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Acabar com a hepatite C até 2030? É possível

Evento. A vontade política e o dinheiro disponível para atuar nortearam o debate entre Nuno Morais Sarmento, Maria de Belém Roseira, Ricardo Costa (moderador), Pedro Mota Soares e Alberto Martins

Nuno Botelho

“Eliminar a Hepatite C em Portugal: da visão à ação” deixa cinco recomendações para que Portugal se torne o primeiro país do mundo a erradicar a doença e a conseguir um registo de zero infeções

Ao fim e ao cabo, como podemos atingir os objetivos definidos pela Organização Mundial de Saúde”, pergunta Maria de Belém Roseira. A ex-ministra da Saúde referia-se à meta traçada pelo organismo de acabar com a hepatite C até 2030 e dos obstáculos que se apresentam nesse caminho. Desde a vontade política (ou falta dela), aos custos financeiros, sem esquecer o estigma que a doença ainda representa para os 71 milhões de pessoas que, de acordo com os dados mais recentes, possuem o vírus.
Uma discussão acesa que marcou a apresentação do estudo “Eliminar a Hepatite C em Portugal: da Visão à Ação”, na Nova School of Business and Economics em Lisboa. Um trabalho da responsabilidade da instituição académica — a que o Expresso se associou — com a ambição de se assumir como um guia de percurso rumo à erradicação da doença. E, pelo caminho, fazer de Portugal o primeiro país onde se registem zero infeções. “Queremos contribuir para a implementação de um plano estratégico nacional, um plano de ação, para quem quiser ouvir”, atirou o coautor e coordenador do estudo, João Marques Gomes.
Para debater o panorama do combate à hepatite C em Portugal e o impacto das cinco recomendações apresentadas pelo estudo, quatro ex-ministros de diferentes áreas deslocaram-se ao campus de Campolide e deixaram as suas opiniões perante o auditório com moderação do diretor-geral de informação do grupo Impresa, Ricardo Costa. Até porque a eficaz utilização de meios para dar nova expressão às conquistas já alcançadas neste campo pode beneficiar, segundo o estudo, de uma ligação mais estreita entre os diferentes ministérios.
Pessoas no sítio certo
Mais do que uma pasta propriamente ligada ao combate à doença, Nuno Morais Sarmento tem com ela uma ligação muito pessoal, uma vez “durante mais de 25 anos” teve o vírus ativo no seu organismo. Hoje já livre, ainda traz consigo as marcas de uma “doença crónica e mortal” que afeta “um público muito vulnerável” — que tem como grandes grupos de risco os utilizadores de drogas e os prisioneiros — e que não “é algo com que se conviva facilmente.” Se é consensual entre todos que Portugal foi um país pioneiro em garantir o acesso alargado aos novos tratamentos da hepatite C, que permitiram reduzir drasticamente o número de infetados, o antigo governante acredita que o grande problema é a “inconsistência das políticas públicas.” Sem dúvidas que a “segurança social e a saúde devem ter uma abordagem integrada”. Ainda há muito para fazer.

No terreno, o sentimento é que falta uma ação mais eficaz para terminar com certas burocracias que ainda estigmatizam e dificultam o acesso ao tratamento (assim como a prevenção) junto dos grandes grupos de risco. Para Maria de Belém, é óbvio que “temos muita gente boa neste circuito e se as colocarmos no sítio certo, podemos fazer coisas acontecer”, enquanto o ex-ministro da Solidariedade, Emprego e Segurança Social, Pedro Mota Soares, defendeu que a “forma como todo o sistema está organizado deve ser revista”, sobretudo na transferência mais eficaz de “poupanças de um ministério para o outro” assim como uma distribuição diferente de competências: “Olhemos para a importância da ação social direta que acontece nos centros de saúde. São os médicos que estão lá, que conhecem o doente. Parte das responsabilidades de acompanhamento devem passar para o Ministério da Saúde, por exemplo.”
Infecciosas nas prisões
Num país onde apenas 30% dos casos de hepatite C existentes estão diagnosticados, a rede de rastreio só pode funcionar em pleno com uma abordagem distinta junto da população prisional. Questão que o ex-ministro da Justiça, Alberto Martins, garante ter acompanhado no seu mandato. Passos importantes como a “centralização de cuidados no hospital prisional de Caxias” ou as campanhas de prevenção deram resultados, mas parece óbvio que existe “um problema de doenças infecciosas nas prisões portuguesas”. Como se verifica uma “deficiente articulação para o SNS entrar nas prisões” que “não resulta da falta de meios”, estudos como este são importantes para eliminar certas barreiras porque “quando há privação da liberdade e da saúde, há privação de tudo”.
Para Maria de Belém, nada se pode fazer “sem um envelope financeiro” forte e se a liderança do processo não estiver nas mãos das pessoas certas, “respeitadas e com autoridade.” A ex-governante acredita que “temos conhecimento, temos meios, temos vontade e essa pode ser espevitada”. Como recordou o antigo presidente da República, Jorge Sampaio, numa comunicação enviada para a apresentação, “nunca podemos desistir de fazer mais e melhor”. Para erradicar a hepatite C “estas mudanças não podem acontecer, devem acontecer”, atira Pedro Mota Soares.

Texto publicado originalmente no Expresso, edição de 16 de setembro de 2017