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EUA prendem iraniano com ligações suspeitas a Portugal

Homeland Security tem na mira uma empresa 
portuguesa de engenharia

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Investigação do departamento de segurança interna já levou à condenação de um engenheiro português

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

As autoridades norte-americanas deram um passo importante na investigação a uma rede internacional que importava ilegalmente tecnologia com fins civis e militares dos EUA para o Irão, e que se suspeita ter passado por Lisboa. O alegado cabecilha, Ghobad Ghasempour, um cidadão canadiano nascido em Teerão, foi detido em março passado, depois de vários anos a ser vigiado pelo Homeland Security, o departamento de segurança interna dos Estados Unidos. E tão cedo não deverá ser libertado.

As ligações do suspeito com empresários e figuras próximas do regime de Teerão terão sido determinantes para a criação do esquema, que contava com a cumplicidade de outro iraniano, Reza Rejali, dono da KSP Management (empresa tecnológica abrangida pelo pacote de sanções impostas pelos Estados Unidos ao Irão) e de um chinês, Yi Xiong.

De acordo com a acusação, fornecida ao Expresso pelo Departamento de Justiça, a tecnologia comprada nos EUA era exportada para países “onde o embargo não existia, como a China, ou onde as empresas conseguiam mais facilmente licenças para exportação, como Portugal, para depois serem transportadas de navio para os utilizadores finais, no Irão”.

A FEC, empresa de engenharia portuguesa suspeita de ser intermediária no negócio, teria sido contactada por Reza Rejali, há cerca de três anos. Uma troca de e-mails intercetados pela polícia norte-americana entre este empresário e os portugueses, durante o verão de 2015, revelam alguns pormenores: a empresa, com sede em Lisboa, iria importar uma máquina de lentes óticas, a 2002PG, do fabricante Ideal Aerosmith, recebendo 150 mil euros como adiantamento (num negócio de 550 mil euros) de uma empresa chinesa. “A Ideal Aerosmith confirmou ao Homeland Security que o sistema 2002PG pode ser utilizado em aparelhos militares de navegação, mísseis e dispositivos inteligentes”. A acusação refere ainda a passagem por Lisboa de câmaras de filmar para a China, que teriam o Irão como destino final.

Os equipamentos importados eram guardados num armazém situado no Cacém (Linha de Sintra), tal como o Expresso escreveu em agosto. Nessa altura, Paulo José Rocha, o advogado da empresa, foi perentório: “As máquinas que comprámos nos EUA, e que nunca chegaram a sair daquele país, tinham como destino a Turquia e a China. E não o Irão nem qualquer país na lista negra dos EUA. Além disso não temos qualquer cliente no Irão. Este caso tem muito a ver com a atual paranoia securitária nos EUA.”

Contactado novamente esta semana, o advogado reforça a inocência da empresa, rebatendo todas as suspeitas vindas do outro lado do Atlântico. “O nome do canadiano que foi detido não nos diz nada”, afirma.

Prisão de português

O caso está ainda longe do fim. Um colaborador externo da empresa, João Fonseca, foi detido em abril do ano passado, no aeroporto de Mineápolis, depois de formalizar a relação comercial com a Ideal Aerosmith. No interrogatório começou por omitir a viagem que tinha feito ao Irão, dois anos antes, mas acabou por confessar que tinha estado em Isfahan, cidade do Irão onde fica a sede da KSP Management.

Há um mês, um tribunal de Washington confirmou a pena de 20 meses de prisão para o português, condenado por conspiração ao “facilitar a tentativa de exportação e embarque de tecnologia controlada dos EUA para o Irão”.

Não se sabe quando é que este engenheiro, que se declarou culpado das acusações, será deportado para Portugal. A Justiça norte-americana prevê que regresse a Lisboa na próxima primavera, mas é esperado mais cedo em Portugal. “O João está detido nos EUA desde abril de 2016, prazo que terá de ser descontado no cumprimento total da pena. É como se tivesse estado em prisão preventiva”, alega Paulo José Rocha.

Em julho, uma extensa equipa do Departamento de Justiça e do Homeland Security veio a Lisboa interrogar os responsáveis da empresa. O Expresso sabe no entanto que a FEC e João Fonseca não são alvo de qualquer tipo de investigação em Portugal.