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Novo livro de Sócrates: 60 palavras para ir para a guerra

José Sócrates escreve sobre a utilização dos drones na guerra em “O Mal que Deploramos”, terceiro livro desde que deixou o Governo. O principal arguido da Operação Marquês — a acusação deverá ser conhecida dentro de um mês — nota que a nova arma trouxe novas psicopatias e que, apesar dela, o Ocidente está a perder este combate

O acorde inaugural teve sessenta palavras. Assim começou a guerra mais longa dos Estados Unidos, que parece não ter limites — nem nos inimigos, nem no tempo, nem na geografia. A guerra contra o terror dura há quinze anos: guerra sem campo de batalha, guerra clandestina, guerra sem prazo.

Quando foi votada, a 14 de setembro de 2001, ninguém parecia interessado em saber como ou quando acabaria — o que era urgente era começá-la. E começou com sessenta palavras. A base legal para todas as operações militares desde 2001 — desde a primeira operação antitalibã, no Afeganistão, até ao mais recente ataque no Iémen — é um pequeno texto legal intitulado “Authorization for Use of Military Force”, ou AUMF. Ei-lo:

“O Presidente é autorizado a usar toda a força necessária e apropriada contra as nações, organizações ou pessoas que ele constatar terem planeado, autorizado, cometido ou ajudado os ataques terroristas ocorridos a 11 de setembro de 2001 ou tenham albergado essas organizações ou pessoas, por forma a prevenir quaisquer atos de terrorismo internacional contra os Estados Unidos por essas nações, organizações ou pessoas.”

A história desta lei é a dos textos em momentos de aflição — pressa para escrever, pressa para aprovar, pressa para responder ao ataque. É certo que houve quem alertasse para o enorme poder que se ia dar ao Presidente de atacar qualquer pessoa, em qualquer lugar, em qualquer momento. O único limite parecia ser a ligação ao 11 de setembro. Mas, verdadeiramente, ninguém estava preocupado nem com o alcance nem com a duração: era necessário partir para a guerra.

A votação na casa dos representantes foi esmagadora a favor do texto: 420-1. O voto contra foi de Barbara Lee, uma congressista da Califórnia, em segundo mandato. No momento de usar da palavra, antes da votação, justificou o seu voto de forma emocionada com as mesmas palavras que tinha ouvido momentos antes, na cerimónia fúnebre das vítimas: “Que as nossas ações não nos transformem no mal que deploramos.” A coragem surge muitas vezes como profecia.