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Anúncios no Facebook são suficientes para condicionar uma eleição? Não, mas…

Foto Jewel Samad/Getty Images

Forças de propaganda russas pró-Kremlin compraram milhares de anúncios no Facebook destinados a influenciar os eleitores aquando das mais recentes eleições para a presidência dos Estados Unidos. A informação foi fornecida pela Facebook no âmbito da investigação que o Congresso americano está a efetuar a alegadas intromissões russas durante as eleições que deram a Trump a presidência americana – e apurar, até, se o atual presidente daquele país esteve envolvido com a Rússia nessa alegada manipulação.

Os engenheiros da Facebook apuraram que uma empresa russa, com um histórico de apoio a propaganda pró-Kremlin, investiu 100 mil dólares em anúncios destinados a influenciar os eleitores americanos. O The Washington Post conta a história, realçando que os anúncios referem diretamente Donald Trump e Hillary Clinton… mas as fontes da Facebook ouvidas no processo não avançaram se a publicidade favorecia os candidatos.

Entretanto, o Chief Security Officer da Facebook (o homem responsável pela segurança informática da empresa) já escreveu que os anúncios tinham por objetivo amplificar temas fraturantes (como o direito a ter armas, a emigração ou questões raciais) e não se referiam especificamente aos candidatos. No entanto, há um dado que me parece particularmente pertinente: um quarto dos anúncios em questão foram comprados com o intuito de serem distribuídos em áreas geográficas específicas (embora não tivessem, ainda, sido reveladas quais são). Ou seja, quem estava a coordenar estes esforços estava muito bem informado sobre o que se passava no terreno. Algo que pode casar, muito bem, com a pergunta que os Democratas têm feito insistentemente: Será que os russos estavam a receber informações de alguém dentro dos Estados Unidos?

A resposta é importante, claro, até porque os Democratas anseiam, salivam, que no final deste arco-íris propagandístico esteja um caldeirão com Trump lá dentro. O que me parece improvável. Não porque a astúcia seja uma capacidade reconhecida ao presidente dos Estados Unidos, mas será, certamente, uma qualidade dos alegados russos que terão comprado a publicidade.

Olhando para lá desta luta entre Democratas e Republicanos, é preciso colocar em perspetiva o que são 100 mil dólares de anúncios no Facebook comparados com os milhões que cada partido gasta numa campanha eleitoral deste tipo. Além disso, é preciso, também pensar qual é a capacidade de influência que o Facebook tem no eleitorado quando comparado com a campanha na TV, na rádio, jornais e outros meios.

Assim, estes milhares de anúncios no Facebook parecem-me muito pouco para influenciar de forma decisiva uma eleição. O que me preocupa, verdadeiramente, é o que vejo quando me afasto do ruído (que esta investigação está a criar) e me deparo com o “big picture”. Nessa visão mais abrangente, estes anúncios são apenas «a ponta do icebergue» como refere o senador Democrata, Mark Warner.

Juntemos os anúncios comprados à Facebook ao «exército de trolls» da Europa de Leste que andou a minar, a mando russo, as eleições americanas; adicionemos a forma como hackers russos entraram no sistema informático do Partido Democrata expondo informações sensíveis; como colocaram online os e-mails pessoais de Hillary Clinton; juntemos a tentativa russa de entrar numa empresa americana que fornece o sistema informático (software e hardware) para o voto eletrónico nos Estados Unidos… o resultado final de todas estas movimentações é aterrador.

Comprova a intenção russa (de alguém na Rússia, pelo menos) de condicionar as eleições americanas (como também o tentou nas francesas e agora nas alemãs) criando suspeição sobre partidos e candidatos. Uma campanha de “desinformação” que não resultou em França, mas que poderá ter ajudado Trump nos EUA.

É esta movimentação proveniente de um país onde a democracia é, muitas vezes, um conceito vazio que realmente me preocupa. Mas qualquer fã de filmes de espionagem ou de Le Carré sabe que nestas coisas da espionagem (física ou digital) ninguém tem as mãos limpas. Por isso, se os russos tentam condicionar o rumo da política noutros países e estão a deixar um rasto digital, o que estarão a fazer as outras agências de espionagem?

Com a proliferação de redes sociais influenciadoras e com o abandono progressivo dos meios de comunicação reconhecidos, a formação da opinião pública está a ficar à mercê de interesses bem mais obscuros. Só para gerar mais confusão: a Facebook é um ativo patrocinador de ambos os partidos (republicano e democrata) e existe o eterno rumor que Zuckerberg poderá, um qualquer dia, candidatar-se à presidência do país. Ou seja, a empresa que tem a maior rede social do planeta pode ter aspirações políticas.

Para concluir, com milhares de milhões de tuítes, posts, fotos e vídeos a serem carregados diariamente na Internet, torna-se imperativo pedir responsabilidades à Facebook, à Twitter e à Google (só para citar as mais importantes) sobre os conteúdos ali publicados. Estas empresas têm de ser pressionadas a melhorar os seus algoritmos para que deixem de ser instrumentos de desinformação que podem, em última análise, induzir comportamentos sociais de grande escala. E, ao contrário do que muitos avançam, a Inteligência Artificial desenvolvida por estas empresas ainda não é robusta o suficiente para lidar automaticamente com a propaganda. Seja ela de que tipo for.