Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Amigas, amigas, religiões à porta do quarto

Emese Mul (Holanda, ateia), Gil Liron (Israel, judia), Polen Bahçivan (Turquia, muçulmana) e Pavla Tesařová (República Checa, católica)

Esta é uma história de amizade, igual a tantas outras, mas especial por fazer da diferença religiosa a maior força. Uma católica, uma muçulmana, uma judia e uma ateia

Quatro raparigas conheceram-se em Portugal, num programa de intercâmbio, o Portus Calle Camp, e ficaram unidas por uma amizade fortalecida ao longo de apenas 11 dias. Tão simples assim e a história até podia ser contada apenas com estas palavras. Mas, então, o que torna a cumplicidade estabelecida entre Polen, Pavla, Gil e Emese tão especial? Durante esse período de tempo, uma católica, uma judia, uma muçulmana e uma ateia dividiram o mesmo quarto e partilharam momentos inesquecíveis. Porque quando a fé fica à porta, sobra espaço para explorar uma proximidade omnipresente e pacífica.

As quatro jovens são a prova de que as diferenças inter-religiosas e culturais não constituem uma barreira, porque na diversidade pode habitar confortavelmente a união. “É fantástico podermos contar, umas às outras, piadas sobre judeus, cristãos e muçulmanos. Não ficávamos ofendidas com isso. Foi algo que tornou a nossa amizade ainda mais forte”, conta Pavla Tesařová, da República Checa.

“Paja” – como lhe chamam as amigas – tem 23 anos, estuda Medicina e adora viajar pelo mundo. A ciência sobrepõe-se à educação cristã incutida desde criança, num país predominantemente católico. “Não estou certa daquilo que deus significa para mim”, começa por dizer. “Sou católica e, por vezes, vou à igreja. Acima de tudo, acredito que há algo maior do que nós e qualquer pessoa pode acreditar à sua maneira. Não julgo ninguém”, assegura a checa, para quem o “respeito gera respeito” e mostra-se sempre desejosa de “conhecer novas pessoas, personalidades e culturas”.

Foi isso que teve oportunidade de fazer ao participar na primeira edição do Portus Calle Camp, iniciativa fomentada por quatro clubes rotários, ao levar 35 jovens de 17 países diferentes a viajar pelo Porto, Vila Nova de Gaia, Vila Real e Arouca, entre 12 e 22 de agosto.

“Cada uma que reze para o seu deus”

Polen Bahçivan é muçulmana e, sem querer revelar claramente, diz apenas não ser sunita, tal como a maioria da população turca. “Pertenço a um grupo étnico e, embora não tenha crescido no seio de uma família religiosa, preservo os costumes do meu povo.” Vive em Ankara, capital da Turquia, um país que, na sua perspetiva, está cada vez mais próximo do Médio Oriente e mais distante da Europa, onde vive o namorado britânico. “Estou assustada com a possibilidade de, no futuro, não poder mudar-me para o Reino Unido, porque lá o racismo também está a crescer”, nota a estudante de Cultura e Literatura Americana.

Gosta de música clássica e de escutar o canto dos pássaros. Nunca tinha estado num convento em 21 anos de vida, até ter visitado, logo no primeiro dia em Portugal, o Mosteiro de Arouca, onde pernoitou no mesmo quarto com aquelas que viriam a tornar-se companheiras inseparáveis. Durante a noite, às voltas para tentar adormecer, Polen disse para as amigas, em jeito de brincadeira: “Ok, agora cada uma que reze para o seu deus.” Todas riram e ainda recordam esse momento protagonizado pela jovem turca, com vontade de fazer um mestrado em cultura judaica. De certa forma, pode dizer-se que já o iniciou.

Apesar de Turquia e Israel nunca terem sido os melhores amigos, isso em nada condiciona a relação de Polen com Gil Liron, a mais nova das quatro amigas. Adora praticar atividades desportivas, tem 17 anos e é israelita. “A religião domina vários aspetos da realidade do meu país, mas acaba por não ter tanto peso na minha vida”, explica a jovem hebraica. “Eu não acredito propriamente em deus, mas ainda assim cumpro alguns hábitos religiosos, como rezar antes do jantar de sexta-feira.”

O conflito entre judeus e muçulmanos tem séculos de história, mas assim que Gil soube que havia uma pessoa turca a participar no programa de intercâmbio, manifestou imediatamente a vontade de conhecer Polen Bahçivan. “Aprendi imenso com a Polen. Mostrou-me fotografias do país dela e preparou-nos um prato turco”, lembra a adolescente israelita, ainda com a beleza das igrejas que visitou bem cravadas na lembrança. “Portugal é um país lindíssimo, com pessoas muito simpáticas”, acrescenta Gil Liron.

“Para quê provocar guerras ou propagar a ideia de construir um muro?”

“Para quê provocar guerras ou propagar a ideia de construir um muro?”

Ao trio improvável formado por uma católica, uma muçulmana e uma judia, juntou-se a ateia Emese Mul. Com apenas 19 anos, já vive sozinha em Groningen, na Holanda. “Eu não sigo qualquer religião, mas não me incomoda nada que outras pessoas sigam as suas crenças. É bastante interessante conviver com a diferença e podermos falar dos nossos hábitos, enquanto partilhamos experiências”, afirma esta estudante de Medicina Dentária. “Nós tornámo-nos tão próximas e éramos capazes de falar sobre tudo. Sentíamos que já nos conhecíamos há muito mais do que 10 dias”, prossegue Emese na explicação. “Aquelas raparigas davam-me uma enorme dose de felicidade”, assegura.

“Sair da nossa zona de conforto, longe dos amigos e da família, faz-nos mudar profundamente enquanto seres humanos”, frisa a jovem holandesa. “Ficamos mais abertos e adquirimos maior facilidade em falar com as pessoas, em vez de simplesmente virarmos os rostos para baixo, para o ecrã do telemóvel, enquanto esperamos num aeroporto”, argumenta Emese Mul.

“Só temos uma vida e eu não percebo por que motivo não haveríamos de poder desfrutar de bons momentos e viver em paz com pessoas de outros países, com religiões diferentes. Podemos aprender tanto com outras culturas, então para quê provocar guerras ou propagar a ideia de construir um muro?”, questiona a holandesa, incapaz de esquecer a visita ao Palácio da Bolsa, a paisagem do Peso da Régua ou os Passadiços do Paiva.

Agora, cada uma das quatro jovens já regressou a casa, mas todas garantem que a proximidade não se vai perder, até porque o “WhatsApp” facilita-lhes uma comunicação sem qualquer tipo de barreira ou imposição tomada nos bastidores políticos. “Voltaremos a encontrar-nos”. É a frase repetida nos testemunhos destas amigas improváveis.

O Portus Calle Camp tem como propósitos divulgar Portugal, a sua cultura, e procura contribuir para o desenvolvimento pessoal dos participantes. Para o próximo ano, está já pensada uma segunda edição. Os campos de férias, que fomentam o intercâmbio de jovens, são organizados pelos Clubes Rotary espalhados pelo mundo inteiro desde 1929, muito antes de ter sido criado, em 1987, o programa Erasmus.