Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Que Lisboa é esta?

ilustração gonçalo viana

A capital está mais cosmopolita do que nunca e entrou definitivamente no mapa internacional. São cada vez mais os turistas que chegam a Lisboa, mas com a nova avalanche de visitantes começam a surgir também as crispações e as críticas à falta de critérios e excessos neste sector

Bernardo Mendonça

Bernardo Mendonça

texto

Jornalista

Gonçalo Viana

ilustração

Ilustrador

Um casal de japoneses de meia-idade passa numa destas manhãs pela Rua dos Lagares, no castiço bairro da Mouraria, e é atraído por um prédio cor de salmão. Na janela do terceiro andar, um gato cinzento e branco insinua-se por trás de umas cuecas pretas de senhora que estão a secar ao sol. De máquina apontada para cima, fazem um disparo para memória futura. Mas a sua atenção demora-se mais nas dezenas de retratos a preto e branco dos moradores do prédio que ornamentam a fachada. Estes são os rostos dos despejados do nº 25, pode ler-se em português e em inglês. Junto às imagens estão cartazes que gritam palavras de ordem: “‘Terramotourism’ — instruções de emergência em caso de transformação urbana produzida por sismo turístico”; “Não queremos ser despejados da nossa Mouraria”; “Há proprietários de má-fé, comprem prédios devolutos, não se aproveitem dos prédios com inquilinos indefesos”; “Os bairros não podem morrer, e isso acontece por causa da lei de Assunção Cristas e Passos Coelho”... Claro que isto ‘é chinês’ para aqueles japoneses, que apenas sabem responder de onde vieram num muito mau inglês e parecem maravilhados com a velha e típica Lisboa.

O que eles talvez não suspeitem é que o mais certo é que, daqui a cinco anos, quem apontar uma máquina fotográfica (ou um selfie stick) a este mesmo prédio apanhará na janela outros estrangeiros a espreguiçar-se ao sol, a estender toalhas de praia ou a espreitar a vista, que chega até ao Castelo e à Igreja da Graça. Serão turistas a fotografar turistas, em mais um prédio que esteve para se transformar este ano num negócio de alojamento local. Mas, por intervenção da autarquia, o processo foi adiado por mais cinco anos.

É esta realidade que se observa atualmente nas principais zonas históricas da cidade, sobretudo nas freguesias lisboetas de Santa Maria Maior (onde se inclui Mouraria, Alfama, Castelo, Baixa e Chiado) e Misericórdia (Bairro Alto e Príncipe Real, entre outros), em que a pressão turística e a procura maciça dos estrangeiros pelo aluguer ou compra de casas está a acelerar a gentrificação dos bairros (processo de valorização imobiliária de uma zona urbana) e a respetiva saída dos moradores, uma população maioritariamente de classe média-baixa, carenciada, que não vê os seus contratos renovados. Esta realidade está a gerar uma crispação entre moradores e turistas, mas que ainda parece longe da tensão que se vive em Barcelona ou em Veneza, onde cresce a ‘turismofobia’ (aversão a turistas e ao turismo, pelos efeitos perversos da atividade na qualidade de vida dos moradores). Nas ruas de Barcelona há muito que os visitantes são agraciados com frases escritas nas paredes como: “Gaudi odeia-te”, “Chega de estrangeiros” ou “Turistas voltem para casa, bem-vindos refugiados”...

Por cá, na capital, ainda não se chegou a esse ponto, mas há quem vaticine o mesmo caminho se não forem tomadas medidas para atenuar ou diminuir os impactos negativos do turismo.

Este ano, com o aumento das queixas e protestos na praça pública contra os efeitos do turismo massificado, a Câmara Municipal de Lisboa (CML) começou a tomar medidas. Desde 1 de agosto, os grandes autocarros turísticos que entupiam as ruas estão proibidos de circular na zona da Sé e do Castelo (à exceção dos autocarros panorâmicos), e este mês esta mesma proibição deverá estender-se ao eixo Cais do Sodré-Rua do Alecrim-Príncipe Real-Largo do Rato. Também os tuk-tuks, que têm sido alvo de inúmeros protestos das populações, estão interditos de circular nas imediações do Castelo, e o seu horário de circulação está limitado das 9h às 21h.

A verdade é que Lisboa está na moda, vibrante e mais internacional e disputada do que nunca. Até Madonna escolheu a nossa capital para morar. Na sua conta de Instagram, escreveu há poucos dias: “A energia de Portugal é tão inspiradora. Sinto-me muito criativa e viva aqui. Estou ansiosa por trabalhar no meu filme ‘Loved’ e quero fazer música nova.” E juntou um coração à bandeira lusa.

No ano passado estiveram 5,6 milhões de turistas na capital (Barcelona recebeu 32 milhões), e por todo o nosso país passaram 21 milhões, de acordo com números do INE. O Turismo de Portugal indica que no ano passado houve mais de 10 milhões de dormidas de turistas na cidade. E este ano, só nos dois primeiros meses, já houve mais de um milhão de reservas, o que representa um aumento de 14,3%. Números que deverão engrossar com a construção do novo aeroporto daqui a cinco anos, a realização de inúmeros eventos internacionais e a criação de um novo terminal de cruzeiros. Mas a que custo? Nem todos se mostram satisfeitos com a mudança que Lisboa tem sofrido. Estaremos já com turismo a mais?

A secretária de Estado do Turismo, Ana Mendes Godinho, é perentória: “Claramente temos muito espaço para crescer. Quer em Lisboa quer no resto do país.” E aponta a criação do novo terminal de cruzeiros como uma aposta para captar as embarcações que começam ou que terminam viagem em Lisboa para que a capital deixe de ser apenas um porto de ancoragem e os turistas fiquem na cidade durante uns dias.

Sobre aqueles que apontam indícios de ‘turistificação’ e reações de ‘turismofobia’ em Lisboa responde: “Não caiamos em alarmismos. Basta compararmos a nossa Praça do Comércio com a Praça de São Marcos, em Veneza, para termos a noção de que estamos em estádios completamente diferentes. Estamos longíssimo desse fenómeno. O que não quer dizer que não devamos trabalhar para garantir que continuamos a ser aquele destino de que toda a gente gosta e que reconhece ser autêntico. O turismo não interessa como valor abstrato, mas como valor de criação de emprego, de mobilização do desenvolvimento regional e também da coesão territorial e envolvimento das pessoas.” À sua voz junta-se Luís Araújo, presidente do Turismo de Portugal, que aponta um estudo recente da Associação do Turismo de Lisboa que “demonstra que 86% da população vê o turismo como uma atividade benéfica para a cidade. São os próprios residentes a reconhecer as potencialidades do sector”.

O geógrafo Luís Mendes, académico do Instituto de Geografia e Ordenamento do Território (IGOT) da Universidade de Lisboa e coordenador do movimento “Morar em Lisboa”, mostra-se menos entusiasta e diz-se preocupado com o facto de não haver uma regulação estatal eficaz no que diz respeito ao alojamento local. “Com este afluxo de turistas, os proprietários optam por retirar as suas casas do mercado de arrendamento a longo prazo, aproveitando a nova lei das rendas, e passam a orientar essa oferta para o mercado de alojamento turístico, que cresce proporcionalmente todos os anos. O problema é que é difícil contabilizar os desalojados dos bairros históricos, porque é um processo quase invisível, mas real e preocupante. E isso pode afetar o próprio turismo. A população dos nossos bairros históricos faz parte do próprio imaginário do turista do alojamento local, que quer imiscuir-se e estar na presença dessas populações. Para uma experiência mais típica. E se o despovoamento já existia há anos, foi certamente agravado pelo turismo.”

De facto, não há números sobre este fenómeno de esvaziamento de moradores de certos bairros provocado pela ‘turistificação’, mas o último Censos, que data de 2011, aponta para outra realidade. Existiam muitos prédios devolutos, abandonados ou vazios nos bairros históricos, alguns dos quais vieram a ser requalificados com a nova vaga de turismo. Na freguesia de Santa Maria Maior existiam 3498 casas vagas e 1290 que eram segunda habitação. Hoje existem 2486 espaços para alojamento local registados. Na Misericórdia acontecia o mesmo. Havia 2811 casas vagas e 1404 que eram segunda habitação. Atualmente contam-se 2077 espaços para alojamento local. Mas isto não significa que todos esses espaços vazios tenham sido aproveitados para esse fim.

Helena Roseta, presidente da Assembleia Municipal de Lisboa, conhece bem o terreno e assume que tem sido confrontada com muitas pessoas que estão a ser “postas fora de casa”, porque os seus contratos de arrendamento não estão a ser renovados ou porque as rendas subiram para preços impossíveis. “É o resultado da liberalização das rendas do antigo Governo. São centenas de pessoas que estão nesta situação nos bairros históricos, o que é um drama, e é preciso tomar medidas.” Roseta refere-se à lei aprovada por Assunção Cristas, no Governo de Passos Coelho, que entrou em vigor em 2012 e descongelou as rendas antigas para colocar mais casas no mercado. E, com isso, deu mais liberdade aos proprietários de cessar os contratos com os antigos inquilinos.

Este é o pior pesadelo de Carla Pinheiro, de 47 anos, a residente mais nova do tal prédio da Rua dos Lagares, lisboeta dos sete costados, a viver na Mouraria desde os 3 anos. Em novembro passado recebeu uma carta do senhorio, que adquirira recentemente o seu prédio, a comunicar “a oposição à renovação do contrato de arrendamento”, informando-a que teria de sair de casa num prazo de um ano. As mãos de Carla tremem e os cigarros são consumidos rapidamente enquanto relata a angústia que ela e mais 15 famílias sentem desde então. A viver com a mãe e o filho de 16 anos num T2, por 250 euros — metade do seu ordenado mínimo —, sabe bem que se tiver de sair da atual morada não encontrará teto nenhum no seu bairro nem em qualquer outra zona do centro de Lisboa que possa pagar perante os elevados preços do mercado. Na sua freguesia, a média é de 12,80 euros por metro quadrado. Ou seja, uma casa como a sua, de 70 metros quadrados, vale cerca de 900 euros (896 euros, mais precisamente). Ou bem mais. Mas Carla e os vizinhos do nº 25 da Rua dos Lagares não baixaram a cabeça à sorte, juntaram forças e pediram ajuda à autarquia, ao vereador Manuel Salgado e à Assembleia Municipal de Lisboa. Depois de meses de reuniões, a Câmara ouviu os seus apelos e conseguiu entrar em acordo com o senhorio e resolver temporariamente a vida daquelas 40 pessoas. Isto porque havia a intenção por parte do proprietário de obter o licenciamento de um logradouro, anexo ao prédio, para exploração turística, e a Câmara concordou em fazer “uma análise rápida e expedita do processo” em troca da garantia de um contrato por mais cinco anos para aqueles moradores. “São os tubarões contra os peixinhos. Mas desta vez os tubarões não nos ganharam.” Carla, que tem tatuada no braço esquerdo a Fada Sininho, de Peter Pan, espera que haja um pó mágico nesta história e uma abertura de olhos da autarquia para a situação. Não se imagina a viver noutro lugar da cidade. “Temos o direito de continuar a viver no nosso bairro. Nascemos e crescemos aqui. No nosso prédio somos todos como uma família, ajudamo-nos uns aos outros. Se precisar, posso pedir à minha vizinha de cima, a Olinda, para ir buscar a minha mãe ao Centro de Dia. Outra vezes, quando sei que outra vizinha, uma rapariga de 11 anos, está sozinha em casa, bato-lhe à porta e pergunto: ‘Marlisa, está tudo bem?’ Tudo isto é bonito, é a alma do bairro, e não deveria ser destruído de forma cega em nome do dinheiro por senhorios de má-fé.”

Carla caminha connosco pelas ruas da sua Mouraria e abana a cabeça ao facto de “prédio sim, prédio não” estar a ser transformado para acolher turistas ou residentes estrangeiros. “Eu não estou contra o turismo, mas está a haver um desequilíbrio, é uma avalanche, um terramoto. Transformaram o nosso bairro nisto. É só alojamento local. São só prédios de luxo. Chega! Qualquer dia não têm cá nenhum lisboeta, e isso não interessa aos turistas, porque deixarão de encontrar alguém para perguntar onde ficam os lugares que procuram na cidade.”

O mesmo discurso tem Alessandra Almeida, uma brasileira de 39 anos a residir há 20 na Mouraria com o marido e os dois filhos. Ao balcão da sua mercearia, situada no Largo das Olarias, atende o senhor Luís, um velho freguês. Guardara para ele um pão, um queijo de Nisa e ainda lhe avia uma lata de atum. Também ela recebeu uma carta do senhorio a pedir-lhe que deixasse a casa. Foi como se lhe tirassem o chão debaixo dos pés. “Avisou-nos com dois meses de antecedência, disse-nos que não era a Santa Casa da Misericórdia e que se quiséssemos manter-nos na casa teríamos de pagar um oitavo das obras que iria efetuar no prédio. Fui informar-me com uma advogada da Junta de Freguesia, soube que isso não era legal e consegui prolongar o contrato por mais um ano. Mas sei que vamos ter de sair. Ele quer alugar o prédio a turistas e eu não estou a conseguir encontrar casa no bairro a um preço decente...” Atualmente, Alessandra paga pelo seu T3 400 euros.

Entretanto, chega ao balcão um casal de jovens turistas. Pedem uma garrafa de litro e meio de água. Pela pronúncia, percebe-se que são franceses. Metemos conversa e ficamos a saber que Sandrine, de 28 anos, e Quentin, de 27, descobriram Lisboa este ano e que esta é a segunda vez que a visitam. Ou melhor, desta vez estão decididos a ficar. Ela quer desenvolver design por cá, ele quer trabalhar como chefe de cozinha num estabelecimento seu. Antes tinham passado uma temporada em Berlim. “Apaixonámo-nos pela vossa cidade e estamos à procura de casa para arrendar ou comprar num destes bairros. O sol, a atmosfera, a cultura mediterrânica, a história, a comida são algumas das razões. E Lisboa inspira calma. Não tem o stresse de Paris ou Londres.” Alessandra encolhe os ombros. “Já viram? É demais. Os franceses estão a comprar o nosso bairro, todos os dias há mais casos destes, mas somos nós que votamos nos nossos políticos. Devia haver lugar para todos. Terei muita pena se tiver de sair desta zona. Escolhi morar aqui e é aqui que tenho o meu trabalho.”

Helena Roseta está solidária com a causa destes moradores e os seus pedidos. “Não podemos destruir comunidades na cidade. Interessa a todos. Até ao turista, que quer ver cidadãos locais. De momento, a Câmara não pode intervir. Os proprietários não são obrigados a comunicar à Câmara a mudança de um edifício para alojamento local. Mas estou de acordo com a proposta de Fernando Medina para que o alojamento local passe a ser autorizado pelo município, para garantir a estabilidade e equilíbrio de certas zonas da cidade.”

Eduardo Miranda, presidente da Associação de Alojamento Local em Portugal (ALEP), mostra-se sensível a esta questão. “Não queremos que nenhum bairro se torne monofuncional. Mas a população de que se fala ser a alma dos bairros históricos é socialmente carenciada e precisa de casas com rendas sociais, precisa de apoio estatal. A realidade do mercado de hoje não é compatível com rendas de 50 ou 150 euros. Por outro lado, é preciso trazer novos habitantes para estas zonas com incentivos reais. Posso adiantar que 75% das casas que estão para alojamento local são muito pequenas. E, tal como estão, não dariam para serem convertidas para alojamento tradicional de novas famílias de classe média, que procuram casas com espaço, elevador e garagem.”

Não é preciso andar muito por Alfama para encontrar quem diga sem travão na língua: “Odeio turistas!” Kikas, de 39 anos, morena de longos cabelos pretos, empregada de limpeza, está sentada na soleira da porta de casa, na Rua de São Pedro. Vive num T3 que é da Câmara, por isso paga uma renda em conta, 230 euros. A mesma sorte não tem a sua mãe, que foi forçada a sair da casa onde vivia. “Transformaram o prédio onde ela estava num hostel. E ela teve de ir viver para uma casa muito pequenina. Os turistas invadiram o nosso bairro, fazem demasiado barulho, exibem-se nus à janela e não têm respeito por ninguém. Raios os partam.”

A crescente pressão sobre o mercado de arrendamento em Lisboa levou a Câmara Municipal a reorientar a sua política em relação às casas que tem espalhadas pela cidade, principalmente no centro histórico. Se antes a prioridade era vender o património disperso, agora a preocupação é reabilitar e arrendar esses imóveis a preços controlados. A ideia é dar resposta à dificuldade de atualmente se encontrar casas a valores acessíveis, devido à especulação imobiliária e à maciça procura de turistas e de estrangeiros para alojamento ou compra de uma segunda habitação. Recorde-se que a CML é o maior proprietário imobiliário do país, com mais de 25 mil fogos. O atual presidente da Câmara, Fernando Medina, afirma que o aumento do turismo é em primeiro lugar “uma boa notícia” para a economia da cidade e “representa cerca de 80 mil empregos diretos”. Mas a menos de um mês das autárquicas, em que será novamente candidato pelo PS, Medina afirmou ao Expresso que, para lidarmos todos bem com o crescente fluxo de turismo e para que seja preservada ou melhorada a qualidade de vida dos lisboetas, “é preciso mais investimento nas infraestruturas da cidade. Seja nos transportes públicos, que estão a sofrer a pressão de terem mais pessoas a utilizarem-nos, seja mais investimento na higiene urbana e mais habitação de promoção pública e regulação do mercado de habitação.” E já fez a promessa de construir mais 6000 fogos ao longo do próximo mandato, se for eleito. “Mobilizámos cerca de 300 milhões de euros de património municipal. Trata-se de terrenos ou edifícios que vão ser reabilitados ou construídos e que permitem rendas entre os 200 e os 400 euros por mês, enquadradas no programa Renda Acessível. Queremos ajudar as classes médias e atraí-las para o centro da cidade.”

Ricardo Robles, o candidato do BE à autarquia, recusa o conceito de ‘turismofobia’ para Lisboa, mas considera que não existe harmonia entre os cidadãos e o turismo por culpa da política de Medina. “Existe desconforto pela falta de limites e regras. E os conflitos começam a surgir. O sistema de transportes na cidade não está preparado para este aumento de população que nos visita. Basta passarmos no Martim Moniz e repararmos na fila com centenas de metros para o elétrico 28. Um drama para quem cá vive e para os turistas.” Robles mostra-se igualmente preocupado com a habitação em Lisboa — “temos de salvaguardar o direito à habitação na cidade da pressão turística e especulação imobiliária” — e propõe que se distinga o que é alojamento local de turismo habitacional. “Vejamos: o princípio da partilha de casa, de alguém que tem um quarto vago e recebe um turista, é alojamento local. Outra coisa é quem adquire casas, compra prédios e explora-os numa lógica de indústria hoteleira. São realidades que deviam ser tratadas de maneira diferente.”

João Ferreira, candidato pela CDU, junta outra crítica: a forma como tem sido gasta a taxa municipal turística, que já rendeu 16,7 milhões de euros desde janeiro de 2016 até março deste ano e que serviu nomeadamente para a conclusão das obras do Palácio da Ajuda e do Museu Judaico. “A taxa tem um fim diverso do publicitado. Isto fica mais evidente quando o seu uso tem sido direcionado primordialmente para a promoção de novos equipamentos turísticos, impulsionando o crescimento ainda maior do turismo, de forma desregulada e sem cuidar dos seus impactos.” Robles e Assunção Cristas, candidata pelo CDS, ou Teresa Leal Coelho, candidata do PSD, são de opinião semelhante. Ao Expresso, Cristas acusa Medina de nada ter feito para preparar a cidade para o turismo. “Resumiu-se a fazer obra de cosmética, não essencial. Cavalgou a onda, arrecadando receita com as várias taxas, sem ter uma visão de médio e longo prazo.” Quanto à relação dos lisboetas com os visitantes estrangeiros, considera que “os turistas são genericamente muito bem acolhidos na nossa cidade e sinalizam precisamente isso como um elemento muito positivo, mas em certos bairros há vozes críticas.” Cristas, que criou a nova lei das rendas, também ela alvo de críticas, diz agora que é “a favor de uma diminuição da carga fiscal para estimular o arrendamento convencional, mas contra matar-se o alojamento local, sobretudo através de regras gerais que se aplicam ao país inteiro”. Leal Coelho junta outra achega para “uma senhora Lisboa”: “É preciso ação séria, conhecedora e coordenada, para evitar transformar a cidade num parque temático de massas, irreconhecível e vazio de residentes, como acontece com Veneza. Já Barcelona inverteu recentemente a política liberal e está a procurar compatibilizar o turismo com a identidade local. Lisboa vai a tempo de evitar repetir os erros dessas outras cidades.”

O escritor, gestor e jornalista António Mega Ferreira, que chefiou a candidatura de Lisboa à Expo-98 e foi comissário executivo da Exposição Mundial, tem uma opinião “absolutamente positiva” em relação ao turismo que chega atualmente a Lisboa. “As mesmas vozes que gritam contra o turismo a mais são aquelas que durante décadas clamaram por uma política de turismo que não se limitasse a acolher os que procuravam o sol e a praia. Bom, aí têm, este é o retorno.” A seu ver, Lisboa está incomparavelmente mais interessante do que há dez anos. “Porque tem mais gente, de diversos sítios, porque há uma ideia de movimento constante, de coisas novas, uma renovação de espaços que abrem e fecham e de novas zonas na cidade. Lisboa está a encontrar a sua melhor versão, que é a versão cosmopolita. Lisboa nunca foi tão brilhante como quando foi uma cidade cosmopolita, e isso é século XVI.” Mas, no entanto, Mega Ferreira não acredita em entregar as decisões à lei do mercado, numa política de mão invisível. “Tem de haver regulação e enquadramento entre a procura e a oferta. Tanto no alojamento temporário como nas low costs. Porque, se não forem controladas, qualquer dia aterram no Rossio. São uma praga. Uma praga que transporta grande parte dos turistas para dentro da cidade.”

O arquiteto Manuel Aires Mateus, que com o irmão Francisco foi autor da nova sede da EDP, na zona ribeirinha da cidade, considera “perigoso” o fenómeno da compra maciça de imóveis por parte de estrangeiros. “Estamos a vender as partes mais centrais da cidade. Como se estivéssemos a transformá-la num anúncio. Isso a prazo vai destruir uma certa essência. Se quisermos que Lisboa seja uma cidade onde os lisboetas vivem, tem de haver coragem na legislação e uma tomada de posição.” Como exemplo positivo de uma obra na cidade, para português, inglês ou francês ver, o arquiteto elogia o trabalho de António Costa na requalificação do bairro do Intendente. “Não podemos ter uma cidade em que os turistas andem do Castelo para o Chiado e do Chiado para o Castelo. E depois vão ali aos Jerónimos e já está. O Intendente foi uma manobra absolutamente genial. Não me interessa o seu aspeto estético, se gosto do banco ou do candeeiro. Antes um lisboeta comum não ia ao Intendente passear ou beber um copo e hoje é uma atração na cidade. Não é tão interessante chegar a bairros consolidados e fazer uma intervenção. Devem abrir-se novas possibilidades.”

A empresária Catarina Portas, há 12 anos à frente das lojas Vida Portuguesa, eterna curiosa pela história da capital e pelos espaços genuínos que resistem ao tempo e às modas, encontra-se neste momento a fazer um mapa com sugestões de locais para (re)descobrir em Lisboa, ilustrado pelo francês Marin Montagut. “Não acho que haja turismo a mais em Lisboa. Penso sobretudo que está mal distribuído. O problema é que há um turismo massificado, de grandes grupos, que é mais complicado de encaixar em cidades antigas como a nossa, com ruas estreitas, onde vivem pessoas. Lisboa é uma cidade com todas as qualidades para um turismo mais alternativo, de pessoas mais curiosas, que gostam de coisas diferentes, que não viajam para encontrar o mesmo restaurante e tirar apenas selfies. Creio que esse é o caminho para o turismo em Lisboa, não é tão obvio, mas é um caminho mais interessante.” E conclui com uma pergunta: “Valerá a pena fazer um investimento de milhões num novo terminal de cruzeiros quando se sabe que o turismo de cruzeiros contribui bastante para criar pressão sobre determinadas partes da cidade? Um tipo de turismo que não deixa praticamente dinheiro nenhum. É por aqui que se deve apostar?”

A taxa que Lisboa cobra aos turistas

Valor da taxa
1 euro por noite até ao valor máximo 
de 7 euros (sete noites seguidas 
por dormida e por hóspede)

Taxa municipal turística
16,7 milhões de euros obtidos com 
esta cobrança desde 2016 até março deste ano

Quando começou 
a ser aplicada
Aprovada em 2014, a Taxa Municipal Turística começou a 1 de janeiro de 2016, sobre as dormidas de turistas nacionais e estrangeiros nas unidades hoteleiras ou de alojamento local

Quem paga
A taxa é aplicada por dormida e por hóspede, com idade superior a 13 anos,
nos hotéis, hostels e apartamentos turísticos da cidade. A taxa sobre as chegadas ainda não passou do papel

Quem cobra a taxa
A liquidação e arrecadação da taxa 
de dormida compete às pessoas singulares ou coletivas que explorem os empreendimentos turísticos e os estabelecimentos de alojamento local

Onde tem sido 
aplicado o dinheiro
Em projetos, estudos, equipamentos 
ou infraestruturas para a promoção 
e qualidade do turismo em Lisboa. 
Boa parte do dinheiro tem sido 
investido no remate do Palácio 
da Ajuda, no Museu Judaico, 
na reabilitação da Estação Sul e Sueste e no programa Lojas com História