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Eleições na Autoeuropa. Trabalho ao sábado mexe com todos

Foto Rui Minderico / Lusa

Nunca tantas listas concorreram à Comissão de Trabalhadores da empresa de Palmela. Da produção contínua em três turnos diários ao trabalho ao sábado, há muita coisa em jogo na vida de 3500 pessoas, que terão de fabricar 240 mil carros por ano

Até às 21h desta terça-feira, as urnas de voto da Autoeuropa deverão recolher a orientação dos seus 3500 funcionários na escolha da próxima Comissão de Trabalhadores (CT) para o triénio que terminará em 2020, para a qual concorrem seis listas – esta é a eleição mais disputada nos 20 anos da fábrica, a que nenhum trabalhador ficou indiferente.

Em causa está a discusão sobre a laboração contínua na fábrica de Palmela, com trabalho ao sábado e apenas dois dias de folga consecutivos de seis em seis semanas. Um debate que já originou a primeira greve na história da Autoeuropa – o segundo maior exportador português –, realizada a 30 de agosto.

Ultrapassado o ambiente de grande tensão vivido em Palmela no final de agosto, do lado dos trabalhadores há agora a noção exata do que pretendem em relação ao trabalho ao sábado e querem que a próxima negociação com a administração corra “bem”. O histórico coordenador da Comissão de Trabalhadores, António Chora – hoje reformado – já apelou ao bom senso entre as partes. Mas a administração da fábrica de Palmela também quer chegar a um acordo que permita concretizar o plano de produção de 240 mil carros por ano, e quer que este processo seja “rápido”.

Presidente da Volkswagen diz que acordo laboral é urgente

O próprio presidente-executivo da Volkswagen, Herbert Diess, já tinha referido ao Expresso, à margem do Salão Automóvel de Frankfurt, que “o acordo laboral é urgente” e que o seu grupo “espera que a situação laboral em Portugal esteja resolvida em outubro”, explicando que “o novo modelo que a fábrica de Palmela vai produzir, o T-Roc, é muito importante para o desenvolvimento da estratégia de mercado da VW nos próximos anos”.

A Volkswagen realizou em Palmela um investimento de 670 milhões de euros e pretende começar a colocar o seu novo carro T-Roc nos mercados internacionais antes do final de 2017, sendo urgente arrancar com a sua produção em três turnos diários, durante seis dias por semana. Também Pedro Almeida, diretor-executivo da SIVA, o importador da Volkswagen em Portugal, já tinha referido ao Expresso que “no mercado, há uma grande procura para o novo modelo T-Roc, sendo expectável que tenha um volume de vendas significativo em Portugal”.

Fernando Sequeira, que foi o último coordenador da CT demissionária – e que integra a Lista F, concorrente às eleições desta terça-feira – referiu ao Expresso que não faz comentários sobre as propostas das listas concorrentes enquanto não estiver encerrada a votação, explicando que é expectável que antes das 22h30 não haja resultados apurados.

Processo vai ser “o mais rápido possível”

“Depois das eleições é preciso marcar uma data para que os membros eleitos se reunam e seja nomeado um novo coordenador e uma Comissão Executiva”, esclareceu Fernando Sequeira, adiantando que “só nessa altura, com um novo coordenador da CT, é que serão retomadas as negociações laborais”. “Todos queremos que estes processo seja o mais rápido possível”, diz.

Além da Lista F de Fernando Sequeira (conotado com o Bloco de Esquerda), concorre a Lista A liderada por Paulo Marques, que reúne um grupo de trabalhadores administrativos da Autoeuropa. Na Lista B está Isidoro Barradas, sindicalista do Sindel, que integra a UGT. Na Lista C está José Carlos Silva, que pertence ao sindicato SITE Sul, da CGTP. Na Lista D está Fausto Dionísio e na Lista E está Fernando Gonçalves.

A última negociação laboral – malograda, que culminou na primeira greve realizada na fábrica de Palmela – foi refutada e repudiada pelos trabalhadores e levou à demissão de Fernando Sequeira, sucessor de António Chora, o histórico coordenador da CT da Autoeuropa desde 1996, que se tinha reformado no final de 2016.

Agora, todos os trabalhadores da fábrica de Palmela estão focados numa solução eficaz para o novo enquadramento laboral, tal como o próprio grupo Volkswagen, que também tem vindo a testar várias hipóteses que possam ser viáveis.

Psicólogas contactam casais de trabalhadores

Nesse sentido, a Volkswagen tem vindo a contactar os casais de trabalhadores com filhos para encontrar horários que resolvam as necessidades de produção e não colidam com a vida familiar dos trabalhadores. Estas reuniões têm sido realizadas por duas psicólogas, que estão a ensaiar soluções práticas já para novembro, no cenário da produção contínua de três turnos diários de segunda a sábado. O processo de negociação do novo horário de trabalho na Autoeuropa começou no início de 2017 e parou em julho, depois dos trabalhadores terem recusado, em referendo, um pré-acordo para o trabalho ao sábado.

A tese de que a remuneração extra não é o fator decisivo para aceitar o trabalho ao sábado – valorizando a não obrigatoriedade do sexto dia de trabalho consecutivo e a salvaguarda de soluções que garantam as condições de saúde dos trabalhadores – é defendida por várias listas concorrentes à CT. A mais explícita de todas em relação à salvaguarda da saúde dos trabalhadores é a Lista E, de Fernando Gonçalves.

O Sindicato das Indústrias Metalúrgicas e Afins (SIMA) também já tinha feito contactos com a administração da Autopeuropa para assegurar que seria posssível reduzir o número de dias de trabalho ao sábado para cada trabalhador, salvaguardando o cumprimento dos objetivos de produção do T-Roc. O secretário-geral do SIMA, José António Simões, admitiu que a Autoeuropa está aberta a “rever horários”.

Os sindicalistas do SITE Sul, afeto à CGTP, também mantiveram uma reunião com a administração da Autoeuropa, que consideraram “muito produtiva”. O novo horário laboral da Autoeuropa que não reuniu o consenso dos trabalhadores em quatro plenários, implicaria uma folga fixa ao domingo e folgas rotativas ao longo da semana, que poderiam ir rolando sequencialmente de segunda até sábado (o que faria com que os trabalhadores só gozassem dois dias seguidos de folga quando a folga rotativa chegasse ao sábado), concedendo um valor de remuneração adicional a cada trabalhador –eventualmente de 175 euros mensais – mais 25% de subsídio de turno e ainda um dia de férias adicional.