Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Por amor à casa

CASA D´AURORA. Em Ponte de Lima, como sucede frequentemente no Minho, está uma das casas senhoriais habitadas com afeto, há séculos, pela mesma família

rui duarte silva

Histórias de casas antigas e senhoriais, que atravessaram séculos e resistiram ao tempo, contadas por quem as habita

Cada casa é um organismo vivo. Sentimos a sua respiração quando a percorremos com vagar, observando os objetos que ficaram pousados nos móveis e nos dão conta do gosto de uma época e da riqueza dos seus proprietários. Uma casa é uma bolha que agarra o tempo e o transporta. O tempo é a memória das pessoas que a habitaram.

“A história que cada um carrega faz parte da nossa história privada. Torna-se pública quando o seu o património histórico e cultural acrescenta memória ao coletivo”, sublinha José Sarmento de Matos, historiador de arte, olisipógrafo, que há muitos anos estuda o património civil nacional: “Um solar, um palácio, seja o que for, só tem história enquanto for habitado pelas famílias que a marcaram ao longo de séculos. Quando se vende, a alma desaparece. Na Alemanha ou em Inglaterra, por exemplo, muitas das grandes casas senhoriais ainda estão nas mãos das famílias e são apoiadas pelo Estado. Os donos continuam a lá viver, mas também podemos visitá-las. Em Portugal, o poder político nunca teve sensibilidade para entender a importância desta riqueza, num contexto histórico e cultural.” Pedro Cassiano Neves, também historiador de arte, membro do movimento Fórum Cidadania Lisboa, acrescenta: “O nosso património civil é riquíssimo. Ainda há muitas casas que estão nas famílias desde a sua fundação apesar de ser muito dispendioso e difícil mantê-las. Nos últimos anos, muitas foram demolidas e transformadas em edifícios descaracterizados. Agora, com a pressão imobiliária para vender, tudo se torna mais complicado”, diz o investigador. E alerta. “O vínculo de quem herda é uma coisa que se constrói e transmite. Receber um património implica direitos e deveres.”

Revoluções, o fim da Lei do Morgadio (1893), heranças ruinosas, partilhas fratricidas, são algumas das feridas mais profundas que correm no ADN de uma casa. De Norte a Sul, escolhemos quadro residências senhoriais, que marcam a terra onde se inscrevem e cujo património se mantém desde a sua fundação. É através dos objetos e das memórias de família narradas pelos donos atuais que contamos as suas histórias.

Aurora. Uma casa aberta 
ao mundo

Em abril de 1952, a bailarina inglesa Margot Fonteyn foi dançar ao Porto e ouviu falar das tradicionais danças do Minho. Dizem que ficou tão curiosa que a levaram a Ponte de Lima para que as pudesse observar com os seus próprios olhos, e foi recebida em casa de José de Sá Coutinho: “Dear Conde, não lhe posso descrever quanto gostei da tarde passada em sua casa e como me sinto orgulhosa de ter participado no Vira...”, escreveu Fonteyn numa carta dirigida ao seu anfitrião, mal chegou a Londres. Nada ficaria desse longínquo início da primavera de 52, não fosse o acontecimento ter-se perpetuado na memória dos familiares nas décadas que se seguiram, como o dia em que aquela que era considerada a maior bailarina de todos os tempos aprendera em breves minutos os complicadíssimos passos da dança do vira e rodopiara no pátio da casa, com o rancho de Santa Marta de Portuzelo, ao som das concertinas. Também Gilberto Freyre, e tantos outros nomes da cultura, nos dá conta de um quotidiano ali partilhado: “O meu já querido amigo conde D’Aurora, magro, anguloso, romântico... Levou-me a gozar as suas paisagens preferidas, no momento exato em que os azuis da Ribeira Lima são mais belos para os olhos dos gourmets de paisagens”, recorda o ensaísta brasileiro.

Perto da casa, no largo de São João, está uma estátua do 3º conde D’Aurora, discretamente sentado num rebordo de granito, como se por ali tivesse ficado a descansar depois de regressar das suas deambulações etnográficas. Este homem, formado em Direito, juiz do Tribunal de Trabalho do Porto, andava sempre de máquina fotográfica Leica pendurada ao ombro, registando a vida rural e as gentes do Lima. Foi fotógrafo e etnólogo amador e dedicou à terra vários livros sobre as feiras, as festas, o linho, as casas e deixou uma monografia preciosa sobre o vale do Lima. “Não há povo sem paisagem”, escreveu nas suas notas. A essência da casa ficou marcada por esta ligação vernacular ao território das raízes, a par de uma mundanidade intelectual, menos usual entre os fidalgos do Minho.

Este solar nortenho, que fica numa das entradas do centro da vila, foi construído na primeira década do século XVIII por um João de Sá Coutinho — sexto avó dos atuais proprietários da casa — fidalgo e desembargador do Tribunal da Relação do Porto. Os jardins de buxo e árvores de grande porte, muitas delas exóticas, e a mata generosa em espécies autóctones, fazem parte do espólio de riquezas que se mostram às visitas.

Da vasta prole do 3º conde D’Aurora — sete raparigas, dois rapazes e 54 netos — coube ao sétimo filho, o primeiro varão, João de Sá Coutinho, herdar o título. João Coutinho, que foi o primeiro embaixador de Portugal nos primeiros governos africanos lusófonos — Guiné-Bissau, Cabo Verde Angola — fez de Aurora a sua casa de família. Quando se reformou do último posto onde esteve como embaixador, no Vaticano, fez reformas na casa, catalogou toda a biblioteca e manteve a tradição da casa aberta. Nas recordações de Conceição Correia de Barros, uma das suas sobrinhas, a transição entre a casa do avô e do tio não foi notada. “Amo esta casa. E ainda hoje sou recebida como sempre fui. Quando chego, quase me parece ouvir, no ranger da madeira do soalho, a casa a falar comigo e a dar-me as boas vindas.”

rui duarte silva

Ponte de Lima. Conceição Correia de Barros, Rosário de Sá Coutinho e João Rodrigues. A ligação à casa de família (na fotografia em cima) e a Ponte de Lima é uma herança afetiva e primordial

Ponte de Lima. Conceição Correia de Barros, Rosário de Sá Coutinho e João Rodrigues. A ligação à casa de família (na fotografia em cima) e a Ponte de Lima é uma herança afetiva e primordial

rui duarte silva

Em 2012, Rosário de Sá Coutinho, na altura com 43 anos, herdou-a juntamente com os seus irmãos José e João. É ela quem conserva a casa, mas todas as decisões são tomadas em conjunto. A relação mais íntima e permanente com o lugar da sua infância começara um anos antes, quando, por uma circunstância da vida profissional — era jornalista, ficou sem trabalho — tomou a decisão de sair de Lisboa com o marido, João Rodrigues, para se instalarem aqui. “Parecia-me a coisa lógica. Como se a casa estivesse a puxar por mim”, reflete agora. É uma constatação que lhe dá conforto e sentido à vida. Compara o seu sentimento em relação à herança de Aurora com uma frase que viu num anúncio de um relógio: “Nunca somos donos de um Patek Philippe, apenas tomamos conta dele para as próximas gerações”. “É o que sinto. A casa já está aqui há mais de 200 anos, nós só estamos de passagem”, diz Rosário, que não tem filhos, sentada numa ponta da mesa que ocupa todo o centro da sala de jantar. A sala é pintada de verde e tem portas de madeira e vidro pesado que distorce o reflexo das árvores e das sombras. O soalho de trave comprida é de pinho cru, parece ter sido lavado com sabão. Tudo se mantém igual. Como se o tempo não tivesse passado. “Não é por saudosismo nem nostalgia”, esclarece: “O charme desta casa é a paragem no tempo. É precisamente isso de que as pessoas gostam.” O peso da história traz vantagens. Rosário, começou a organizar visitas guiadas, que podem incluir um jantar na sala ou um copo no jardim.

Percorremos os salões. Todas têm nome em virtude do seu ocupante mais marcante. A do embaixador, a do fundador, a da Índia... Com o seu mobiliário extravagante, esculpido em rendilhado nas madeiras exóticas ou a surpreendente cama Namban, num quarto onde já ninguém dorme, e que está em vias de classificação para ser considerada tesouro nacional. A maioria das peças foi trazida do Oriente em meados do século XIX pelo filho do 1º conde D’Aurora, juiz da Relação em Goa, que teve de regressar ao Minho inesperadamente para herdar a casa e o título por morte do irmão mais velho. Fez um bom casamento, com uma senhora da casa de Bertiandos, um dos solares mais emblemáticos do Minho, e juntou um grande património. Depois de muitos anos sem filhos, resolveu fazer um testamento a favor dos sobrinhos e parentes. A mulher acabou por engravidar inesperadamente e reza a história que, no dia do batizado do filho varão, mandou o conde encher a fonte de vinho verde em vez de água, tal era a alegria. Nesse dia, ao fim da tarde, teve uma apoplexia fatal e já não foi a tempo de alterar o testamento. O processo esteve em tribunal até se conseguir repor uma parte da herança e a casa regressar à família.

O património da casa alimenta a casa. Duas casas dos caseiros recuperadas são alugadas por Rosário Sá Coutinho para turismo. Venderam-se algumas parcelas de terra, outros ajustes foram feitos, como rendas de casas atualizadas que já vinham do tempo do avô. “Tudo se aproveita. Só se arranja o que é necessário. Quando se chama um empreiteiro, é logo preciso mudar tudo. Mas nas casas antigas a filosofia tem de ser outra. Fomos comprando máquinas e agora aprendemos nós mesmo a fazer as coisas. Entretanto, a casa também dá muito em troca. Beleza, conforto, alegria e chatices. Mas logo à partida lançamos a coisa de outra maneira. Nunca dizemos que é um prejuízo. É um investimento. Se ficarmos aqui durante muito mais tempo a nossa memória também pode ser perpetuada.”

Schubert em Setúbal

À saída de Setúbal, uma estrada de terra leva-nos até à Quinta das Machadas. Ao entrarmos deparamos com um frontão que conduz a um jardim misterioso, com uma inscrição gravada na pedra que nos assinala que, em 1825, aqui se hospedou D. João VI com duas infantas. A casa, rodeada de árvores, é discreta. Apesar do estilo pombalino, está envolvida num cenário romântico. Foi construída, em 1770, por Jacob Friederich Torlado, comerciante rico, descendente de um alemão de Hamburgo, que implantou na região o comércio de exportação do sal e das laranjas para os países nórdicos. É por via do casamento de uma filha deste Torlado, com Carlos O’Neill, filho de um chefe de um clã real irlandês, exilado em Portugal, em 1740, devido às lutas entre católicos e protestantes no tempo de Isabel I, que a casa entra na família. Foi casa de verão, até à Revolução de 1974, quando Hugo O’Neill, o atual proprietário, se mudou para Setúbal e fez dela a sua residência permanente, primeiro com a sua primeira, mulher, Rosa Maria, e os 4 filhos, agora com María del Carmen, por quem se apaixonou há 10 anos numa corrida de touros em Barcelona.

Há 12 anos, assumiu a responsabilidade de ser o presidente da Associação Portuguesa das Casas Antigas, cuja função é representar os proprietários das casas nobres e senhoriais que ainda existem no país, e envolvem mais cerca de 400 classificadas e mais de 15 mil por classificar. A principal tarefa da associação é tentar conseguir junto dos decisores políticos formas de resolver alguns problemas com que se deparam os proprietários para conseguirem manter as casas. “Isenção de taxas de IMI e IMT para as casas classificadas. Depois, em regime de colaboração com a DGPC, procurar fazer um levantamento do património civil, privado, que existe”, esclarece. O próximo ano será o Ano Europeu da Herança Cultural, e O’Neill, que faz parte Associação Europeia das Casas Históricas, está entusiasmado com as possibilidades que se podem abrir a partir deste encontro. Também a Quinta das Machadas está em vias de classificação e seu dono, com 78 anos, começou a projetar sonhos: “Queria transformar um lote da quinta num condomínio turístico ou residencial, para receber portugueses e estrangeiros que aqui queiram passar temporadas e se interessem por um certo modo de viver.”

Setúbal. A Quinta das Machadas é uma casa pombalina com ambiente romântico

Setúbal. A Quinta das Machadas é uma casa pombalina com ambiente romântico

luís barra

Ancestral. Com origens irlandesas muito antigas, Hugo O’Neill é um guardião das raízes dos antepassados

Ancestral. Com origens irlandesas muito antigas, Hugo O’Neill é um guardião das raízes dos antepassados

luís barra

Acolhidos pela sombra de um monumental castanheiro da Índia, Hugo guia-nos por um universo de histórias de herdeiros das tribos de uma Irlanda mítica, cuja herança de sangue se inscreve no carácter da família. O seu modo de ser, mais tradicionalista do que monárquico, foi também moldado numa certa mitologia de raízes druísticas e vivências passadas: “Sou o quinquagésimo quinto descendente na linha varonil”, informa. Foi ele quem fez a ligação à família da Irlanda, “com quem estavam de relações cortadas há 400 anos”, e em 1982, organizou com o atual lorde O’Neill irlandês uma viagem às terras de origem da família, “para dar essa satisfação ao pai antes de morrer.” No interior da casa, de escadas labirínticas, revelam-se as personagens que fazem parte de vida de Hugo. Conhece todos os homens e mulheres que nos observam impassíveis dos quadros na parede. Um deles, é Jorge Torlado O’Neill neto do fundador. Tem rosto severo, barba densa... Afinal, foi um personagem excêntrico, segundo relatos dos familiares. Na juventude, durante as guerras liberais de 1820, estudou na Dinamarca, onde ficou amigo de Hans Christian Andersen. Conta-se que, anos mais tarde, o escritor dinamarquês veio passar uma temporada a casa do amigo e quis conhecer D. Fernando. Jorge treinara-o a dizer “vá lamber sabão!” sem sotaque. Quando o famoso se inclina com grande pompa perante o rei e lhe dirigi o cumprimento, toda a gente desata numa gargalhada e D. Fernando exclama: “Vê-se logo de onde vens!”

Noutra fotografia, o avô de Hugo, que também tem este nome, aparece num almoço campestre, com vários convidados ilustres do rei D. Carlos, depois da última caçada real no Paço de Vila Viçosa, dois dias antes do assassínio do Terreiro do Paço, a 1 de ferreiro de 1908. Não chegou a conhecer o avô paterno, no entanto sente-se tão intimamente ligado a ele que, segundo nos diz, poderia reconstruir todos dias da sua vida. “Era oficial no yacht ‘Amélia’”, descreve acentuando a palavra inglesa. “No dia 5 de outubro de 1910, quando soube da proclamação da República, foi de bicicleta até ao Alfeite para ver se ainda conseguia apanhar o barco na Ericeira que levava os reis para o exílio. Não chegou a tempo. Na página do seu diário desse dia, escreveu: ‘E agora?’ Era um homem íntegro, incapaz de mentir, que teve um processo complicadíssimo na crise de 29 e perdeu uma boa parte da fortuna. Morreu com grande amargura”, remata. Do pai, engenheiro e matemático, pensador livre, e amante da vida de cultura, herdou o prazer da ação. Compara este lugar, que transporta desde que se conhece, ao ambiente das notas românticas de uma sonata de Schubert. “Perceber o passado”, reflete, “é uma forma de ver o tempo. Na verdade não é mais do que a memória que deixaram as pessoas que por aqui passaram e que só se mantém enquanto houver alguém que se lembre delas.”

Um palácio sobre a planície

À entrada de Serpa, o Palácio dos Condes de Ficalho impõe-se na paisagem que contém a vila muralhada. A frontaria é medieval. A casa, edificada no século XVII, foi construída entre dois torreões da muralha e prolonga-se até ao aqueduto. O perfil dos ciprestes do jardim dá um enquadramento ao corpo do edifício, classificado como monumento nacional. A visão é surpreendente. Pedimos a Matilde Mello Gago da Silva, a atual dona, para nos descrever os interiores, antes de entrarmos: “Diria que tem uma austeridade que se impõe. É uma casa que respira, que tem personalidade própria independentemente da forma como foi sendo habitada.” Durante duas horas e meia, entre Lisboa e Serpa, Matilde, que é funcionária pública, conta-nos o que ouviu contar: “No tempo de D. Manuel I, os Mellos instalam-se em Vila Verde de Ficalho e em Serpa. Não eram gente da corte, eram militares. Inicialmente, esclarece. Na complexa genealogia familiar, tomamos nota de um senhor que foi governador do Brasil, outro capitão de navio que viveu em Malaca e um bispo da Guarda, que foi inquisidor. O enriquecimento, adquirido com o dinheiro ganho nas praças conquistadas pelos portuguesas, tão típico do património da nobreza do século XVIII, aliado a casamentos com proprietários de grande latifúndio, deu origem a uma das famílias mais ricas do Alentejo. Depois das guerras liberais, os Mellos, que andavam entre Serpa e Lisboa, instalam-se na corte, no Paço dos Marqueses de Ficalho, no Bairro Alto, na Rua dos Caetanos”, continua Matilde. Entre as figuras que lhe marcam as memórias é Francisco de Mello Breyner, conde de Ficalho, seu trisavô, quem mais se destaca. Gosta de se rever neste antepassado, que quebrou a tradição de homens ligados à agricultura e à defesa, e teve uma vida intelectual e de ciência. O conde Ficalho foi um dos destacados dos ‘Vencidos da Vida’ — o grupo de personalidade da cultura e da política de então onde pontuavam Ramalho Ortigão, Guerra Junqueiro ou Eça de Queirós e reuniam-se no Tavares de Lisboa. É a descendente que descreve: “Era filho do marquês de Ficalho, escreveu contos, livros, e dedicou-se ao estudo da botânica, foi professor catedrático da disciplina na Faculdade e Ciências de Lisboa, dirigiu o Jardim Botânico da Ajuda, mas adorava vir para Serpa, onde caçava, escrevia e colaborava numa revista etnográfica da região. Convidou uma série de personalidades a escreverem textos”. Estas estadas prolongadas em Serpa surpreendiam o citadino Eça, de quem Matilde descende, pois a mãe era bisneta do escritor. Cita uma carta do escritor para um amigo: “Estive em Serpa. Lá encontrei o conde de Ficalho. Não percebo o que fica tanto tempo a fazer, naquela casa gelada e decadente, embrulhado num capote”.

Entramos. Pé direito de nove metros, tetos em abóbada, soalho de tijoleira coberto de grande tapetes de cairo escuro, paredes de cal revestidas a azulejo... o palácio de Ficalho conserva no seu interior uma austeridade de rudeza alentejana, misturada com a sofisticação de uma casa senhorial de verão. Os terraços pairam sobre a vila, trazendo para o interior a vastidão da planície. O tempo dos caçadores da casa, cujos troféus foram postos nas paredes da sala de entrada, alinhados com os quadros dos antepassados. A casa recebe e acolhe. Engole as fissuras. Recentemente, foram feitas partilhas. Objetos e móveis saíram, deixando espaços vazios. Matilde é proprietária há menos de dois anos, faz planos para em breve vir viver para cá. Herdou-a depois de um processo moroso, entre a sua parte e a dos sobrinhos, filhos do irmão mais velho que morreu. É uma herança pesada, mas da qual não se conseguiu separar pelo amor que sente pela casa, onde cresceu e se casou em 1975, em pleno período da Reforma Agrária. “Nessa altura, andava encantada com a revolução”, conta, explicando que a casa nunca foi ocupada, mas as terras acabaram por ficar temporariamente nas mãos dos rendeiros. Nessa época, os pais vieram viver aqui. “O meu pai, que se formou em Direito, na década de 40, tornou-se agricultor, mas deu-se mal com a agricultura. Depois trabalhou numa empresa. Era um homem preocupado com o património, muito tenso. Adorava esta casa e fez grande obras que a beneficiaram até hoje. A dada altura quis fazer da casa uma pousada. Chegou a fazer projetos. Nunca conseguiu andar para a frente.”

Alentejo. Sala dos Espanhóis no Palácio dos Condes de Ficalho, em Serpa

Alentejo. Sala dos Espanhóis no Palácio dos Condes de Ficalho, em Serpa

luís barra

Serpa. Matilde e Maria do Mar, mãe e filha, acreditam que podem abrir o palácio de Ficalho à comunidade

Serpa. Matilde e Maria do Mar, mãe e filha, acreditam que podem abrir o palácio de Ficalho à comunidade

luís barra

Maria do Mar, uma das duas filhas de Matilde, acompanha a visita, com o filho Vicente, que veio passar as férias. Para ela, esta herança, representa uma responsabilidade: “São formas de viver que acabaram, mas ao mesmo tempo insistem em subsistir. Também por isso somos muito conservadores com a casa, que tem uma norma, uma simetria que lhe pertence e se impõe. Essa é a sua alma. Temos de respeitar o jogo de equilíbrio das coisas, que está além de nós”, explica Maria. Agora é tempo de transição. Os encargos são pesados. A família faz um inventário de possibilidades. “Gostava de encontrar uma maneira de a poder sustentar e poder fazer coisas que a abrissem à comunidade de Serpa...” A presença do conde de Ficalho paira. Matilde, lentamente, já começou a organizar fotografias, originais, papéis dispersos, agora expostos numa galeria. Pode vir a ser um espaço museológico. Maria do Mar traz uma grafonola com gravações antigas. De repente, cortando o silêncio e o barulho das cigarras, as vozes de cantares alentejanos invadem a sala. “A última vez que dançámos aqui foi quando houve um grande fogo de artifício. Rebentou 18 vidros das janelas! Lembras-te?” A frase de Matilde ecoa na sala como o clarão branco do fogo de artifício a iluminar os retratos dos antepassados. Durante o almoço, Vicente, de 15 anos, tinha dito: “Às vezes parece que ouvimos barulhos. Esta casa é tão grande, pode fazer é medo.” A mãe explicara: “Quando era pequena também sentia medo, achava que havia fantasmas. Tens de lhes dizer: Eu também sou um Mello. Conheçam-me. Estou aqui no século XXI.”

Carnide. O passado 
não existe

“Todas as segundas-feiras, às oito da manhã, reúno-me com o meu empregado de longa data, Manuel Rodrigues, para vermos o que é preciso fazer. Faço a gestão desta casa como se fosse uma empresa. Não há outra maneira”. Alexandre Arriaga e Cunha introduz assim o Palácio de Carnide, num dos eixos da periferia de Lisboa. Nunca morou noutro sítio, não se conhece nem se imagina fora deste ambiente. Tudo está impecável. O chão de madeira e mármore, a escadaria de entrada, os azulejos, as pratas nos armários que ainda servem nos jantares. Foi daqui que saiu o quadro “Adoração dos Reis Magos”, de Domingues Sequeira, comprado numa ação de crowdfunding pelo Museu de Arte Antiga. Mostra-nos uma fotografia onde está ao colo da mãe, Maria Luísa, uma das filhas dos onze filhos do duque de Palmela. Não conhece a maior parte dos retratos antigos que ocupam as paredes, nunca o prenderam: “A casa é antiga, mas eu pus tudo à minha maneira com as coisas que já cá estavam. Está vivida, não ficou parada no tempo”, explica. Descemos à cozinha. Ao lado do forno antigo havia um elevador para transportar a comida para a sala de jantar no primeiro piso. “Não sente um cheiro particular?”, pergunta. “A casa ardeu em 1975. Às vezes ainda me parece sentir um certo cheiro a queimado”. O fogo começou aqui, quando se deu por isso já não havia nada a fazer. Grande parte da casa ardeu. “Foi o meu avô paterno que reconstruiu a casa toda.” São estas as coisas de que lhe interessa falar. Quando isto aconteceu, Alexandre ainda não tinha nascido. Tem 56 anos. Até há um mês trabalhava na vacaria que lhe deixou o pai. Começou a trabalhar aos 20 anos. “Hoje tenho mais de 700 cabeças de gado”. Mas há um mês trespassou o negócio para o seu colaborador mais próximo, com quem trabalhou anos a fio. “Quando decidi sair, defendi quatro propósitos. O principal foi pensar que no dia em que me acontecer qualquer coisa, isso pode cair no colo das minhas filhas. E, depois, o que é que acontecia à vacaria e aos trabalhadores?” No último dia de trabalho, vestiu o fato-macaco, calçou as botas de borracha e foi despedir-se dos empregados. Agora anda encantado a fazer obras no lagar. É, provavelmente, o sítio mais antigo da casa, com cerca de 300 metros quadrados, com dois tanques enormes para pisar as uvas. Indica uma trave que tem a inscrição da data de construção: 1763, oito anos depois do terramoto que destruiu Lisboa.

A casa, originalmente, pertenceu a Ana da Cunha, viúva de um dos homens mais ricos e influentes, na época do marquês de Pombal. Não teve filhos. Deixou-a aos sobrinhos do marido do segundo casamento, um senhor Street de Arriaga, com a condição de usarem o seu apelido. Assim, o Cunha entrou para a família, simultaneamente com o edifício, de linhas rígidas, que ocupa um quarteirão. Esta proximidade de vizinhança, marcou as relações entre a gente do palácio e a de Carnide, no sentido da responsabilidade social. “O meu pai, agrónomo, a quem nunca ouvi mencionar a palavra ‘palácio’ ou dar importância ao título de conde, contou-me que o sonho de infância dele era conseguir pôr leite, em vez de água, a correr de todas as torneiras do bairro. Foi este sonho que deu origem à construção da vacaria, a 17 quilómetros de casa, que lhe permitia trazer leito fresco no carro para consumo da família e das famílias mais necessitadas do bairro”. Também Alexandre guarda amizades de infância com outros ‘filhos’ de Carnide, com quem cresceu a brincar na quinta e na mata de casa. Reconhece que são mundos à parte. Para ele, Carnide é o centro do universo, o lugar primordial, do qual não gosta se afastar. “Tenho uma paixão por esta terra, dá-me conforto espiritual, afetivo. Amo esta casa profundamente. Todos os dias, quando meto a chave à porta e entro, dou graças por viver aqui”, diz-nos.

Carnide. Alexandre Arriaga e Cunha, herdeiro dos condes de Carnide, está interessado em viver o presente na casa construída pelos seus antepassados

Carnide. Alexandre Arriaga e Cunha, herdeiro dos condes de Carnide, está interessado em viver o presente na casa construída pelos seus antepassados

luís barra

Passeamos pelos jardins em direção a uma alameda de oliveiras centenárias. Ao longe, o recorte dos prédios do Benfica, o barulho do movimento na 2ª Circular acentua o contraste entre o citadino e o rural, tão característico desta zona de Lisboa. A quinta foi propriedade agrícola, onde se produzia vinho, azeite, leite: “Cresci no meio dos bichos, mas não eram de companhia, eram de trabalho. Lembro-me do meu pai ir de cavalo para a vacaria”, recorda.

Nas memórias de Alexandre, o pai e o avô paterno, José Schindler Street Arriaga e Cunha, engenheiro, e o pai, José Manuel, agrónomo, são as figuras que se destacam. Homens de trabalho dedicados à terra, pragmáticos no modo de agir. As grandes obras no património da casa e da quinta são feitas pelo avô na sequência de dois desastres. O primeiro, um ciclone tremendo na década de 30, que derrubou toda a mata. Alexandre gravou uma imagem que lhe contou o pai, do avô a chorar ao ver as árvores pelo ar. Disse: “Vou plantar duas mil árvores e reconstruir a mata. E fê-lo. Aprecio muito esta determinação”.

Com 20 anos, o seu pai, José Manuel, 3º conde de Carnide, perdeu a mãe. A casa fica entregue aos dois homens. “O meu avô teve um desgosto enorme. Nessa altura a casa atravessou a sua fase mais austera. Não imagino nenhum dos dois preocupados com o conforto das salas. Só quando a minha mãe entrou aqui, quando os meus pais se casam, em 1950, Carnide voltou a brilhar. Era uma dos onze filhos do duque de Palmela, tinha um sentido estético apurado e quando a minha avó materna morreu foram feitas partilhas, a minha mãe trouxe um espólio que deu à casa uma sofisticação e um conforto que ainda hoje estão presentes.” Alexandre, o filho mais novo, herda este património com 34 anos. Palácio, cavalariças e o lagar incluídos e também a quinta: cinco hectares. É o irmão mais velho, José Manuel, quem determina esta herança. “Quando os meus pais morreram fui ter com o meu irmão e disse-lhe: ‘Quero fazer partilhas, eu divido, tu escolhes. Carnide para um lado, o resto para o outro.” Ao fim de seis meses, a decisão estava tomada. E estaria disposto a perder? Alexandre garante que sim: “É uma responsabilidade tremenda”, mas acrescenta: “Somos influenciados pelas casas onde vivemos. Uma casa grande obriga-me a ter empregados, gente que vive em minha casa e sabe como eu gosto de ter as coisas. Eu trato de tudo. Adoro isto. Se perdesse a casa sentia-me amputado, nem sei como seria. Mas também lhe digo que tenho a casa no mercado. Não sei se para as minhas filhas não será uma herança muito pesada. A vida delas pode ser outra. O mais importante são as pessoas, os bens materiais não podem tornar-se um peso. Gosto da casa enquanto ela gostar de mim.”