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Quem vê caras… abre telefones

reuters

A Apple mostrou a semana passada três novos iPhone sendo que o adjetivo “novo” só se aplica, na realidade, ao iPhone X (diz-se: Ten, ou dez). Mesmo este último, como escreveu o meu colega Sérgio Magno NO EXPRESSO, não é particularmente excitante. É fácil de perceber porquê. Afinal, o terminal que marca uma “década de iPhone” e que teve honras de estrear o anfiteatro Steve Jobs (na nova sede “babilónica” da Apple que vai abrir portas no final do ano e que terá custado para cima de 5 mil milhões de dólares) tem muito pouco de disruptivo. Não vale a pena estar a bater na falta de capacidade de inovação da Apple (que tem marcado os iPhone nos últimos 5 anos), mas, na realidade, desde o ecrã OLED que ocupa todo o chassis, à estabilização ótica para ambas as câmaras traseiras, passando pela “morte” do botão Home… tudo isto já foi feito por outros fabricantes que militam dentro do “mundo Android”.

Chegar primeiro e chegar em último, mas...

E aqui vale a pena fazer um esclarecimento: a Apple chegou primeiro em alguns casos e em último na maioria das vezes. Mas isso interessa muito pouco para o sucesso da empresa. Rapidamente: a Apple não foi a primeira a fazer um tablet (já Bill Gates os tinha mostrado muito antes de Steve Jobs) - no entanto, o iPad lidera o segmento; também não foi a mente dos engenheiros de Cupertino a primeira a vislumbrar o potencial de um smartwatch. No entanto, a Apple chegou muito depois e hoje, recorde-se, o Apple Watch é o relógio inteligente que lidera o top mundial de vendas; e há, claro, o caso mais paradigmático, o iPhone. Há dezenas de smartphones que viram a luz do dia antes de Steve Jobs, em janeiro de 2007, ter empunhado o terminal que estreou uma interface tátil multitoque no generoso ecrã. Já todos sabemos como é que acaba a história: o iPhone é o smartphone mais vendido no mundo.

Muito, muito dinheiro

Este sucesso comercial é suficiente para manter a Apple como uma das empresas mais valiosas no mundo e com dinheiro em caixa para, se quiser, comprar algumas das tecnológicas mais sexy. Como A “FORTUNE” relembra, a empresa liderada por Tim Cook tem, disponíveis para gastar, mais de 260 mil milhões de dólares. É muito dinheiro. Dava para comprar a Tesla, a Uber, a Airbnb… enfim, com os trocos que tem no bolso, a Apple quase podia pagar a dívida portuguesa!

Todo este dinheiro advém das suas várias áreas de negócio (com a grande contribuição do iPhone), mas também da capacidade de inovação que os analistas veem na empresa de Cupertino. E se, como já referi, o X não é particularmente surpreendente, o mesmo não podemos dizer de uma tecnologia que a Apple revelou: o Face ID.

E se a polícia obrigar a olhar para o telemóvel?

A câmara frontal do iPhone Dez utiliza uma série de tecnologias para conseguir fazer um registo apurado da face do utilizador. Este processo biométrico vem para substituir a impressão digital porque, diz a Apple, com o reconhecimento facial contido na Face ID “há apenas uma hipótese em 1 milhão de alguém ter uma face igual à do utilizador” e que permita o tal desbloqueio.

Uma estatística bem mais interessante que o valor de 1 para 50 000 que era o indicado para a impressão digital. Assim que terminou a conferência de imprensa, a Face ID tornou-se motivo de conversa na Internet. Até EDWARD SNOWDEN considerou a tecnologia interessante, embora esteja expectante sobre a sua robustez. Depois, surgiram os habituais “arautos da desgraça” a colocar em causa até que ponto é que a polícia, a partir de agora, não iria obrigar eventuais suspeitos a desbloquearam o iPhone bastando, para isso, que olhassem para ele.

É preciso esclarecer que já com a impressão digital poderia ser possível, caso o mandato judicial o preveja, que as forças da autoridade exigissem a colocação do dedo no botão Home. E, assim, abrir os conteúdos do telefone à polícia. Nada mudou. Para desbloquear o terminal vai ser necessário o mesmo mandato judicial. E a Apple até já colocou um sistema que permite desabilitar a Face ID rapidamente: basta tocar 5 vezes seguidas no botão power do dispositivo. Quando este processo é efetuado, o iPhone volta a pedir a palavra-passe e desliga o Face ID.

“Mas estás a falar comigo ou a olhar para o telefone?”

A tecnologia desenvolvida pela Apple é bem mais robusta do que as que já estão a funcionar em alguns Android. No entanto, os compradores do iPhone Dez vão ter de habituar-se a olhar para o ecrã sempre que querem desbloquear o telefone. Um movimento narcisista (porque é possível ver a face espelhada no ecrã sempre que o desbloquear) que não é tão discreto quanto o colocar o dedo no botão. O que poderá vir a dar azo a alguns mal-entendidos: “Mas estás a falar comigo ou a olhar para o telefone?”

Por isso, calem-se os “Calimeros” do costume e abracem todo o potencial de uma tendência tecnológica (a massificação da segurança biométrica) que hoje está nos telefones, mas que está destinada a fazer parte do nosso quotidiano. Afinal, quem é que ainda tem paciência para escrever um código para desbloquear o telefone?