões e peregrinações... Não se muda de um dia para o outro o cristianismo popular, responde outro padre.

Além das dioceses que que mudarão de bispo – e incluindo já Vila Real, que entrará no lote em Abril de 2018 –, haverá nova mudança em Braga, em 2019, já que o arcebispo completa 75 anos em 5 de Março desse ano e deve, por essa altura, apresentar o pedido de renúncia à Santa Sé. Depois, além de eventuais saídas imprevistas por questões de saúde (há outros dois casos em que existe essa possibilidade), só entre 2021 e 2024 haverá novo leque de mudanças: os bispos de Viana do Castelo (2021), Leiria-Fátima (2022), Lisboa e Portalegre-Castelo Branco, (2023), Algarve e Beja (2024) completam os 75 anos, devendo, portanto, ser substituídos nesses anos.

Um dos medos do clero, sobretudo do Porto, é que se repitam os nove meses de espera que, em 2013-14, se verificaram até à a nomeação de D. António Francisco. “Foi uma excessiva lentidão. É grave esta incapacidade de a Igreja encontrar uma solução rápida, mesmo que ponderada”, afirma um padre.

(Por lapso, na edição impressa do Expresso saiu uma versão anterior deste texto, com alguns dados desatualizados. Esta é a versão atualizada e correta)