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Fernando, somos menos agora

Fernando Diogo, em pé, à esquerda, numa das reuniões preparatórias da Revista do Expresso, ainda no edificio da Duque de Palmela, em Lisboa (com Fernando Gaspar, José Manuel Saraiva e Henrique Monteiro – em segundo plano –, Miguel Calado Lopes e Paula Barreiros)

António Pedro Ferreira

Morreu um dos nossos. Fernando Diogo. 64 anos, jornalista, esteve muitos anos no Expresso. Quem o conheceu nunca se vai esquecer dele

Luísa Meireles

Luísa Meireles

Redatora Principal

A notícia apanhou-me de chofre, esta manhã, mal entrei no Expresso. Sentados em jeito de tertúlia, a Rosa, o Henrique e o Zé. Brinquei e parei. Os olhos da Rosa diziam tudo – o Fernando Diogo, o Fernando, morreu.

Ninguém sabia pormenores sem ser a notícia pura e dura. O Fernando deixou o Expresso há bastante anos, aproveitando uma das vagas de redução de pessoal. A redação mudou. Somos poucos já os que conviveram e se lembram do Fernando.

A Rosa (privilegiada é o termo exato aqui?) diz que falou com ele ontem. Que ele estava bem disposto e alegre, trocaram ideias sobre a situação das coisas e a vida. Normal entre dois amigos.

Mas eu não me lembro há quanto tempo não falava com o Fernando Diogo. Ia sempre sabendo dele pela Alice, a doce Alice que tinha um talento imenso para o acalmar. Sabia que ele não estava bem, consumido pela indisposição e mal-estar que lhe trazia o tratamento da doença renal que, inesperadamente, lhe surgiu nestes últimos meses. E quem conhecia o Fernando sabe bem como isso o aborrecia e punha de mau humor. O último mês tinha sido atroz nesse sentido. Fazer hemodiálise três vezes por semana é viver em função disso. Ele dizia que estava “mais ou menos bem”, mas não estava.

A doença dele era outra, em boa verdade, o coração. No sentido próprio e figurado do termo. Alegre e mordaz, era capaz das maiores fúrias quando estava de mau humor. Não era de aproximação fácil e sabia marcar distâncias quando queria. Era de amores e ódios. Gostava ou não gostava. Tinha o rastilho curto para quem o aborrecia. E era de uma discrição absoluta quanto a si próprio

Conheci o Fernando há uma eternidade – sim, acho que quando estamos a falar de quase quatro décadas é o que se aplica. Era o tempo das lides gloriosas do Sindicato dos Jornalistas, quando a classe vibrava, as assembleias gerais eram pejadas de gente que se espalhavam pelas escadas do velho edifício da Duques de Bragança. E onde pontuava a querida D. Vanda, que nos conhecia a todos pelo nome.

O Fernando era radical, temperamental, capaz de incendiar as assembleias e calar adversários com uma verve certeira. Éramos todos muito jovens. E o 25 de Abril também. Foi vice-presidente da direção do Sindicato nos anos oitenta e, mais tarde, voltou também aos trabalhos sindicais em outra lista. Perdoem-me, mas isto não é para detalhes.

Voltei a conviver com o Fernando no Expresso. Vindo do "Diário de Notícias" – foi lá que começou a sua vida profissional, como revisor – entrou no jornal em 1989, para a secção da Política. Sabia analisar as coisas, via longe, conhecia os truques e mais do que bem as pessoas, não gostava de ser enganado. Tinha faro bastante para saber por onde ir.

As vicissitudes da carreira – que como em outras não é nada plana – levou-o depois à direção de um nascente online, depois da Revista e do Cartaz, o antigo Caderno de Cultura, transformado em Atual. Bem me lembro dele esticar as pessoas ao máximo, aceitando trabalhos para o dia seguinte. Fiz alguns assim, para a Revista e o Cartaz. Mas era o Diogo e dava gosto ver o trabalho que resultava.

E, de novo, voltou à Política. Foi aqui que trabalhei de perto com ele. Ficava sentado à minha frente, cobria a Presidência da República, eu outras áreas temáticas e acontecia-nos muitas vezes ficarmos os dois sozinhos na secção, quando os outros jornalistas rumavam ao “templo” da política que era a Assembleia da República. Tínhamos longas conversas então. É desse Fernando que me lembro. Um Fernando mais calmo, sensato, e também capaz de defender com fúria os seus pontos de vista. Tenho saudades. A vivência do passado traz-nos mais próximos no presente.

Aprendi muito com ele. Por ironia, depois de ele sair do Expresso, fui eu que peguei na Presidência da República.

Reformou-se cedo de mais. O coração não lhe dava tréguas. Desde há meses, esperava um transplante de rim. Agora já não vale a pena. Ó Fernando!