Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Como a voz se tornou no novo campo de batalha da tecnologia

Regressei sábado de Berlim daquela que é a maior feira de Eletrónica de Consumo da Europa. A IFA existe desde 1924 e pelos corredores da Messe Berlin (o maior centro de exposições da cidade alemã) passaram, nesta corrida rápida para a comemoração do centenário, génios como Einstein ou infames como Goebbels, o ministro da propaganda Nazi. A feira alemã é, sem dúvida, o maior e mais importante certame de tecnologia na Europa. É mais abrangente que o Mobile World Congress (a feira dos “telemóveis” que ocorre no final de fevereiro em Barcelona) e mais mediática que a CeBIT (a maior feira de tecnologia do mundo dedicada quase em exclusivo ao B2B, business-to-business).

E o mercado da Eletrónica de Consumo está pujante. Segundo os organizadores da IFA, o setor vai valer este ano perto de 900 mil milhões de euros. Um crescimento de 4% em relação ao ano anterior. E caso alguém tenha dúvidas, posso adiantar que, mais uma vez, os 160 mil metros quadrados da Messe Berlin estavam totalmente esgotados. Mais de 1800 empresas vindas de todo o mundo aproveitaram o certame para mostrar o que de melhor se faz no setor. E, como me foi possível comprovar, a Eletrónica de Consumo não está num momento de revolução, mas de evolução. Nos televisores, a Ultra Alta Definição (o 4K) assume-se como a resolução padrão e o OLED da LG continua a dar cartas com a Sony e a Panasonic a mostrarem, igualmente, propostas nesta tecnologia de ecrã. A Samsung mantém-se fiel ao LCD investindo em melhorar esta tecnologia de painel e, estranhamente, sem se posicionar no OLED. Reforço o “estranhamente” porque o fabricante coreano tem a capacidade de produzir ecrãs OLED (nos quais cada píxel – ponto no ecrã – tem iluminação própria) de grande dimensão, mas não o faz. O que estará a impedir este movimento é, para mim, um dos grandes mistérios da indústria. O que sabe a Samsung sobre a tecnologia OLED que está a condicionar a sua entrada no mercado? Ou será o processo de fabrico demasiado caro para sustentar o modelo de negócio dos televisores (que ainda tem margens apetecíveis nos ecrãs acima das 40 polegadas)? Não sei. E ninguém, além dos administradores da Samsung, sabe a resposta a esta questão.

Assistentes virtuais por todo o lado

A maior tendência da IFA deste ano é a massificação de dispositivos que integram assistentes inteligentes de voz. Explicando melhor. Há vários fabricantes a disponibilizar equipamentos preparados para obedecer a comandos de voz provenientes, maioritariamente, de duas plataformas: a Alexa, da Amazon; e o Assistente Google, da Google. Há colunas de som que nos dizem como vai estar o tempo, os resultados da bola ou, por exemplo, a cotação em bolsa de determinada empresa. Tudo isto feito sem pressionar um único botão… é só falar que o sistema entende. Tecnologia que hoje já está disponível nos telefones Android, no iPhone ou numa miríade de pequenos equipamentos fabricados pelos próprios produtores da plataforma. O que interessa reter é que o futuro da interação será feito de viva voz. E isso foi comprovado na IFA. O que levanta questões sobre a formação de monopólios nesta área. É preciso perceber que estes assistentes virtuais vão ser capazes de interagir com uma série de dispositivos e serviços. Ligar as luzes de casa, por exemplo, já é possível usando um simples comando de voz. Rapidamente, estaremos a falar com o frigorífico para encomendar as compras e com o forno para saber se o peru já está estufado. É para esse futuro que estão a posicionar-se os fabricantes e vão apoiar-se nas três plataformas já referidas e numa quarta, a Cortana, da Microsoft. Ou seja, dificilmente haverá espaço para mais players no mercado. No entanto, é preciso não esquecer que a Facebook tem o seu próprio assistente, o M, que ainda está numa fase de balão de ensaio nos EUA. Aliás, a Samsung também está a colocar o Bixby (o assistente que advém da aquisição, o ano passado, de uma empresa de inteligência artificial) nos seus smartphones mais poderosos. Terão ainda tempo para conquistar espaço no mercado? Talvez não. Aliás, será pertinente antecipar se algum dia vamos ter estes assistentes virtuais a entender bem o português de Portugal? (a Google é a que está mais adiantada)

Este, o dos assistentes virtuais, é um novo campo de batalha da tecnologia onde vai ganhar quem melhor dominar os algoritmos que vão dar inteligência a todo este ecossistema que envolve dispositivos, software e serviços. Ou seja, muito dinheiro.

O poder da tecnologia desenvolvida em Portugal

Nos eletrodomésticos é a inteligência que continua, paulatinamente, a conquistar os dispositivos. Já não é novidade ver frigoríficos que tiram fotos ao interior e enviam o conteúdo para o telefone (uma boa forma de saber se é preciso comprar ovos) ou a forma como estes equipamentos conseguem ser mais eficientes em termos energéticos e em processos de conservação dos alimentos. Aliás, já nem me espanta aceder à Internet a partir de um ecrã colocado na porta do frigorífico. A novidade passa agora por conseguir otimizar processos. A Vestel, a Grundig, a LG e a Samsung (só para referir alguns) mostraram máquinas que conseguem fazer melhor em menos tempo. O que mais me impressionou? A tecnologia portuguesa que está a ser integrada em dispositivos da Grundig. A Covii é de Vila Nova de Gaia e desenvolve tecnologias de interação apoiadas em computação. Foi o desenvolvimento da plataforma Vux que levou a Arçelik (a holding turca que é dos maiores fabricantes mundiais de eletrodomésticos) a comprar 50% da empresa portuguesa em 2015. E o que é a Vux? É uma tecnologia que permite transformar as bancadas das cozinhas em superfícies interativas onde é possível misturar tachos e panelas (a cozinhar) e ver vídeos do YouTube ou, por exemplo, ouvir música e ver a letra da canção desfilar no mármore da bancada. Parece que estamos num qualquer filme de Ficção Científica quando os comandos virtuais que permitem subir a temperatura do tacho surgem quase ao lado dos botões de volume, também eles virtuais, da coluna de som que está ali mesmo ao lado.

Nos dois dias que estive nesta feira vi muita coisa, mas nada me impressionou tanto quanto a confirmação (já tinha visto a primeira versão da Vux há dois anos) de que a tecnologia da Covii amadureceu na direção certa e continua a ser tão disruptiva como no primeiro dia.