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A dose é doce

João Miguel Salvador

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Jornalista

Sofia Miguel Rosa

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Enfrentar a realidade de frente e mudar de comportamentos é o mais difícil (e mesmo quando esta está diante dos nossos olhos é sempre possível desviar o olhar), mas talvez seja difícil ignorar uma instalação gigante em plena Times Square. Foi assim que Nova Iorque acordou a 22 de agosto, com 40 toneladas de açúcar depositadas em frente à esquadra da polícia. O caso não é para menos: o consumo está em níveis demasiado altos e é quase criminosa a quantidade de açúcar que os mais novos ingerem. Nos Estados Unidos, serão cerca de 40 toneladas todos os dias, mas é claro que ninguém dá açúcar refinado aos filhos, colher a colher.

O problema, tanto do lado de lá do Atlântico como no de cá, é que o açúcar está em quase todos os produtos alimentares e surge nas mais variadas formas. Por vezes estão bem escondidos na composição dos alimentos processados e nem sempre é fácil detetá-los à primeira vista. Nos rótulos surgem palavras como frutose, glicose, maltose, sacarose e dextrose, mas também xarope de milho, açúcar invertido, xarope de glucose, sumo de fruta concentrado ou melaço, mas a verdade é que todos são sinónimo de açúcar. E por vezes em quantidades muito acima do que se julga.

Não é por falta de chamadas de atenção que o mundo continua a ingerir demasiados produtos açucarados, mas este é também o mundo em que muito do que se consome vem em embalagens, em vez de ser cozinhado em casa com alimentos reais (e isso só dificulta o processo). Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) — que tem vindo a intensificar os alertas para os riscos dos excessos cometidos nos últimos anos — o consumo de açúcares simples adicionados à alimentação humana deve estar abaixo dos 10% da energia consumida diariamente, sendo que o ideal passaria pela aproximação aos 5%.

Em termos práticos, o total diário de açúcar adicionado aos alimentos não deveria ultrapassar as seis colheres de chá de açúcar. Pode parecer pouco, mas a verdade é que um adulto que consuma 2500 Kcal diariamente só deve ir, no máximo, até às 250 Kcal/dia de açúcar, o que dá apenas 62,5g (uma vez que cada grama deste hidrato de carbono tem 4 Kcal). O problema é que estamos bem longe disso, e as crianças portuguesas não são exceção. De acordo com a OMS, o consumo de açúcar das crianças portuguesas equivale a perto de um quarto da energia ingerida diariamente, cinco vezes acima do ideal apresentado pela organização da ONU.

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Em Portugal, a realidade parece ser pior do que à partida se julgaria e são vários os estudos que o demonstram. O Global Burden of Diseases da OMS aponta o dedo aos hábitos alimentares inadequados como fator de risco que mais contribui (em 19%) para a perda de anos de vida saudável na população portuguesa. Este afastamento da dieta mediterrânica, em conjunto com a adoção de novos alimentos menos saudáveis no quotidiano, está a levar os portugueses a ingerirem demasiados açúcares simples, um hábito que potencia o aparecimento de diversas patologias. Por cá, mais de metade da população portuguesa (5,9 milhões de pessoas) é obesa ou está em risco de o ser. Os números são avassaladores.

De acordo com o “Inquérito Alimentar Nacional e de Atividade Física”, apresentado este ano, o contributo dos alimentos dos grupos doces, refrigerantes (excluindo os néctares), bolos (incluindo pastelaria), bolachas e biscoitos, cereais de pequeno-almoço e cereais infantis para o consumo de açúcares simples é de 30,7%. E os valores são ainda mais alarmantes nas camadas jovens. “Os açúcares simples provenientes dos alimentos dos grupos referidos representam mais de 10% do aporte energético em 15,4% da população nacional, sendo esta prevalência superior nos adolescentes do sexo masculino (30,5%) e nas adolescentes do sexo feminino (19,6%)”, lê-se.

No trabalho, promovido pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e elaborado em consórcio com outras entidades, conclui-se ainda que o consumo médio nacional de açúcares simples é de 90 gramas diários — cerca de 19,8% do valor energético total (VET) — , com este contributo a ser superior nas crianças (27,1%) e adolescentes (19,8%), que apresentam valores superiores aos da restante população. Mas não se pense que a realidade afeta apenas uma parte dos portugueses. “A prevalência do consumo de açúcares simples total em quantidades superiores a 10% do VET é de 98,3% no sexo feminino e de 95% no sexo masculino”, com os cidadãos que consomem a quantidade de açúcar recomendada internacionalmente a não irem além dos 3% do total. Para dar uma imagem cada um de nós come o equivalente a 15 pacotes de açúcar por dia, e isso são mais de 30 quilogramas (32850 gramas para sermos mais precisos) por ano.

PREOCUPAÇÃO CRESCENTE

Apesar dos números ainda alarmantes — a título de exemplo, cerca de 1,5 milhões de portugueses (17% da população) consomem pelo menos um refrigerante ou néctares por dia, dos quais 12% são refrigerantes — é possível verificar que estão a ocorrer diversas mudanças. Parece que as medidas governamentais estão a levar os portugueses em direção a um caminho com menos bebidas açucaradas e que o aumento da carga fiscal sobre estas bebidas já começou a surtir efeito.

Segundo um estudo recente, levado a cabo pela Nielsen e já divulgado pelo Expresso, os portugueses estão cada vez mais preocupados com a sua saúde e mais conscientes na hora de comprar. Seis em cada 10 consumidores consideram estar atentos aos valores de açúcar presentes na tabela nutricional (aquela em que surgem os tais açúcares mascarados) deste tipo de produtos e metade diz saber a quantidade de açúcar ingerida em cada bebida. Para 50% da população, o tipo de açúcar ou adoçante utilizado também pode influenciar a decisão de compra.

Estudos à parte, importa também olhar para os números e estes parecem animadores para as entidades que têm promovido hábitos mais saudáveis. No primeiro semestre deste ano, registou-se um decréscimo acentuado nas vendas (em volume) das bebidas açucaradas face ao ano anterior (-6%), com os sumos sem gás diluídos (-15,7%) e as colas (-13,6%) a perderem fãs em solo nacional. Apesar das melhorias conjunturais, ainda é preciso reduzir muitos gramas para que o consumo de açúcar chegue a um valor saudável.