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De Nova Iorque para Coelheiros

Jose Carlos Carvalho

Alberto e Gabriela podiam ter comprado uma herdade em qualquer sítio do mundo, mas apaixonaram-se pelo Alentejo e pelo legado que ali podiam construir. Fomos à Herdade dos Coelheiros conhecer os seus novos donos, um casal brasileiro que é "cidadão do mundo"

Alberto Weisser tem aparência de tudo menos de brasileiro. Alto, claro de pele e de cabelo, e com um sotaque anglófono carregado a denunciar as origens alemãs e os muitos anos de Nova Iorque, só a simpatia e amabilidade remetem para o nosso país irmão. Contudo, Alberto afirma: "Depois de conhecer Portugal, percebi por que é o Brasileiro é tão simpático". A humildade e a atenção a todos os trabalhadores é um traço de carácter do novo dono da Herdade de Coelheiros, em Igrejinha, uma vila perto de Arraiolos. O executivo de topo trocou Nova Iorque, onde viveu 15 anos, por uma herdade de 850 hectares no meio do campo - e só lamenta ainda não viver lá a tempo inteiro. "De seis em seis semanas, tenho de viajar para Nova Iorque ou Singapura", onde mantém compromissos profissionais - seja no "board" de administração da Pepsi, de que é administrador não-executivo, seja em Singapura, onde presta consultoria ao governo. Diretor mundial da Bunge (a maior empresa mundial de óleos e 'commodities') entre 1999 e 2013, conhece bem o mundo do agro-alimentar, e achou, em conjunto com a mulher, Gabriela Maioscioli, que gostaria de ter um projeto pessoal nessa área. Poderia ser olival ou vinha, não tinha uma ideia formada quando começou a ver terrenos em Portugal, em 2014. Mas quando pousou os olhos pela primeira vez em Coelheiros, em 2015, soube que era aquela que queria. Não estava à venda. Mas Alberto comprou.

Vista da entrada da Herdade de Coelheiros, com 800 hectares, no Alentejo

Vista da entrada da Herdade de Coelheiros, com 800 hectares, no Alentejo

Jose Carlos Carvalho

O empresário de origem Paulista tinha ido ver a propriedade do outro lado da estrada, mas o pomar de nogueiras, a vinha e o montado de Coelheiros chamaram-lhe a atenção. Na altura, a herdade estava nas mãos dos filhos de Joaquim Silveira, que percebendo o desígnio que Alberto tinha intenção de cumprir, venderam. De 2015 para cá, o objetivo foi um só: apostar apenas no melhor, melhorar o que há, eliminar tudo o que não se enquadra nesse espírito. Relançar a "marca" Tapada de Coelheiros e restituí-la ao patamar de excelência que teve em tempos (quando em 1996, conquistou o prémio de "Melhor Vinho de Portugal") está na base de tudo. Para apostar unicamente na qualidade e na diferenciação, Alberto ouviu muitas opiniões, rodeou-se de uma equipa, contratou um novo enólogo, Luís Patrão, e fez opções, algumas ousadas. As castas internacionais, por exemplo, foram arrancadas, incluíndo o famoso Chardonnay que caracterizou a casa, há uns anos, focando-se o projeto exclusivamente nas castas autóctones. A casa principal foi tornada completamente alentejana", valorizando a região, e os alojamentos dos trabalhadores foram refeitos e amplamente melhorados, para promover o ambiente de trabalho.

Os novos vinhos da Herdade de Coelheiros chegam ao mercado em outubro. A aposta é exclusivamente na qualidade

Os novos vinhos da Herdade de Coelheiros chegam ao mercado em outubro. A aposta é exclusivamente na qualidade

Jose Carlos Carvalho

Os rótulos das garrafas foram redesenhados, mantendo a trama do ponto-cruz dos tapetes de Arraiolos - a marca dos antigos rótulos -, mas dando-lhe uma sofisticação que não existia, com um relevo bonito em tons dourados. Os preços acompanham a vontade de Alberto de vender o vinhos português no mundo como um dos melhores, sem medo de promover o produto. Assim, reduziram-se a três as referências da casa - ficam apenas o Coelheiros, o Tapada de Coelheiros, e o Vinha do Taco, nos tintos -, e os preços acompanham esse reposicionamento para o segmento alto (10€, 30€ e 45€). Na mesma lógica, reduziu-se a produção de 400 000 para 150 000 garrafas/ano. "Queremos ir devagar e com qualidade", justifica Alberto. Os enófilos poderão este ano despedir-se do Chardonnay com uma última edição (limitada) de garrafeira, o Coelheiros Chardonnay 2016, que vem com um belíssimo rótulo de um pavão estilizado. E os colecionadores terão à sua disposição na loja da Herdade os vinhos mais antigos, até 2007. Os novos vinhos entram no mercado já em Outubro, prova da rapidez de trabalho que Alberto e a sua equipa conseguiram fazer em cerca de dois anos.

Jose Carlos Carvalho

Um brinde ao passado e ao futuro

No jipe de Alberto, iniciamos o passeio pela propriedade. Com orgulho, mostra cada recanto de Coelheiros - os 40 hectares de nogueiras (que representam 6% da produção nacional de nozes), os 600 hectares de montado, que encerram a vindoura cortiça; as 700 ovelhas, vendidas no Natal e na Páscoa; a antiga zona de caça, onde se passeiam gamos; a barragem, com capacidade para 500 milhões de litros, que lhes assegura autonomia no abastecimento - e claro, os 50 hectares de vinha. Alberto vai mostrando-as uma por uma. A da Sobreira e da Ribeira, de sequeiro, a do Taco, assim nomeada por ser encimada pelo pavilhão de caça (ou "taco", o local onde se comia antes de partir para as caçadas). Mostra o lugar das antigas vinhas Chardonnay que foram retiradas, as mais velhas, de 1991, e as que foram desbastadas para ganharem viço. Os 5 hectares de vinho orgânico, que em breve, se estenderão aos 50 hectares. E amiúde, vai pedindo desculpa pelos eucaliptos que mandou arrancar e que ainda não foram retirados do local, como se isso nos pudesse estragar a vista do passeio..


Explica que a vindima deste ano muito atípico e teve se se fazer em 10 dias, em vez de num mês, como era habitual. Nessa altura, não poupa elogios aos Portugueses, afirmando-se impressionado com a sua "seriedade". Ele que trabalhou com Alemães, garante que o povo luso está à altura em termos de capacidade. "Aqui a palavra vale", confessa. Positivamente surpreendido com o acolhimento lusitano, a suposta casa de férias alentejana tornou-se morada a tempo inteiro. "Fico feliz por ter descoberto este sítio. Estava escondido...", partilha. E completa: "Tenho a sorte, durante um tempo, de poder cuidar disto". Aludindo à vasta História da Herdade de Coelheiros, que existe desde 1423, pela mão de D. Ruy de Sousa, Alberto sente-se honrado por ter aquela terra agora em mãos, e sente a responsabilidade de contribuir de forma positiva. "Quero respeitar, fazer o bem". Por isso, o brinde que o leva a erguer o copo ao almoço é "ao passado e ao futuro."

Alberto e Gabriela na sala das barricas de Coelheiros, brindando ao sucesso do projeto

Alberto e Gabriela na sala das barricas de Coelheiros, brindando ao sucesso do projeto

Jose Carlos Carvalho

A mulher por trás do homem


Mudar de Nova Iorque para a vila de Igrejinha pode parecer pouco glamoroso, mas para este casal muito viajado, é mais uma paragem no mundo - com tudo o que de bom o descanso e o campo podem oferecer. As raízes já faziam adivinhar a viagem. Apesar de serem ambos naturais de S. Paulo, no Brasil, Alberto é filho de mãe alemã e de pai suíço (daí o ar germânico), e Gabriela é fruto de mãe italiana e pai franco-suíço. O sangue europeu e a mistura de várias culturas acompanharam sempre a vida deste casal de primos em segundo grau, que nunca haviam olhado daquela forma um para o outro (até ao dia..). Alberto saiu cedo do Brasil. Com 25 anos, trocou o país pelos EUA, onde construiu uma carreira de sucesso. A Big Apple foi a sua casa durante 15 anos.

Gabriela Maioscioli, mulher de Alberto e nova proprietária de Coelheiros, entre as nogueiras da herdade. A gastronomia é uma das suas paixões - e um dos futuros projetos.

Gabriela Maioscioli, mulher de Alberto e nova proprietária de Coelheiros, entre as nogueiras da herdade. A gastronomia é uma das suas paixões - e um dos futuros projetos.

Jose Carlos Carvalho

Para Gabriela, apaixonada por livros e por gastronomia, as viagens foram fonte de enriquecimento constante. Dela retira inspiração e ideias, que concretiza rapidamente, visto ser muito ativa. Em S. Paulo, tinha uma livraria especializada em gastronomia e vinhos, com obras muito específicas, que atraía pessoas de todo o mundo. A livraria era também escola de cozinha e café. Talvez por isso, Anthony Bourdain pediu-lhe para ser sua anfitriã, num programa que rodou na cidade. Certamente por isso, o seu primeiro projeto para a Herdade, após a consolidação do vinho, é dar pequenos 'workshops' de gastronomia ali e em Lisboa. Foi assim que ela aprendeu receitas de inúmeras culturas, quando acompanhava Alberto em viagem e enquanto ele trabalhava. Por agora, está a treinar receitas de bolos com nozes, matéria-prima abundante em Coelheiros (está no caminho certo, conferimos...). Apaixonada pelo Japão, graceja que uma das claúsulas pré-nupciais inclui uma viagem por ano com Alberto a este arquipélago de cultura sofisiticada e rica. Confessa, de resto, que é a única coisa de que sente falta de Nova Iorque - a quantidade de opções de restaurantes japoneses. Isso, e "uma loja que existe a 9 quarteirões de casa onde encontro qualquer ingrediente de qualquer tipo de gastronomia a qualquer hora". Mas no Alentejo já se sente em casa. O mesmo sucede com Alberto. "Agora, quero retribuir", sublinha.