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“A ideia é bombardear os olhos”

Pedro Pedro e Carlos Gil mostraram em Milão que a moda nacional está de boas cores, e que cor não faltará ao verão de 2018

André de Atayde

André de Atayde

reportagem, em Milão

Jornalista

Foto André de Atayde

Houve tempo em que a chamada luz negra invadia quase tudo o que fosse discoteca. O efeito das lâmpadas que não sofrem com a excitação da energia quando em contacto com o fósforo no seu interior (não têm este componente) e que por esse motivo deixam passar toda a radição ultravioleta faziam sobressair, e em muito, as cores. Esse tempo, feliz para alguns infeliz para outros, acabou.

Fotos Ugo Camera

Até que em 2017, no espaço La Cavallerizze em Milão, apareceu o designer de moda que é conhecido por ter dois nomes próprios a mostrar que talvez agora faça sentido voltar-se a usá-las. E em força, no que foi uma abordagem que nunca se viu em Pedro Pedro - a cor fluorescente. "A ideia é bombardear os olhos", confessou. E a missão foi bem cumprida.

"Basicamente o conceito começou com uma reflexão sobre o "1984" (de George Orwell) e sobre esta coisa assustadora que é as regras serem tabeladas para toda a gente, de forma indiferente e aplicado a tudo. Acho que estamos a caminhar para um lado de quase uniforme ou farda, de sermos todos iguais. Respeitamos sempre as mesmas regras, fazemos sempre a mesma coisa".

Verde, rosa, azul, amarelo, laranja. Tecidos técnicos, malhas, gangas, nylon e poliamidas. Tecidos silenciosos e "outros que fazem barulho". Uns pesados e outros leves como paraquedas. Houve o mundo do primeiro Pedro e o do segundo Pedro. Ou o contrário. Ou apenas uma reinvenção e um querer arriscar e sair da zona de conforto sem cortar à faca, e pela raíz, o que foi habituando o público.

O manifesto de Pedro Pedro faz sentido numa altura em que a proliferação das marcas de 'fast fashion' (ou consumo imediato) é enorme, não faltando exemplos disso mesmo; quem é que nunca chegou ao trabalho e esbarrou em alguém com uma peça de roupa igual?! "Sejam diferentes, atirem as coisas para cima, brilhem e usem o que quiserem", diria a finalizar.

Roupa de arquitetura contemporânea e tropical

É arriscado começar um desfile pelo final mas foi (quase) isso que Carlos Gil fez quando mandou entrar 15 modelos ao mesmo tempo, deixando apenas duas nos bastidores. Há sempre o risco de não haver tempo para trocar de roupa e isso resultar numa quebra de ritmo. Não aconteceu e o resultado foi perfeito. E o pretendido.

O pequeno exército de mulheres asiáticas, africanas e europeias fez soltar vários 'wows' a quem assistia na plateia. Pelo número de modelos a desfilar, a paleta de cores, os coordenados de inspiração arquitetónica, mas principalmente pela força que o movimento criou. Estava apresentada a (sua) selva urbana em Milão num formato de super "girl power".

Foto Ugo Camera

"As minhas coleções são sempre feitas para mulheres muito seguras e firmes, talvez um pouco austeras, mas que nunca deixam de ser elegantes. Uma mulher simples mas sofisticada que tem de estar sempre confortável", ou não fosse Carlos Gil um adepto do 'athleisure', roupa desportiva que pode ser usada em ocasiões ligeiramente mais formais e que esteve, naturalmente, presente ao longo de todo o desfile.

Padrões e estampados, sedas, redes, sarjas e lantejoulas. Em vestidos compridos e de pontas soltas. Coordenados inspirados na arquitetura contemporânea "em que a floresta entra dentro das casas, e que partiu de uma viagem que fiz a Singapura onde as torres enormes têm jardins e piscinas no topo. Daí algumas das cores que usei como o verde das plantas, azul do céu, rosa das nuvens e o amarelo do sol, que têm a ver com essa noção cromática", explicou. O mundo de Carlos Gil é, efetivamente, a cores.

O "filho adotivo do Fundão", região onde as cerejas são maiores e mais doces, e cidade onde tem o seu atelier de trabalho, levou a Milão uma coleção para a mulher cosmopolita, bem pensada e, indo buscar influência ao conceito, arquitetonicamente bem feita.

*O Expresso viajou a convite do Portugal Fashion