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Sociedade

O que resta da Revolução Russa?

Um ciclo no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, aborda a herança da Revolução Russa, um século depois, sem esquecer os escritores e artistas que a prolongam

Luís M. Faria

Jornalista

A Revolução Russa é provavelmente o acontecimento mais decisivo do século XIX. Criou um sistema político e económico completamente novo, que inspirou boa parte do mundo, em especial nas zonas mais pobres, onde ainda hoje há quem o considere inevitável naquele estágio de desenvolvimento. Tendo iniciado a Era dos Totalitarismos (o grande argumento dos defensores do fascismo, aliás, era a necessidade de combater o comunismo), a Revolução marcou com um selo de ferro todo o século XX. Mesmo hoje, ainda encontramos vestígios dela na cultura e na psicologia social russas, bem como em numerosos noutros países. Faz pois sentido que as instituições culturais portuguesas se ocupem desse marco histórico, sob variadas formas.

No Centro Cultural de Belém, em Lisboa, isso acontece entre esta semana e 19 de novembro. Um ciclo intitulado "A Revolução Russa - 100 anos depois" inclui História, literatura, política e música, numa abordagem que reflete a natureza pluriforme do assunto. O ícone do ciclo mostra a estrela vermelha com Lenine de punho erguido, mas o ciclo, como a própria Revolução, estão longe de se limitar ao líder bolchevique inicial.

Stephen Lovell dá uma palestra quinta-feira às 18h30

Stephen Lovell dá uma palestra quinta-feira às 18h30

Stephen Lovell, professor no King's College (Londres) e especialista em história moderna da Rússia, dá quinta-feira às 18h30 uma palestra na sala Literatura e Pensamento, subordinada ao tema "A Revolução Russa acabou?". O propósito é examinar a natureza da revolução, tentando perceber até onde se prolongam as suas ramificações, a linha de uma frase de François Furet sobre a sua grande predecessora, a Revolução Francesa (também se podia referir a famosa resposta de Zhou Enlai quando lhe perguntaram sobre os impactos dessa revolução ocorrida dois séculos antes: "Ainda é cedo para dizer").

Dia 26, o programa do CCB tem seguimento com Maiakovski, alcunhado "o poeta da Revolução", que acabaria por se matar em 1930, e de cuja obra José Fanha faz uma leitura encenada. Quase um mês depois, a 23 de outubro, o Pequeno Auditório do CCB recebe um debate que reúne historiadores e políticos — José Pacheco Pereira, Raquel Varela, Rúben Carvalho e Jaime Nogueira Pinto. A 29, o Belém Cinema passa "Ivan, o Terrível", um filme clássico de Serguei Eisenstein sobre o ditador do século XIX que é uma figura chave na história da Rússia, e na sua expansão.

“Ivan, O Terrível”, de Serguei Eisenstein, passa dia 28 de outubro, às 16h

“Ivan, O Terrível”, de Serguei Eisenstein, passa dia 28 de outubro, às 16h

Artistas e compromissos

O evento final do ciclo, já em novembro, é dedicado à música. A 19, a Orquestra Sinfónica Metropolitana apresenta um concerto dedicado a Prokofiev e Shostakovich, dois compositores que se podem considerar vitimas do regime soviético, embora a níveis muito diferentes. Prokofiev regressou ao país nos anos 30, quando se encontrava no auge da fama internacional e logo antes de começarem as grandes purgas de Estaline. Na altura a decisão fez confusão a muita gente, mas não se pode dizer que o resultado fosse especialmente trágico, apesar de o compositor ter ido dificuldades em certas fases.

Diferente é o caso de Shostakovich, que viu amigos e conhecidos desaparecerem e temeu muitas vezes pela vida. Este compositor é um exemplo perfeito dos terríveis compromissos a que regimes totalitários obrigam os artistas, e que quem está de fora nunca pode julgar. A sua música, onde não falta negrura mas que não se limita a isso, é um fim adequado para o ciclo do CCB.

De Prokofiev, vai ser tocado o “Concerto para violino n. 2”. Quando a Shostakovich, ambas as peças apresentadas, uma sinfonia e um poema sinfónico, evocam a Revolução.