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Sociedade

Alzheimer entre a euforia e a desilusão

Depois do fracasso de vários ensaios clínicos, os cientistas procuram novas estratégias de combate à doença

Virgílio Azevedo

Virgílio Azevedo

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Redator Principal

Tiago Miranda

Tiago Miranda

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Fotojornalista

Investigadores de todo o mundo reuniram-se durante esta semana na Cimeira Global de Alzheimer na Fundação Champalimaud, em Lisboa. Mas a verdade é que os avanços científicos da doença, que muitos já consideram uma pandemia, não estão a passar pela sua melhor fase, o que é pouco animador face às perspetivas de envelhecimento crescente da população.

Albino Oliveira Maia, diretor da Unidade de Neuropsiquiatria e investigador da Fundação Champalimaud — foi orador na cimeira e presidiu a à sessão sobre “Estimulação Cerebral”—, reconhece que “houve um período de enorme entusiasmo há umas décadas em relação à doença de Alzheimer, com a identificação de determinadas proteínas que estão alteradas ou em quantidades excessivas em pessoas que têm esta doença”. Nessa altura a investigação avançou no seguinte caminho: “Se estão a provocar a doença e se resolvermos a acumulação ou a modificação dessas proteínas, nomeadamente a beta-amiloide e a tau, vamos curar a doença.” Mas o psiquiatra conta que “os ensaios clínicos feitos com substâncias químicas que dissolvem estas proteínas têm sido negativos, o que provocou tremendas desilusões”.

Albino Oliveira Maia

Psiquiatra, diretor da Unidade de Neuropsiquiatria e investigador da Fundação Champalimaud

“Os ensaios clínicos com substâncias que dissolvem as proteínas alteradas ou acumuladas em excesso no cérebro têm sido negativos, o que provocou tremendas desilusões”

“Os ensaios clínicos com substâncias que dissolvem as proteínas alteradas ou acumuladas em excesso no cérebro têm sido negativos, o que provocou tremendas desilusões”

tiago miranda

Outro orador, Bryan Strange, da fundação espanhola CIEN e da Universidade Técnica de Madrid, é da mesma opinião: “Foi um desapontamento para todos nós cientistas, mas também nos levou a procurar outras estratégias de investigação e a concluir que quanto mais cedo lidarmos com a doença mais depressa chegaremos a um tratamento eficaz, numa altura em que os danos provocados no cérebro ainda não são visíveis.” Strange está, por isso, a trabalhar no desenvolvimento de um modelo que permita prever a enfermidade.

Encontrar sinais precoces

O fracasso acabou por abriu dois novos caminhos de investigação. No primeiro, os cientistas consideram que a doença está, de facto, a ser identificada numa fase muito tardia, provavelmente décadas depois de o problema ter início do ponto de vista da acumulação daquelas proteínas no cérebro. “Portanto temos de identificar precocemente as pessoas com Alzheimer antes de terem sintomas, para podermos testar se o uso de daquelas substâncias numa fase mais inicial vai prevenir o desenvolvimento da doença”, explica Albino Maia. “Isto exige uma investigação muito intensiva para encontrar os sinais precoces no cérebro de pessoas aparentemente saudáveis o que levanta, além de questões científicas e metodológicas importantes, questões éticas fundamentais.”

No outro caminho, os cientistas avançaram com a hipótese daquelas proteínas não terem uma relação direta com a fisiopatologia (estudo das funções anormais) da doença, ou poderem ser mesmo formas de o sistema nervoso se proteger de outras coisas que estão a acontecer. “E isto abriu o caminho para a investigação em formulações fisiopatológicas, de causa e de mecanismo, distintas daquelas que se começaram a colocar há 20 ou 30 anos com as proteínas beta-amiloide e tau”, esclarece o cientista.

Rui Costa

Professor de Neurociências e Neurologia da Universidade de Columbia (Nova Iorque) e investigador de Neurociências da Fundação Champalimaud

“O que todos os cientistas querem são formas de prevenir a doença de Alzheimer e, no caso de esta ser diagnosticada, retardar a sua progressão, porque um em cada três idosos morre de demência”

“O que todos os cientistas querem são formas de prevenir a doença de Alzheimer e, no caso de esta ser diagnosticada, retardar a sua progressão, porque um em cada três idosos morre de demência”

tiago miranda

E há outras possíveis causas da doença? “Talvez efeitos tóxicos de algumas proteínas que se acumulem no cérebro”, adianta Albino Maia. “E efeitos imunológicos e inflamatórios, uma teoria muito forte.” Neste caso, há alguns estudos genéticos de dezenas de milhares de pessoas com Alzheimer comparadas com pessoas saudáveis que pretendem verificar quais os genes que poderão estar sobrerrepresentados nas populações doentes, “o que também nos dá algumas pistas sobre as possíveis trajetórias dos mecanismos da doença”.

Resposta do sistema nervoso a uma lesão?

Uma das frentes de investigação tem sido o estudo dos genes ligados à relação imunológica, porque poderá haver uma desregulação do sistema imune. “E pode ser através de uma lesão imune, cujas características mais finas desconhecemos ainda, que ocorre a lesão do sistema nervoso, podendo ser biomarcadores como a proteína beta-amiloide e outras uma resposta do sistema nervoso a essa lesão que não estamos a ver diretamente”, admite o psiquiatra. A ideia é, aliás, transversal a outras doenças, como a depressão, obesidade ou doenças cardiovasculares: uma desregulação imune que aumente a inflamação e que por sua vez cause as doenças.

Bryan Strange

Investigador da Fundación CIEN (Centro de Investigación Enfermedades Neurológicas) e da Universidade Técnica de Madrid

“Quanto mais cedo lidarmos com a doença mais depressa chegaremos a um tratamento eficaz”

“Quanto mais cedo lidarmos com a doença mais depressa chegaremos a um tratamento eficaz”

tiago miranda

“Há também biomarcadores comportamentais, sinais que surgem muito cedo e que podem não parecer problemas mas que antecipam o aparecimento da doença de Alzheimer”, acrescenta Rui Costa, “podendo ser importantes na sua prevenção”. O professor de Neurociências e Neurologia da Universidade de Columbia (Nova Iorque) e investigador da Fundação Champalimaud — que apresentou na conferência em Lisboa o Nobel da Medicina de 2014, John O’Keefe — diz que a investigação está a seguir várias frentes.

Terapias genéticas

“Hoje há cientistas a fazer apostas arrojadas como terapias genéticas para reduzir as proteínas que estão alteradas ou estimulação cerebral não invasiva com ondas elétricas, mas o grande desafio é perceber como é que as células do cérebro morrem e o que acontece antes de elas morrerem que as torna disfuncionais, tentando controlar aí o que se passa.” Outra aposta é “nas terapias celulares através de células estaminais, tentado substituir as que morreram no cérebro”. É um processo que já está a ser usado a nível experimental no tratamento de outras enfermidades neurológicas, como a doença de Parkinson.

“Mas o que todos os cientistas querem são formas de prevenir a doença e, no caso de esta ser diagnosticada, retardar a progressão”, sublinha Rui Costa. Afinal, trata-se de uma doença mortal “e um em cada três idosos morre de demência”. Esta neurodegeneração “é a causa de problemas que muitas vezes não são associados à sua mortalidade, como a falha de determinadas funções vitais”. Há 50 milhões de pessoas com demência em todo o mundo e todos os anos são registados 1,5 milhões de novos casos, a maioria deles de Alzheimer.