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Alexandra, a Grande no Direito

Jovem estudante portuguesa de Direito, emigrada em Londres, enfrentou e venceu em tribunal um consórcio britânico de advogados, para ajudar uma compatriota de 69 anos, incapaz de ler e escrever, a receber indemnização de 200 mil euros

Alexandra da Silva, 21 anos, estudante de Direito

Alexandra da Silva, 21 anos, estudante de Direito

“Não se deixe comprar por eles.” Era o pedido recorrente de Ângela Baptista, de 69 anos, a trabalhar em Londres há mais de quatro décadas, efetuado a Alexandra da Silva, uma jovem estudante de Direito de 21 anos. O destino cruzou os seus caminhos, no final do ano passado, na capital do Reino Unido. Ângela não sabe ler nem escrever e toda a aprendizagem foi efetuada ao longo de uma vida humilde e de trabalho, quando em 2006 um acidente a deixou parcialmente incapacitada.

Foi-lhe atribuída, em 2013, uma indemnização no valor de 170 mil libras (200 mil euros), quantia da qual nunca pôde fazer usufruto, por ter sido declarada mentalmente incapaz pelos representantes legais, uma empresa de advocacia, até há uma semana tutelar da verba. Há quatro anos, quando chegou a Londres, Alexandra mal conseguia pedir um copo de água. Mas estudou. Estudou muito, bastante para ganhar coragem de enfrentar e vencer em tribunal o consórcio Hansen Palomares Solicitors.

“Sempre disse à Dona Ângela: ‘estou consigo e é a si que vou representar, da melhor forma que puder'”, conta em entrevista ao Expresso. “Há uma semana chegou a ordem do tribunal [Court of Protection ou, de forma traduzida, Tribunal de Proteção] e ganhamos. Foi um processo duro”, descreve a jovem, nascida e criada na freguesia de Cardielos até aos 17 anos, em Viana do Castelo.

As duas conheceram-se de forma fortuita, num restaurante afeto ao Futebol Clube do Porto em Londres, ponto de encontro para muitas pessoas da comunidade lusófona. “A Dona Ângela já tinha tentado com advogados portugueses e ingleses, mas todos começavam e depois não davam seguimento ao processo, ou então pediam-lhe uma quantia excessiva”, acrescenta a jovem emigrante.

“Aquela senhora nem tampouco era dona da vida dela”

O caso remonta a 2006, quando Ângela Baptista foi vítima de atropelamento, incidente causador de várias lesões físicas e que lhe afeta a capacidade motora. “Um psiquiatra enviado pela empresa de advogados acabou por dizer que ela não estava bem e que tinha vários problemas psicológicos, acrescentando não ter discernimento”, explica Alexandra.

Em 2013, ficou decidido judicialmente que os advogados seriam os procuradores e os responsáveis pela gestão da verba compensatória atribuída. “Do dinheiro e até mesmo dos assuntos dela. Aquela senhora nem tampouco era dona da sua vida”, acrescenta a estudante de 21 anos. “Tem o seu temperamento, não teve escolaridade, não sabe falar inglês, e é normal que, por vezes, não se expresse da melhor forma. Mas não quer dizer que não estivesse capaz para gerir o seu dinheiro”, frisa a jovem, prestes a ingressar no terceiro ano de Direito, na Universidade de Londres.

No entanto, para Alexandra da Silva o primeiro caso já está ganho. Não como advogada, pois ainda não pertence à ordem, mas como “litigation friend” (“amigo de litígio”), figura jurídica inexistente em Portugal. “É um representante, mas sem curso de Direito. Fiz o mesmo que um dia farei na qualidade de advogada”, explica a estudante, cronista regular no jornal “Palop News”. Nos tempos livres gosta de praticar desporto, nomeadamente de correr. E foi isso que Alexandra mais fez nos últimos meses. A meta era uma causa justa e na qual acreditava.

Correr por um sonho

“Achei que podia ajudar aquela senhora a ser feliz, porque já tem 69 anos, estava muito triste e com depressões constantes”, assegura a portuguesa de 21 anos, a viver em Londres com a mãe, Anabela. “A Dona Ângela vivia com muitas dificuldades, com a ajuda de subsídios do Estado, e não tinha acesso ao dinheiro dela. Reside sozinha, tem um sobrinho em Londres, muito amigo dela, mas é a única pessoa”, nota Alexandra.

“Tive um par de reuniões com a senhora e vi que não havia qualquer problema [psicológico] com ela. Achei toda a situação muito injusta”, considera a estudante de Direito, que desde o início se apercebeu de uma “hostilidade” por parte dos advogados na forma como tratavam Ângela Baptista. “Percebi que tinha de a ajudar, como se fosse alguém da minha família”, afiança a jovem vianense, responsável por reabrir o processo e conduzi-lo até ao desfecho favorável, ditado há uma semana pelo tribunal.

“Comecei a enviar formulários e reabri o processo, porque era necessário recomeçar tudo de novo. Obrigou-me a fazer um trabalho de casa e a estudar, desde investigar fontes legais, até ligar para o tribunal a perguntar se estava tudo correto. Fiz tudo sozinha, sem a ajuda de nenhum advogado. Reunimos provas e escrevi páginas e páginas a relatar o que se passava”, lembra Alexandra da Silva.

Após a reabertura do processo, o tribunal enviou uma perita para avaliar o estado clínico de Ângela Baptista, assim como para entrevistar e perceber quem era aquela jovem que acompanhava a sexagenária em todo o processo. “A especialista concluiu ser desnecessário os advogados estarem na posse do dinheiro, por considerar que a senhora estava mentalmente bem”, conta a estudante de Direito.

A história já teve eco também em terras de Sua Majestade, com um artigo do “The Independent” sobre o caso. Para a jovem estudante portuguesa, este poderá ser um ponto de viragem, dada a atenção mediática lograda com o desfecho que processo acabou por ter. “Foi um caso que eu ganhei sem terminar o curso. De alguma forma, pode ser que os escritórios de advogados em Londres tenham isto em vista e me apresentem alguma proposta”, acredita Alexandra, mas sempre com os pés bem assentes na terra.

Por agora, só pensa em concluir o curso e entrar para a Ordem Jurídica Britânica, estando já a pensar na dissertação. Quando lê algumas das inúmeras mensagens de apoio que tem recebido, diz ficar com lágrimas nos olhos, lembrando sempre a importância da mãe, pois só graças a ela teve a oportunidade de estudar e seguir o sonho de “pequenina”, quando com sete ou oito anos já tinha o “bichinho” pelo Direito. Foi também com a mãe que aprendeu a lutar por aquilo que queria, desde o dia em que aterrou em Londres, quando mal conseguia comunicar no idioma de Shakespeare.

“Por vezes, quando ia na rua, tinha sede e queria pedir um copo de água. A minha mãe respondia-me: ‘vais tu lá pedi-lo ou não bebes’. E eu deixava que toda a gente passasse à minha frente, porque ainda estava a pensar que palavras deveria utilizar.” Atualmente, a jovem de 21 anos já conhece muitas palavras e foi parte fundamental para escrever uma das mais importantes páginas na vida de Ângela Baptista, prestes a cumprir o sonho de adquirir um apartamento na Madeira.

Tudo porque, na paixão pelo Direito, Alexandra foi grande.